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O ex-presidente Lula em visita à sede do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça).
O ex-presidente Lula em visita à sede do Conselho Mundial de Igrejas, em Genebra (Suíça).| Foto: Ricardo Stuckert

Boris Yeltsin, o primeiro presidente a ser eleito democraticamente na Rússia, em junho de 1992, afirmou: “O mundo pode respirar aliviado. O ídolo do comunismo, que espalhou por toda parte a rivalidade social, a animosidade e brutalidade sem paralelos, que instilou medo na humanidade, desabou. Desabou para nunca mais se reerguer”. Infelizmente, esta idolatria do poder e do controle continua presente na América Latina, dominando países como Cuba, Venezuela, Guiana, Bolívia, Peru e Argentina.

Mentes cativas

Diferente do que se apregoa, partidos de esquerda e extrema-esquerda não são de orientação democrática. Suas propostas são inspiradas na ideia do Estado coercitivo, julgador e punidor. Não reconhecem a dinâmica de equilíbrio dos segmentos da sociedade e das instituições republicanas. Por pensarem desse modo, facilmente são corrompidos pela ideia de que são os “donos da verdade” e únicos porta-vozes da justiça.

A mentalidade esquerdista é binária: “nós” e “eles”, os “bons” e os “maus”, os revolucionários e os reacionários, a esquerda e a direita. Esquerdistas não conseguem pensar em termos de gradações políticas. Então, se alguém os critica, este deve ser, forçosamente, de “direita”. E, de forma típica, o esquerdista usará o discurso da vitimização ou do constrangimento moral/espiritual para se evadir das profundas contradições de seu sistema. Ou apelará para a difamação pura e simples.

O esquerdismo não aceita a pluralidade partidária, a alternância de poder ou o dissenso. Toda voz discordante do esquerdismo deve ser regulada, barrada, proibida quando possível ou ridicularizada e marginalizada

Outro aspecto do esquerdismo é que este só tolera críticas ao partido-Estado em dois casos: ou se vierem de seus próprios quadros, ou se alvejarem igualmente “o outro lado”, ou seja, a direita. Esta seria uma prova de suposta “neutralidade” política, uma noção epistemológica profundamente ingênua e moralmente errada. Pois essa “isenção” no debate é apenas um jeito de ficar do lado do dono do muro. Na verdade, isso ocorre porque o esquerdismo não aceita a pluralidade partidária, a alternância de poder ou o dissenso. Toda voz discordante do esquerdismo deve ser regulada, barrada, proibida quando possível ou ridicularizada e marginalizada.

Outra variante do argumento é que, se houver crítica à esquerda, deve-se também forçosamente criticar o mercado, o capitalismo ou o “imperialismo” – em outras palavras, criticar os Estados Unidos ou Israel. De qualquer forma, esta é mais uma variante da ideia de uma suposta neutralidade ou isenção política. Nenhuma cidade dos homens é livre de pecado e miséria. Mas qual o efeito real da denúncia, a partir do Brasil, de erros ou pecados de países da Europa ocidental, de Israel ou dos Estados Unidos? Ironicamente, tal discurso voltado àqueles países é incoerente, vindo de esquerdistas que, para defender regimes esquerdistas ou autoritários na América Latina, Ásia, África e Oriente Médio, gritam estridentemente sobre a “autodeterminação dos povos”.

Como ensinou Alain Besançon, o discurso religioso da esquerda é um gnosticismo, que pode ser resumido da seguinte forma: o mal é visto exclusivamente no outro, eliminando do ser humano toda e qualquer capacidade de se reconhecer pecador e responsável pelo mal. Para esta mentalidade, o mal só é discernível se vier de simpatizantes da direita, do conservadorismo ou de anglo-saxões. Almeja-se, como escreveu Russell Kirk, uma salvação coletiva terrena por meio de esperanças revolucionárias e violentas, o que torna o “entendimento político impossível”, pois não se “aceitará nenhum desvio da verdade absoluta de sua revelação secular”, o que ocasionará “guerras civis, a extirpação dos ‘reacionários’, e a destruição de instituições sociais benéficas”.

Portanto, as igrejas tradicionais são pesadamente criticadas, pois o que se quer é debilitá-la em seu papel de contrabalançar o Estado. A família tradicional também é atacada, pois esta é um bastião de lealdade separado do Estado, logo, uma inimiga do totalitarismo político. O esquerdista não vê a política como “a arte do possível”, mas “como um instrumento revolucionário para transformar a sociedade e até mesmo a natureza humana”, crendo na noção de que o Estado é o instrumento redentor de Deus, e o coletivismo é uma nova ordem sancionada por Jesus. Com isso, toda a tradição cristã de pecado é eliminada, e com esta também é suprimido o ensino bíblico da redenção graciosa por meio da morte vicária e ressurreição de Cristo Jesus.

