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Nada merece mais análise – no sentido terapêutico mesmo, ou melhor, no sentido de eletrochoque – do que o discurso atual da esquerda de que um voto em Lula, apesar do desastre geracional que é seu governo, é um voto “pela democracia”. Um voto em Bolsonaro seria um voto num “golpe” (sim, um “voto num golpe”, seja lá o que for), uma “ditadura”, um risco aos “direitos”.
A tal “democracia” que só poderia existir com a continuidade do desastroso governo Lula e seu café 72% mais caro em 3 anos é aquela “democracia” do inquérito das fake news do STF. É a “democracia” do inquérito dos atos antidemocráticos. É a democracia do X fora do ar e de todos os brasileiros serem ameaçados de multa de R$ 50 mil por dia se escreverem “oi”, em um processo no qual não foram citados (e que se iniciou por um “reply” dentro da própria rede). É a democracia que proíbe um documentário que ainda não foi finalizado, alegando que é uma situação “excepcionalíssima”, mas que, se acabar “desbordando para uma censura”, aí é para se reformular e “acatar integralmente a Constituição” (ou seja, já se censurou e já se abandonou a Constituição, que não pode nunca ser acatada pela metade).
Isto tudo depois de 8 anos de inquérito das fake news – um inquérito aberto de ofício, que teve pedido de arquivamento pela excelente PGR Raquel Dodge, e o STF, contrariando o Direito, manteve-o mesmo assim.
O “inquérito do fim do mundo”, que usa uma norma de um prédio para acabar com a democracia e o Estado de Direito. Em que a mesma pessoa investiga, julga e é a suposta vítima. Em que tudo é secreto
Em que não se tem clareza nem do que se investiga, nem ninguém sabe do que está sendo acusado. Nem ninguém sabe se está no inquérito – e nem tem acesso aos autos para ter como se defender.
E agora é preciso votar em Lula para “garantir a democracia”?
Há um vezo terrível no Brasil de tratar as eleições de 2022 como a normalidade absoluta. Os inquéritos do STF como “a garantia da democracia” (aliás, era como eram chamados pela mídia, que hoje faz um mea-culpa chocho, dizendo apenas que “exageraram”). A censura sendo defendida com frases prontas (e mentirosas) como “fake news é crime” (não é, e o STF chama qualquer coisa verdadeira de fake news apenas para censurar).
Uma eleição em que Alexandre de Moraes presidiu o TSE e proibiu Bolsonaro de dizer qualquer verdade é tratada como “democrática”. Aliás, em 2022, Alexandre de Moraes chegou a suspender a redução de IPI de produtos que concorrem com os fabricados na Zona Franca de Manaus, por “reduzir a competitividade dos produtos produzidos no local”. Alguém consegue me apontar em que raio de trecho da Constituição (aquela que não foi acatada integralmente por Cármen Lúcia e o TSE) está o artigo dizendo que o IPI não pode abaixar? Tudo para prejudicar Jair Bolsonaro.
Nem falemos do radiolão, o maior escândalo eleitoral da história da Nova República. Propaganda política obrigatória, mas que as rádios só transmitiam a do PT. Alexandre de Moraes julgou o caso (todas as 200 e poucas páginas) em pouco mais de 20 minutos, alegou “ausência de provas” (sic), exigiu multa de R$ 22,9 milhões ao PL por “litigância de má-fé” (!) e bloqueio de suas contas partidárias até quitação e exigiu cópias do processo do TSE para serem integradas aos autos do inquérito dos atos antidemocráticos (!!!).
Em 2022, o TSE presidido por Alexandre de Moraes proíbe Bolsonaro de usar imagens que associem Lula ao PCC (aqueles “nossos terroristas”, como Lula diria depois). Proíbe Bolsonaro de usar imagens do bicentenário da Independência (!!). Proíbe Bolsonaro de usar imagens do discurso em Londres, durante funeral da rainha Elizabeth II. Proíbe Bolsonaro de usar imagens do discurso na ONU. Proíbe de fazer lives em sua casa (que, por sinal, é o Palácio da Alvorada). Proíbe uma propaganda televisiva que chamava Lula de “ladrão” e “corrupto”.
A censura foi até a jornais, como esta Gazeta do Povo, proibida de associar Lula ao seu amigo e parceiro internacional Daniel Ortega, psicopata que promove uma das maiores perseguições religiosas do continente na Nicarágua. Também proibiu que pessoas associassem Lula a drogas, aborto (tema já defendido por Lula), assassinato, censura (oh, ironia!) e fechamento de igrejas.
Isto sem falar na perseguição a Filipe Martins, investigado por ajeitar o paletó, que depois sofreu a maior quebra de sigilo da história do país: pediram todas as suas mensagens privadas, todas as suas fotos privadas, dados de todos os seus contatos, cópia integral do iCloud, cópia de todos os apps em meios eletrônicos, histórico de buscas no Google, histórico de geolocalizações… isto para saber se Filipe Martins havia feito algo errado. Depois, fizeram o mesmo com todos os sites de direita no Brasil: Brasil Paralelo, Terça Livre, Senso Incomum, Conexão Política, Politz e outros. Até a Jovem Pan entrou no balaio.
O pedido de quebra de sigilo era tão malfeito que era feito a CNPJs em diversos lugares do país, alegando-se que “a pessoa trabalha no mesmo andar do presidente”, num copia e cola tosco – brincando com o direito mais sagrado da tal da democracia. Quase todos foram aceitos… inclusive por quase todo o STF. Filipe Martins logo seria preso por uma viagem que não fez, por uma minuta que não escreveu e por uma busca no LinkedIn que não fez. Foi condenado a 21 anos de prisão.
Depois de uma eleição como essa, Lula ganha, para a surpresa de zero pessoas que acompanhavam o processo com informações. Uma turba invade prédios públicos num 8 de janeiro, faz um quebra-quebra niilista, mas, ainda assim, o faz num domingo, com prédios vazios, quase como uma festa de destruição sem sentido.
Oh, agora o STF tem o “argumento” que passa a usar a cada 2 segundos: estão lutando contra “golpistas”. Toda a democracia foi destruída, todo o devido processo legal foi esbulhado, toda a censura foi implantada, porque, depois de tudo isso, uma multidão ficaria revoltada e vandalizaria prédios públicos vazios!
Depois de o STF e o PT terem feito isto com a democracia, agora a ideia é “virar voto” choramingando que só com Lula a democracia está a salvo e que votar em Bolsonaro é um “golpe”?
Afinal, qual o risco à democracia promovido por Jair ou Flávio Bolsonaro? Bolsonaro vai passar a censurar petistas e impedir que petistas digam até verdades, especialmente durante eleições? Vai censurar redes sociais inteiras caso as pessoas comecem a criticá-lo? Vai prender esquerdistas de que não gosta alegando que viajaram, quando não viajaram? Vai criar inquéritos infinitos em que o próprio Bolsonaro é juiz, investigador e suposta vítima? Vai prender todos os baderneiros da Avenida Paulista por golpe de Estado? Vai botar o dedo nas eleições para ganhar na mão grande? Vai pegar acusações contra ele, ignorar em minutos, multar e investigar secretamente quem acusou? Vai fazer quebras de sigilo e buscas e apreensões para saber “se” alguém cometeu algum crime, como falar mal dele?
Pois, meu querido: se este é o “perigo”, é exatamente por isso que até pessoas apolíticas votam em Bolsonaro.

Flavio Morgenstern é escritor, jornalista e roteirista. É formado em Literatura Alemã e estuda as relações entre linguagem e poder, além da decadência da modernidade, especialmente desde a Primeira Guerra Mundial. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



