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O nojo é uma emoção básica e visceral, cuja reação fisiológica de náusea é facilmente reconhecível. O nariz franzido, lábio superior levantado e, em casos intensos, a língua projetada para fora, formando uma expressão de vômito embrionário.
Dito isso, é preciso achar outra palavra para definir o sentimento de qualquer brasileiro com a sessão extraordinária do STF para decidir se Alexandre de Moraes seria investigado.
Nojo é pouco.
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E, diante desta pestilência, chamar de “mal-estar cívico”, como fez a ministra Cármen Lúcia, soa até ofensivo. É tratar aquela sordidez como se fosse briga de vizinhos em reunião de condomínio. Não é.
Qualquer reunião condominial tem mais decoro do que aquilo.
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E a ministra pediu desculpas pelo espetáculo grotesco.
Aceito se sua “excelência” pedir desculpas também por censurar um documentário durante a eleição de 2022; por chamar de "tiranos" quem ousa criticar o STF nas redes sociais; por acompanhar, voto após voto, as perversidades de Alexandre de Moraes.
Cármen Lúcia tratou aquela sordidez como se fosse briga de vizinhos em reunião de condomínio. Não é
Sem isso, o pedido de desculpas é apenas desconforto de quem sente um mal-estar cínico.
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Um juiz de verdade se guia pela norma como referência; um juiz cínico a usa como adorno de palco, construindo um cenário para sua atuação. Aquela sessão nos deu a demonstração perfeita disso na figura de Flávio Dino.
Citou Aristóteles algumas vezes, todas erradas. O filósofo foi invocado com a segurança de um ator canastrão, mas com o ridículo de quem nunca o leu. Citou outros autores, mas demonstrou que só conhece mesmo é Fábio Porchat. Foi seu único momento de sinceridade.
O mal-estar é cívico quando quem o sente ainda tem fé institucional. O mal-estar é cínico quando quem o fabricou finge que não o fez e age por mero desejo de manutenção do poder.
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E o cinismo é contagioso também. Ver quem decide não levar a sério a própria instituição produz, em quem assiste, o impulso de também não a levar.
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Esse é o instante em que o mal-estar cívico, que dói porque ainda espera algo daquele lugar, começa a se tornar mal-estar cínico, que não dói mais porque desistiu de esperar o que quer que seja.
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É por isso que, diante de tamanha desfaçatez, como a que vimos nesta sessão do STF, sentir nojo é pouco, embora seja o mínimo necessário para não nos desumanizar.
A função do nojo é proteger o corpo contra contaminações que podem nos adoecer, como o de alimentos estragados cujo fedor nos afasta. É uma espécie de “sistema imunológico comportamental”.
O nojo moral, por sua vez, segue a mesma lógica que nos protege do cinismo. Senti-lo significa perceber o risco do adoecimento da alma. Ainda se distingue o certo do errado, o bem do mal, ainda que não se consiga nomear com precisão o incômodo.
Diante de tamanha desfaçatez, como a que vimos no STF, sentir nojo é pouco, embora seja o mínimo necessário para não nos desumanizar
Mas a alma sabe que sente mais do que um mal-estar.
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No caso do STF, esse mesmo instinto de proteção é que revela sua insuficiência. O risco de adoecimento da alma, de desumanização cínica, é imenso. Mas, se temos apenas a palavra nojo para nomear isso, que seja.
Ao menos ainda é sinal de vivacidade da alma. Porque quando não se sente nojo moral diante de espetáculos vis, como o proporcionado pelos ministros do STF na tal sessão, não haverá nem mesmo um mal-estar.
Neste dia, a única diferença entre cívico e cínico será uma letra.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




