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Franklin Ferreira

Franklin Ferreira

Eleições

O Brasil que perdemos e a esperança que nos resta

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Apoiadora de Flávio Bolsonaro lamenta a derrota para Lula no segundo turno da eleição presidencial. (Foto: Vinicius Santa Rosa/EFE)

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Há momentos na história de uma nação em que a tristeza é maior que a indignação. A indignação ainda pressupõe alguma expectativa de mudança. A tristeza chega quando percebemos que aquilo que julgávamos uma crise passageira talvez seja, na verdade, a expressão de um problema muito mais profundo, enraizado nas instituições, na cultura política e nas escolhas de uma parcela considerável da população.

Diante da reeleição de Lula, em mais um pleito marcado por controvérsias, foi difícil não recordar os versos sombrios de Nevermind, de Leonard Cohen, que parecem traduzir a amarga sensação de derrota diante de um poder maléfico que se perpetua:

A guerra estava perdida
O tratado, assinado
Não fui capturado
Cruzei a fronteira
Não fui capturado
Embora muitos tenham tentado
[...]
Tive de deixar para trás
A vida que era minha
[...]
A história é contada
Entre fatos e mentiras
[...]
A guerra estava perdida
O tratado, assinado
Há verdades que sobrevivem
E verdades que morrem
Não sei quais são umas ou outras
Então, que importa?

É difícil não experimentar esse sentimento diante do Brasil de hoje.

A existência de eleições e de representantes legitimamente eleitos não garante, por si só, a preservação da democracia

Durante mais de duas décadas, acompanhamos a consolidação de um projeto político que ultrapassa governos e mandatos. Vimos escândalos de corrupção, crises econômicas, o aparelhamento de instituições, o enfraquecimento da confiança pública e a crescente disposição de tratar adversários políticos como inimigos a serem eliminados da vida pública. Houve resistências, vitórias ocasionais e momentos de esperança. Mas a impressão, cada vez mais difícil de afastar, é que as forças responsáveis por esse processo continuam firmemente poderosas.

A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, parece hoje uma interrupção excepcional de uma trajetória mais longa. Sua vitória demonstrou que havia uma parcela expressiva da sociedade inconformada com os rumos do país. Entretanto, também revelou que uma vitória eleitoral, por si só, não basta para transformar estruturas políticas e institucionais consolidadas ao longo de décadas.

A experiência brasileira parece confirmar uma verdade desconfortável: é possível conquistar o governo sem conquistar a capacidade efetiva de governar. E que é possível perder eleições sem perder o controle de importantes centros de poder.

A democracia e seus limites

Uma das grandes preocupações atuais é o crescente desequilíbrio entre os poderes da República. O Supremo Tribunal Federal, cuja missão constitucional deveria incluir a proteção das liberdades fundamentais e a preservação dos limites institucionais, tornou-se protagonista de decisões políticas de enorme alcance.

Não se trata de negar a necessidade de um Judiciário independente. Ao contrário: justamente porque a independência judicial é indispensável à democracia, devemos nos preocupar quando decisões judiciais parecem substituir a deliberação legislativa ou restringir desproporcionalmente direitos fundamentais.

A experiência internacional oferece advertências que não deveriam ser ignoradas. Na Venezuela, a eleição de uma Assembleia Nacional de maioria oposicionista, em 2015, não impediu que o regime chavista esvaziasse progressivamente seus poderes, valendo-se de decisões judiciais e da criação de instituições paralelas. A lição é inquietante: a existência de eleições e de representantes legitimamente eleitos não garante, por si só, a preservação da democracia, sobretudo quando as instituições encarregadas de limitar o poder passam a servir à sua concentração.

A liberdade de expressão, o devido processo legal, a separação dos poderes e o direito à oposição não são concessões de governantes ou magistrados, mas garantias fundamentais de uma sociedade livre. Quando essas garantias são ameaçadas, é a própria democracia que está em perigo. O que está em jogo é a liberdade de todos os brasileiros e a preservação do Estado de Direito.

