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A escritora Joan Didion no documentário "Joan Didion: the center will not hold".
A escritora Joan Didion no documentário “Joan Didion: the center will not hold”.| Foto: Netflix

Era 23 de dezembro, véspera da véspera. Depois de ter ido ao hospital dias antes e sido mandada para casa, diagnosticada com gripe, Quintana voltou naquele dia 23 por não conseguir respirar. Foi internada, a pneumonia estava avançada e nos próximos dias viria também uma septicemia que a faria ficar na UTI por algumas semanas.

Seus pais, em torno dos 70 anos, iam ao hospital todos os dias. No dia 30 daquele último mês de 2003, depois de voltarem para casa, durante o jantar, o pai teve um infarto fulminante, falecendo. A mãe manteve o corpo do pai preservado para que, três meses depois, Quintana pudesse participar do funeral. No dia seguinte, Quintana viajou para a Califórnia, caiu ao desembarcar do avião, batendo a cabeça, tendo de ser operada e levando meses para se recuperar.

Durante todo aquele ano de 2004, Joan Didion, a mãe de Quintana, lidou com seus sofrimentos como pôde, adiando o luto pelo marido até a filha melhorar, dedicando-se à recuperação dela. Em outubro, com a filha fora de perigo, permitiu-se lidar com a perda do marido, começando a escrever sobre o que vinha vivendo, finalizando no último dia daquele ano.

O período do chamado “luto duro”, os primeiros meses ou anos, só é suportável assim, com pensamentos mágicos que fazem a dor ser sofrida em prestações ou de maneira indireta

O resultado foi o livro O Ano do Pensamento Mágico, considerada uma das melhores obras de não ficção do século 21 até aqui. Durante a turnê de divulgação, em 2005, Quintana voltou a adoecer. Agora, de pancreatite aguda decorrente de sequelas daquela queda. Morreu em agosto.

Diferentemente do luto do marido, desta vez Joan não conseguiu escrever de imediato, mas apenas cinco anos depois, lançando em 2011 o livro Noites Azuis, em que escreveu: “Agora consigo pensar sobre ela. Não choro mais quando escuto seu nome. Não imagino mais o transportador sendo chamado para levá-la para o necrotério depois que deixamos o hospital. Ainda assim, preciso dela comigo”.

No primeiro livro, o sofrimento pela perda e a luta para não cair na autopiedade dão o tom por toda a obra; já no segundo, somente no fim a autora parece ceder ao sofrimento, falando diretamente a partir dele. Fala, então, da peça teatral criada com base em O Ano do Pensamento Mágico, e do quanto ela gostava de assisti-la porque Quintana era um dos personagens principais e durante os 90 minutos da peça ela não precisava estar morta.

Eis o “pensamento mágico”, que em 2004 ela assim chamou por ter passado o ano todo vivendo como se o marido fosse voltar, acreditando nisso, mantendo sua presença viva. Creio que o período do chamado “luto duro”, os primeiros meses ou anos, só é suportável assim, com pensamentos mágicos que fazem a dor ser sofrida em prestações ou de maneira indireta.

No fim de Noites Azuis, Joan fala de alguns sintomas que começava a sentir; possivelmente já eram o princípio do mal de Parkinson que viria a afetá-la até o fim da vida, que se encerrou no último 23 de dezembro, 28 anos depois daquele dia de internamento da filha, o primeiro ato de uma reviravolta trágica que a deixou, antes de tudo, estupefata, conseguindo apenas escrever, nos primeiros dias de janeiro de 2004: “A vida muda rapidamente. A vida muda em um instante. Você se senta para jantar, e a vida que você conhecia termina”. São as primeiras frases de O Ano do Pensamento Mágico.

Em 2017, um sobrinho de seu marido filmou um documentário sobre ela, disponível na Netflix, chamado Joan Didion: the center will not hold, que passa por toda a sua vida, carreira e, claro, as tragédias impressionantes que sofreu, mais o padecimento do Parkinson que ceifaria sua vida. Vale muito a pena assistir e duvido que você não queira ler os livros depois. Há anos queria lê-los, mas somente agora enfim consegui, e não porque ela faleceu. Aliás, só descobri que morreu depois de ter começado a leitura.

Não sei como será o ano desses amigos que acabaram de perder o pai. Só posso desejar que seja pleno de “pensamentos mágicos”

Daquelas coincidências que não podem ser coincidências, não para quem acredita em “pensamentos mágicos”: na madrugada do primeiro dia deste ano, o pai de amigos queridos veio a sofrer um infarto e falecer. Lá fomos inaugurar 2022 com um funeral. E era como ler O Ano do Pensamento Mágico ao vivo: “As pessoas que perderam um ser amado recentemente têm um certo olhar, reconhecível talvez apenas por aqueles que viram esse mesmo olhar no próprio rosto. É um olhar de extrema vulnerabilidade, desamparo, transparência”.

Passei alguns minutos rezando ao lado do caixão, tendo um “pensamento mágico” que o “tio” sorria, serenamente sorria. Naquela noite, meu caçula não conseguia dormir de tristeza. Tristeza “pelo Max”, cachorrinho de uma tia que faleceu ano passado. Mais um pensamento mágico, do estilo que o irmão mais velho teve depois de o avô paterno ter falecido anos atrás. Parecia lidar bem com tudo, mas dias depois, quando um porteiro do nosso prédio morreu de infarto, desabou a chorar, como não fizera pelo avô. Mas é claro que era por ele, ali apenas se revelou a presença de algum “pensamento mágico” que tentava conter ou desviar a dor, o absurdo da perda, a falta de compreensão do sentido de tudo isso, se é que há um.

Em Noites Azuis, Joan aparentemente já não vivia mais com “pensamentos mágicos”, mas, no fim, descobrimos que eles seguiam vivos e fortes. Ao preencher um formulário do hospital em que precisava indicar alguém para chamar em caso de emergência, não conseguia indicar outros parentes ou amigos, não queria nenhum. Só fazia sentido indicar a filha, morta havia cinco anos, a quem “via todos os dias”.

Não sei como será o ano desses amigos que acabaram de perder o pai. Só posso desejar que seja pleno de “pensamentos mágicos”. E desejar que, de vez em quando, sempre que necessário, a memória revele sua presença. Esses pensamentos são cruciais nos momentos de maior saudade. Porque quando isso acontece, o que parece ter desaparecido, porque nunca foi nem será esquecido, jamais se perdeu nem será perdido. É assim que experimentamos um pedacinho da eternidade. Mesmo quem não tem fé, como Joan não tinha, e portanto só poderia considerar a eternidade como mais um “pensamento mágico”, mesmo assim a experimenta como algo mais forte do que a morte. E que nos mantém vivos, especialmente nos momentos mais difíceis.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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