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Antigamente, o sucesso dificilmente era obra do acaso, mas fruto de muito trabalho. Hoje, parece mais um raio que atinge solo seco e o transforma em catapulta, lançando um indivíduo da invisibilidade ao topo do mundo sem qualquer transição, muito menos preparação ou merecimento. É o caso de Iran Ferreira.
Quem?, pergunta-me o leitor e eu também. Iran é o Luva de Pedreiro. Se o leitor não ficou fora da internet desde 2020, sabe quem é, ainda que, como eu, não o “siga” nem saiba o que ele faz. Sua história está contada na série documental Luva de Pedreiro – O Rei da Jogada, disponível no Max. Sim, uma série. Inacreditavelmente, conseguiram fazer três episódios de uma história que caberia num reels.
Em resumo, mostra-se que ao transformar a espontaneidade rústica em celebridade instantânea, o tal do Algoritmo entregou a um jovem do interior da Bahia um sucesso desproporcional e desorientador. Iran tem talento de ator, de comediante. É inato, como se vê nos primeiros vídeos. Mas, ao ganhar a celebridade antes mesmo de se dar conta de que tem talento, de que é isso que quer ser e com que trabalhar, já nasceu algemado à sua primeira obra.
Ao transformar a espontaneidade rústica em celebridade instantânea, o tal do Algoritmo entregou a um jovem do interior da Bahia um sucesso desproporcional e desorientador
O criador se tornou refém do personagem que o consagrou. Como o algoritmo pune severamente a inovação e premia o idêntico, a criatividade é sufocada em nome de uma linha de montagem implacável. Iran Ferreira é escravo do seu próprio feito: calçar uma luva (sim, o verbo correto é calçar), chutar uma bola, fitar a câmera e gritar “Receba!” repetidas vezes, em uma exaustão industrial que o documentário expõe e permite enxergar o resultado existencial para Iran.
Essa engrenagem massificadora impõe uma obsolescência programada. Sem espaço para o aprimoramento profissional ou para a evolução pessoal, o conteúdo satura, a novidade envelhece e a mesma audiência que o coroou passa a exigir uma novidade que o próprio sistema o impede de desenvolver. Diante de uma plateia hiperestimulada e volúvel, a repetição que outrora gerou engajamento transmuta-se em tédio coletivo.
É a tragédia moderna do artista, tornado influencer, sendo sugado até a última gota de sua espontaneidade para, em seguida, ser abandonado à beira do caminho como um bagaço de laranja. É nesse cenário de saturação que o grito que cruzou fronteiras e foi repetido por astros do futebol mundial ganha uma conotação reversa. O emblemático “Receba!”, originalmente proferido com os braços abertos em direção aos céus, retorna a Iran como uma espécie de bumerangue existencial.
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Deixa de ser aquilo que o jovem baiano generosamente envia ao mundo e passa a ser o imperativo implacável daquilo que a cultura digital devolve a ele. “Receba” a cobrança desumana por engajamento diário. “Receba” o isolamento de quem habita mansões distantes de suas raízes. “Receba” os contratos leoninos cujas letras miúdas sua escolaridade precária não permitia decifrar. O bordão da vitória converte-se, silenciosamente, no peso de uma servidão moderna travestida de privilégio.
Mas o ser humano, ao contrário das linhas de código das redes sociais, possui instintos de autopreservação que a tecnologia é incapaz de mapear. Quando o cansaço mental transborda e as crises de ansiedade documentadas na tela cobram o seu preço, Iran Ferreira intui qual o melhor (se não único) remédio: voltar para suas origens.
Em algum momento o espetáculo precisa cessar para que a vida sobreviva. Instintivamente, o jovem sabe que o seu único porto seguro reside na simplicidade da vida de antes. É no chão de terra batida de Tabua, no sotaque acolhedor dos seus e na espontaneidade livre de métricas que o menino da luva de pedreiro reencontra a si mesmo.
Tomar consciência de sua vocação, amadurecer e aprimorar o próprio ofício, expandindo horizontes, é a única forma de deixar de ser um joguete do algoritmo e dos empresários
Mas o solo firme da sua origem deve servir como base para um novo salto, desta vez consciente. O talento inato de Iran precisa, agora, de desenvolvimento. Para escapar da engrenagem que satura e descarta, o jovem baiano terá de buscar o aprimoramento técnico, a diversificação e a paciência da maturação, também como homem, que a pressa do clique lhe roubou.
Tomar consciência de sua vocação, amadurecer e aprimorar o próprio ofício, expandindo horizontes, é a única forma de deixar de ser um joguete do algoritmo e dos empresários. Só quando transformar o espasmo da celebridade instantânea na solidez de uma carreira lapidada é que Iran Ferreira poderá olhar para o futuro e, finalmente, dizer ao mundo, com propriedade: receba!
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




