Publicidade
Francisco Escorsim

Francisco Escorsim

Julgamento de Moraes

Nojo é pouco: o que sobrou do espetáculo degradante no STF

julgamento moraes stf carmen lucia
A ministra Cármen Lúcia durante a sessão de 15 de setembro no STF. (Foto: Rosinei Coutinho/STF)

Ouça este conteúdo

O nojo é uma emoção básica e visceral, cuja reação fisiológica de náusea é facilmente reconhecível. O nariz franzido, lábio superior levantado e, em casos intensos, a língua projetada para fora, formando uma expressão de vômito embrionário.

Dito isso, é preciso achar outra palavra para definir o sentimento de qualquer brasileiro com a sessão extraordinária do STF para decidir se Alexandre de Moraes seria investigado.

Nojo é pouco.

* * *

E, diante desta pestilência, chamar de “mal-estar cívico”, como fez a ministra Cármen Lúcia, soa até ofensivo. É tratar aquela sordidez como se fosse briga de vizinhos em reunião de condomínio. Não é.

Qualquer reunião condominial tem mais decoro do que aquilo.

* * *

E a ministra pediu desculpas pelo espetáculo grotesco.

Aceito se sua “excelência” pedir desculpas também por censurar um documentário durante a eleição de 2022; por chamar de "tiranos" quem ousa criticar o STF nas redes sociais; por acompanhar, voto após voto, as perversidades de Alexandre de Moraes.

Cármen Lúcia tratou aquela sordidez como se fosse briga de vizinhos em reunião de condomínio. Não é

Sem isso, o pedido de desculpas é apenas desconforto de quem sente um mal-estar cínico.

* * *

Um juiz de verdade se guia pela norma como referência; um juiz cínico a usa como adorno de palco, construindo um cenário para sua atuação. Aquela sessão nos deu a demonstração perfeita disso na figura de Flávio Dino.

Citou Aristóteles algumas vezes, todas erradas. O filósofo foi invocado com a segurança de um ator canastrão, mas com o ridículo de quem nunca o leu. Citou outros autores, mas demonstrou que só conhece mesmo é Fábio Porchat. Foi seu único momento de sinceridade.

O mal-estar é cívico quando quem o sente ainda tem fé institucional. O mal-estar é cínico quando quem o fabricou finge que não o fez e age por mero desejo de manutenção do poder.

* * *

E o cinismo é contagioso também. Ver quem decide não levar a sério a própria instituição produz, em quem assiste, o impulso de também não a levar.

Esse é o instante em que o mal-estar cívico, que dói porque ainda espera algo daquele lugar, começa a se tornar mal-estar cínico, que não dói mais porque desistiu de esperar o que quer que seja.

* * *

É por isso que, diante de tamanha desfaçatez, como a que vimos nesta sessão do STF, sentir nojo é pouco, embora seja o mínimo necessário para não nos desumanizar.

A função do nojo é proteger o corpo contra contaminações que podem nos adoecer, como o de alimentos estragados cujo fedor nos afasta. É uma espécie de “sistema imunológico comportamental”.

O nojo moral, por sua vez, segue a mesma lógica que nos protege do cinismo. Senti-lo significa perceber o risco do adoecimento da alma. Ainda se distingue o certo do errado, o bem do mal, ainda que não se consiga nomear com precisão o incômodo.

Diante de tamanha desfaçatez, como a que vimos no STF, sentir nojo é pouco, embora seja o mínimo necessário para não nos desumanizar

Mas a alma sabe que sente mais do que um mal-estar.  

* * *

No caso do STF, esse mesmo instinto de proteção é que revela sua insuficiência. O risco de adoecimento da alma, de desumanização cínica, é imenso. Mas, se temos apenas a palavra nojo para nomear isso, que seja.

Ao menos ainda é sinal de vivacidade da alma. Porque quando não se sente nojo moral diante de espetáculos vis, como o proporcionado pelos ministros do STF na tal sessão, não haverá nem mesmo um mal-estar.

Neste dia, a única diferença entre cívico e cínico será uma letra.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Use este espaço apenas para a comunicação de erros

Principais Manchetes

Receba nossas notícias NO CELULAR

WhatsappTelegram

WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp. Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.