Uma longa agonia

Talvez nosso maior erro tenha sido imaginar que o declínio de uma nação acontece de maneira súbita e espetacular. Nem sempre há tanques e militares nas ruas, fechamento formal do Congresso ou suspensão explícita da Constituição. Às vezes, a deterioração ocorre lentamente. A queda de Roma deveria ter nos ensinado que as grandes civilizações nem sempre desmoronam de uma vez: muitas vezes, são corroídas lentamente por dentro, muito antes de sucumbirem.

Não basta culpar os governantes. Precisamos perguntar por que tantos brasileiros continuam aceitando a corrupção, os abusos e a troca de favores

As instituições continuam funcionando, mas sem credibilidade. As eleições continuam acontecendo, mas a confiança nas regras se enfraquece. A imprensa continua publicando, mas o debate público se torna cada vez mais condicionado por alinhamentos políticos. O Estado continua crescendo, enquanto a sociedade perde autonomia. A corrupção deixa de provocar escândalo. A violência passa a integrar a rotina. A mediocridade administrativa torna-se aceitável. O cidadão aprende a sobreviver apesar do governo, e não graças à proteção das instituições.

O perigo não é apenas econômico. É também moral. Uma sociedade que se acostuma com a mentira, que relativiza a corrupção conforme a identidade de seus praticantes e que transforma a lealdade partidária em critério supremo de julgamento compromete os fundamentos da vida comum.

O PT e o Centrão têm grande responsabilidade pela decadência da política brasileira. O PT construiu um projeto de poder baseado no controle da máquina pública, na distribuição de cargos e em alianças para permanecer no governo. O Centrão, por sua vez, fez da troca de favores sua principal forma de atuação, negociando apoio no Congresso em troca de cargos, verbas e influência. Embora tenham interesses diferentes, os dois se tornaram parceiros indispensáveis. O PT precisa dos votos do Centrão para governar, enquanto o Centrão depende do governo para manter seus privilégios. Nessa relação, o interesse público fica em segundo plano. O que importa é conservar o poder, distribuir benefícios e garantir a sobrevivência política de ambos. E quem paga a conta dessa aliança é, como sempre, o povo brasileiro.

Mas nenhum projeto político permanece no poder sem apoio popular. Não basta culpar os governantes. Precisamos perguntar por que tantos brasileiros continuam aceitando a corrupção, os abusos e a troca de favores. Afinal, os políticos também refletem os valores de quem os elege.

A gravidade do momento exige lucidez, não ilusões. Há riscos reais de novos conflitos entre os poderes, de ampliação das restrições à liberdade de expressão, de insegurança jurídica, de fuga de investimentos e de agravamento da situação fiscal.

Mas a prudência exige preparação. Famílias devem considerar seriamente sua segurança, a educação dos filhos, sua independência financeira e suas perspectivas profissionais. Aprender idiomas, adquirir competências, desenvolver redes de confiança e até considerar a possibilidade de viver em outro país são decisões legítimas. Não há virtude cristã em expor desnecessariamente os filhos à insegurança. Tampouco há desonra em permanecer, trabalhar honestamente e procurar construir uma vida digna em circunstâncias adversas. O importante é não entregar nossa existência inteira à política.

Um governo pode dificultar a prosperidade, comprometer oportunidades e produzir injustiças. Mas não deve receber o poder de determinar o significado último de nossa vida.

Recuperar aquilo que está próximo

Talvez seja hora de redescobrir a importância daquilo que realmente importa. A família reunida à mesa. O casamento preservado com fidelidade. Os filhos educados no temor do Senhor. Os avós transmitindo sua experiência aos netos. Os amigos que permanecem próximos nas dificuldades. O trabalho realizado com excelência. Os livros que nos tornam mais sábios. E, acima de tudo, a igreja local.

Famílias devem considerar seriamente sua segurança, a educação dos filhos, sua independência financeira e suas perspectivas profissionais

Em tempos de instabilidade, somos tentados a procurar segurança exclusivamente nas grandes estruturas: governos, tribunais, partidos e instituições nacionais. Mas boa parte da vida real acontece em comunidades menores, nas quais ainda podemos exercer responsabilidade concreta. A família, a igreja, a escola, as amizades e as associações voluntárias são espaços fundamentais de formação moral e resistência à desumanização. São lugares nos quais aprendemos a amar o próximo, praticar a justiça, falar a verdade e exercer a liberdade com responsabilidade.

