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Bastou que a Alemanha enfiasse sete gols na coitada e inofensiva seleção de Curaçao para que o brasileiro médio, o homem das ruas, o sujeito que toma o seu café na esquina da vida, caísse de joelhos, em transe catatônico, soluçando o fantasma de 2014. É de uma pusilanimidade retumbante!
O sujeito vê dois algarismos distantes, num jogo em que o Brasil não pisou no gramado, e imediatamente enfia a cabeça na guilhotina da memória, deliciando-se com o próprio pavor. Certa vez tratei do nosso Complexo de Vira-Lata, mas isso é diferente, é algo mais que se soma à viralatice, é uma tara do defunto.
Falta ao nosso homem a saúde moral de dar de ombros aos alemães (e franceses, e argentinos, e seja lá mais quem for e vier). Esquece a majestade de Pelé, ignora a genialidade de Garrincha, criminaliza a arrogância de Romário, apaga as cinco estrelas gloriosas do peito para comportar-se como um pet de prédio que, diante de qualquer ruído no céu, se esconde debaixo da cama com medo da chuva.
O brasileiro transformou a maior tragédia do seu futebol moderno numa profissão de fé. Não cremos mais na vitória; cremos, sim, na iminência do próximo e inevitável vexame
O nosso torcedor não assiste ao futebol dos vivos, prefere a companhia dos mortos, chora o cadáver de uma Copa que virou poeira. O infame “7 a 1” tornou-se uma cabala satânica, uma assombração de quarteirão que faz o pai de família benzer-se três vezes ao ver o placar da padaria. Curaçao – vejam bem, Curaçao! – sofre o seu calvário caribenho, mas o brasileiro, num egocentrismo neurótico, decreta: “O fantasma é meu!”
É a pura, a legítima, a inconfundível Neurose do Maracanazo Perpétuo. O brasileiro tem uma fome quase mística pela humilhação. Prefere o tremor nas pernas, o masoquismo de quem busca na desgraça alheia um espelho para a sua própria derrota de ontem.
Vejam o caso do torcedor comum nas redes sociais. Mal o árbitro apitou o fim do massacre germânico contra os pobres caribenhos, e os nossos analistas de botequim já criavam uma teologia do pânico. “É um aviso!”, gritava um. “O destino está nos cercando!”, chorava outro.
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Imagino o Sobrenatural de Almeida rindo nas sombras do Maracanã. Não precisa mais secar o nosso time, basta-lhe mostrar um placar qualquer, em Itanhaém ou em Berlim Oriental, para que o escrete nacional desabe. É a vitória do medo sobre o talento. O brasileiro transformou a maior tragédia do seu futebol moderno numa profissão de fé. Não cremos mais na vitória; cremos, sim, na iminência do próximo e inevitável vexame.
Meus amigos, o passado é um defunto que não joga bola, não cobra escanteio e não ganha dividida. A Alemanha de hoje não é a de 2014, Curaçao não é o Brasil, e nós não estamos mais naquele julho fatídico. Mas tentem explicar isso ao torcedor tomado pela paranoia!
Enquanto a pátria de chuteiras insistir em viver de cócoras, assustada com fantasmas alheios, continuará sendo a eterna viúva de uma Copa que não existe mais. E o pior: viúva inconsolável, que recusa o segundo casamento com a alegria, porque descobriu no luto uma vocação, quase um emprego. Falta-nos o cinismo dos vencedores. Sobra-nos, e aos montes, a indústria nacional do pranto de sarjeta.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos









