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Um ministro do STF determina o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal. Outro ministro revoga a determinação e manda restituí-lo ao cargo. O presidente do tribunal suspende as duas decisões, a que fez e a que desfez, e convoca uma sessão extraordinária para dali a alguns dias.
Em poucas horas o presente foi sendo editado diante de nós como um rascunho constantemente refeito.
Desliguei a televisão. Fiquei um tempo na cadeira, com aquela perplexidade que não é bem raiva nem espanto. Era uma sensação de que as instituições, que existem justamente para dar forma e duração ao que é precário, passaram a funcionar como a própria precariedade: cada gesto apagando o anterior, cada autoridade passando por cima de outra autoridade, nada se conclui, tudo se desfaz.
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Enquanto acompanhava a confusão, uma música veio à minha mente. É composição da dupla Roberto e Erasmo Carlos, gravada por Silvinha. É da época da Jovem Guarda. Chama-se Você já morreu e se esqueceu de deitar. Os primeiros versos são: “Você já morreu, meu amigo / Porém se esqueceu de deitar”.
Sua esperança de termos um país melhor não se transformou, na verdade, em desejo de vingança? Vingança contra o “outro lado”, tanto faz de que lado você esteja
Troque “meu amigo” pelo STF e temos aí uma boa trilha sonora para a sessão plenária extraordinária da próxima terça-feira.
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E nós, estamos vivos?
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Há um trecho da canção Novo Tempo, de Ivan Lins, que me impressiona desde que a escutei pela primeira vez. São os versos: “Pra que nossa esperança seja mais que vingança / Seja sempre um caminho que se deixa de herança”.
Ignore a música, caso não goste dela ou do compositor, os versos se sustentam sozinhos. Ainda mais hoje. Seja sincero: sua esperança de termos um país melhor não se transformou, na verdade, em desejo de vingança?
Vingança contra o “outro lado”, tanto faz de que lado você esteja.
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Já que estou musical e nostálgico – como costumo ser, aliás.
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Elton John se despediu dos palcos nesta semana, no Rock in Rio. Sua última canção foi Your Song, aquela que é dele, mas entregue para nós, para cada um. Cantei junto com a multidão revendo o show. E o presente, que instantes atrás parecia o fim de tudo, alargou-se. Passou a caber na vista de um mirante.
De lá, as notícias ganham uma distância necessária, consoladora.
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Acho que foi Nietzsche quem escreveu que precisamos da arte para não morrermos pela verdade. Não porque a arte minta, mas porque às vezes a verdade nua e crua, vista de perto e sem intervalo, é insuportável.
A beleza, ou seja, a arte, fornece essa distância necessária. Com ela, também a promessa de felicidade, como disse Stendhal. Como a promessa é irmã da esperança, eis aí um bom antídoto para que esta não se torne um desejo de vingança.
Não a esperança de que na semana que vem o tribunal se acerte, de que a crise se resolva, de que tudo volte ao lugar. Uma esperança mais antiga e mais teimosa: a de que o mundo, mesmo este, ainda comporta um caminho que se deixa de herança.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Francisco Escorsim é formado em Direito e Filosofia. Atua como professor e escritor de filosofia e literatura. É coautor de várias obras, entre elas "A Formação do Imaginário", “Mapa da maturidade: do naufrágio ao resgate” e "Arrume seu Quarto: um Guia Para Entender Jordan Peterson". **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