O cristão não deve abandonar a vida pública. Deve, porém, recusar a idolatria política. O presidente Lula não é um messias. O PT não é a igreja. Nenhuma vitória eleitoral inaugura o Reino de Deus, e nenhuma derrota eleitoral pode destruí-lo.

A esperança de um povo peregrino

A perspectiva histórica é vital para os que creem no Deus de Israel e seu Messias, Jesus. O povo de Deus está peregrinando neste mundo há mais de 4 mil anos, desde os dias de Abraão. Ao longo dessa caminhada, viu impérios surgirem, conquistarem povos, construírem monumentos à própria grandeza e, finalmente, desaparecerem. Viu o poder dos faraós, a violência da Assíria, a arrogância da Babilônia, a majestade da Pérsia, as conquistas da Grécia e a força aparentemente invencível de Roma. Todos passaram.

A igreja atravessou perseguições, guerras, epidemias, revoluções, tiranias e períodos de profunda decadência moral. Sobreviveu a imperadores que exigiam adoração, a reis que reivindicavam autoridade absoluta e a ideologias que prometiam construir o paraíso na terra. Todos esses poderes tiveram seu tempo. Nenhum recebeu a última palavra.

O salmista nos adverte: “Não confiem em príncipes, nem nos filhos dos homens, em quem não há salvação” (Salmo 146,3). E o profeta Daniel nos lembra que Deus “remove reis e estabelece reis” (Daniel 2,21). Essas verdades libertam-nos do desespero. Podemos trabalhar pela justiça sem acreditar que o destino do mundo repousa sobre nossos ombros. Podemos resistir ao mal sem nos tornarmos semelhantes àqueles que o praticam. Podemos lamentar a situação de nossa pátria sem perder o amor por ela. Podemos reconhecer derrotas políticas sem concluir que fomos derrotados naquilo que realmente importa.

Talvez o Brasil atravesse anos difíceis. Talvez vejamos coisas que jamais imaginamos presenciar. Mas ainda teremos filhos para educar, igrejas para servir, amigos para amar, livros para escrever e verdades para ensinar

O autor de Hebreus descreve os patriarcas como estrangeiros e peregrinos sobre a terra, homens e mulheres que aguardavam uma pátria superior (Hebreus 11,13-16). Essa esperança não os impediu de viver, trabalhar, formar famílias e cumprir suas responsabilidades no mundo. Assim também devemos proceder.

Talvez o Brasil atravesse anos difíceis. Talvez vejamos coisas que jamais imaginamos presenciar. Talvez algumas esperanças políticas precisem ser abandonadas, e outras, profundamente revistas. Mas ainda teremos filhos para educar, igrejas para servir, amigos para amar, livros para escrever e verdades para ensinar. Ainda teremos o culto no Dia do Senhor, a pregação da Palavra, o batismo, a mesa da comunhão e as promessas de Cristo. E isso não é pouca coisa.

Nossa esperança não repousa na sobrevivência de uma ordem política, mas naquele cujo Reino não terá fim. Os poderes deste mundo passam. Cristo permanece. Por isso, não precisamos fingir que tudo está bem. Podemos chorar pelo Brasil. Podemos lamentar as oportunidades perdidas e as injustiças cometidas. Há tempo para o lamento, como nos ensinam os profetas e os salmos.

Mas não nos é permitido desesperar. Continuemos fazendo o bem, educando nossos filhos, fortalecendo nossas igrejas, cultivando amizades e preservando aquilo que é verdadeiro, bom e belo. Não sabemos o que será do Brasil nas próximas décadas. Sabemos, porém, a quem pertencemos. E enquanto os reinos deste mundo continuam a surgir e desaparecer, a igreja de Jesus Cristo prossegue em sua peregrinação, aguardando a cidade que tem fundamentos, da qual Deus é o arquiteto e edificador.

Coragem. Nossa pátria terrena pode atravessar a escuridão. Mas a nossa esperança está firmada naquele que venceu o mundo.

Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

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