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Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Baseado em fatos reais

Toda direita será castigada: Nelson Rodrigues e a política de 2026

direita centrão redes sociais
A militância digital frenética anda pelos corredores virtuais caçando “melancias” e apontando traidores da causa. (Foto: Imagem criada utilizando Google Flow/Gazeta do Povo)

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O Brasil vazou da Copa, mas eu ainda não me despedi de Nelson Rodrigues, que li, reli e cujo estilo andei emulando enquanto durou o que era bom. Aos poucos, dou atenção a outras coisas, como a medíocre mesquinharia do jogo político, o que faço única e exclusivamente por dever de ofício, nada mais.

Continua tudo a mesma porcaria, óbvio. Nem esperava diferente. Nelson, inteirando-se comigo, sente-se um profeta vingado. Ele dizia que o maior acontecimento do século passado foi a ascensão espantosa e fulminante do idiota, concluindo à época: “Criou-se uma situação realmente trágica: ou o sujeito se submete ao idiota ou o idiota o extermina”.

Agora, completa, apenas para mim: estamos na fase do extermínio.

Em todas as suas peças e contos, Nelson era obcecado por desmascarar a hipocrisia, o moralismo de fachada da vida privada, especialmente burguês e de classe média. Pergunto-lhe se, hoje, não faria o mesmo, mas com a vida pública. Sorri, fingindo não entender, pedindo-me que explique melhor.

Os eleitos em 2018 e 2022 juravam fidelidade eterna a dogmas imutáveis que sabem não serem dogmas, nem imutáveis, e vivem sob a culpa de manter uma aparência de pureza ideológica que não existe mais no mundo real

Como estamos lendo sobre as brigas na direita, sugiro que a peça Toda nudez será castigada se tornaria Toda direita será castigada. Nelson acende um cigarro invisível, solta uma baforada fantasmagórica e me dá um olhar cínico de dono de partido. “Desenvolva.”

Na trama original de sua peça de 1965, Herculano é um viúvo abastado, puritano jurado, que chora a falecida esposa e promete ao filho, Serginho, que jamais tocará em outra mulher. Mas a carne é fraca e o bolso do irmão, Patrício, está furado. Patrício, endividado até o pescoço, joga Herculano nos braços de Geni, uma prostituta de luxo. O viúvo cai, apaixona-se e rasga o véu da sua falsa castidade.

O filho Serginho, a imagem viva da virtude ultrajada, esbofeteia a hipocrisia do pai e o drama se torna tragédia. No final, a fita cassete deixada por Geni antes de se suicidar cospe a verdade nua e crua na cara de todos: o próprio Serginho, o paladino da pureza familiar, era amante da madrasta e termina fugindo com um ladrão boliviano. Toda nudez, afinal, foi castigada pela própria podridão que tentava esconder.

Nelson sorri com os dentes amarelos da ironia. “E onde entra a direita de hoje nisso?” Entra na escala do elenco, respondo. Herculano seria a direita com cargos, a dos eleitos em 2018 e 2022, que se tornaram referências, caciques, os donos da bola. Aqueles sujeitos que viviam de punhos cerrados no púlpito de redes sociais, jurando fidelidade eterna aos dogmas imutáveis que sabem não serem dogmas, nem imutáveis. Vivem sob a culpa de manter uma aparência de pureza ideológica que não existe mais no mundo real.

Geni, por sua vez, seria o Centrão. O pragmatismo fisiológico da política real. Todos a xingam em público para manter as aparências com o eleitorado, mas, na calada da noite, correm para os seus braços em busca de vitórias em eleições, governabilidade, emendas e sobrevivência.

E Serginho, ah, Serginho seria a militância digital frenética do X e do WhatsApp, muito próxima dos círculos mais radicais. Serginho é o fiscal do “purômetro”. Anda pelos corredores virtuais caçando “melancias”, apontando o dedo para antigos aliados e decretando quem seria traidor da causa por ter cumprimentado um adversário no cafezinho do Congresso, salvo se quem cumprimentou foi um dos que defende. “Desmascara” aquele que se aliou, por exemplo, com a Geni em Santa Catarina, mas defende a Geni de São Paulo, sem se dar conta de quão nu está. Não sente (ainda) a culpa do pai, apenas a raiva.

Por fim, o irmão Patrício seria o influenciador de bastidores, o estrategista digital ou o dono de canais de YouTube que manipula Herculano e Serginho. Não se importa com o destino da direita, mas sabe que alimentar o conflito, a culpa de Herculano e a fúria do filho rende cliques, engajamento e contratos.

Todos xingam o Centrão em público para manter as aparências com o eleitorado, mas, na calada da noite, correm para os seus braços

Nelson me interrompe, sério, pela primeira vez na conversa. “Você acha que eu escrevi sobre Herculano porque ele era conservador?” Não espero a resposta, ele já sabe que não. “Eu escrevi porque ele era pai, viúvo, homem. A luxúria que ele escondia não tinha ideologia, tinha carne, que é a única coisa que todo mundo tem em comum.” Dá uma tragada funda, cínica. “Você escolheu vestir Herculano de direita porque é a porta que está batendo hoje. Mas minhas peças serviam para toda nudez, de todos os partidos. A hipocrisia não é de facção, é de espécie.” Solta a fumaça devagar, quase com pena de mim. “Mas continue, mestre da alegoria. Finja que descobriu algo que só a direita tem.”

Fico calado, porque ele tem razão. Mas a curiosidade sempre o venceu, mesmo travestida de desdém. “Como seria o enredo dessa sua paródia?” Inseguro, respondo que o esboço da tragédia política escreve-se sozinho. A peça começaria com Serginho gravando um vídeo indignado, destruindo a reputação de Herculano por este ter negociado uma relatoria com o Centrão. O tribunal da internet exigiria o sangue do velho aliado. Mas o castigo rodriguiano é implacável e sempre vem de dentro. No ato final, não haveria fita cassete, mas um áudio vazado no WhatsApp ou um print de um grupo “secreto”.

A verdade viria à tona com o barulho de uma guilhotina: o próprio Serginho, o paladino digital que pedia o linchamento dos “traidores”, seria flagrado jantando escondido com a Geni do Centrão, barganhando o controle do fundão eleitoral e uma vaga em comissão importante, rifando o próprio pai político para salvar a pele. Algo assim, termino de dizer, sem muito ânimo. Nelson apaga o cigarro no cinzeiro do tempo, olha para o horizonte medíocre da nossa política e murmura, definitivo: “Toda direita não será castigada. Nem a esquerda. Já foram, apenas não se deram conta disso”.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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