Para os religiosos de esquerda, todo socialismo que existiu – e que assassinou entre 85 milhões e 100 milhões de pessoas no século 20 – não é o “verdadeiro socialismo”, mas crê-se que a defesa intransigente desta ideologia trará o “outro mundo possível”. Tudo isso decorre da rejeição da fé na Providência de Deus, e da aceitação como axioma da lógica dialética e da história como a manifestação da luta de classes. Deste modo, como afirmou Arthur Koestler, esquerdistas classificam religiosa e automaticamente tudo que os choca como “herança do passado”, e tudo do que gostam como “sementes do futuro”, por meio de uma “máquina organizadora em sua mente”. Não poderia ser diferente, caso contrário precisariam admitir que o socialismo como fé religiosa fracassou espetacularmente. O esquerdismo, portanto, deve ser tratado como uma “religião invertida”, construída “sobre mentiras”, como ensinou Václav Havel.

“Geração Coca-Cola”

Diante dessas considerações, é interessante identificar quais os motivos da tendência esquerdista entre os jovens. Estes parecem pertencer à classe alta ou média-alta, estudam em universidades estaduais ou federais e recebem bolsas governamentais para (não raro) estudar no exterior. Para eles, os proletários, por viverem para o trabalho, não têm consciência de seu estado de escravidão. E são os membros desta nova classe de “homens novos” que poderão não somente iluminar, mas guiar as massas na luta contra a opressão.

O mundo passa a ser interpretado a partir de uma “nova moral”, que opõe estes que almejam a “construção de um mundo melhor” contra a mentalidade rígida da sociedade. Portanto, o mundo é dividido em opressores e oprimidos, onde todos os bons são oprimidos, todos os que discordam são opressores, e estes devem ser cooptados, silenciados ou eliminados. A complexidade social é reduzida a uma luta entre o bem e o mal, uma luta entre “o povo” e “as elites”. Não raro, os trabalhadores são tratados como “massa alienada” por não os apoiar, rotulados como gente que “não quer mudar” e que não enxerga “a luta por mudança”.

Alguns destes jovens associados à esquerda se identificam como cristãos, mas têm mais conexão com grupos paraeclesiásticos ou ONGs que recebem muito dinheiro do exterior que com igrejas locais. Estes cristãos que militam em partidos e grupos de esquerda e extrema-esquerda se autodenominam no Brasil de “cristãos progressistas”.

O ser humano é estranho à esquerda – não há interesse no destino da pessoa real e concreta, mas apenas na emancipação da classe proletária, oprimida e alienada

O esquerdismo, em vez de abolir a religião, tornou-se uma religião secular. Seus ensinos são apresentados como substitutos para as doutrinas cristãs. Esta elevação transcendental da ideologia e a incapacidade de autocrítica revela na esquerda uma lealdade idolátrica. Para estes, como escreveu Richard J. Sturz, “a alternativa é crer em um deus que tem o nome, mas não as qualidades do Deus revelado nas Escrituras, e não passa de uma simples capitulação ao marxismo”. Mesmo o ser humano é estranho à esquerda – não há interesse no destino da pessoa real e concreta, mas apenas na emancipação da classe proletária, oprimida e alienada.

O que parece é que a ausência do “totalmente outro” (totaliter aliter) leva pessoas a adotar uma ideologia que almeja transcendência, e que supostamente as auxilia a superar as contradições de uma sociedade existencialmente opressiva, satisfazendo a “preocupação suprema” de suas vidas, o sonho de um “outro mundo possível”, a “realização da utopia”. Portanto, uma pergunta se impõe aos clérigos e às igrejas cristãs: como responder a esse anseio por algo além e acima da criação, que todas as pessoas almejam? Como satisfazer tal desejo, levando pessoas da idolatria à “transcendência desviada”, isto é, o culto ao Estado e a ideologia, para o culto ao Deus todo-poderoso, o “totalmente outro”, que se revela apenas nas Escrituras Sagradas? Será que na atualidade o evangelho, a boa nova de Deus em Cristo – morto por nossos pecados e ressuscitado para nossa redenção –, tem sido oferecido com paixão e dependência do Espírito Santo? O Deus-Trindade é oferecido como o único que pode satisfazer a “preocupação suprema” que todas as pessoas experimentam?

Blaise Pascal escreveu sobre esse vazio existencial que só é preenchido pelo único Deus: “Que nos brada pois essa avidez e essa impotência senão que houve outrora no homem uma felicidade verdadeira, da qual só lhe resta agora a marca e o vestígio totalmente vazio que ele inutilmente tenta preencher com tudo aquilo que o cerca, procurando nas coisas ausentes o socorro que não encontra nas presentes, mas que são todas incapazes de fazê-lo porque esse abismo infinito não pode ser preenchido senão por um objeto infinito e imutável, isto é, por Deus mesmo?” E conclui: “Só ele é o seu verdadeiro bem. E desde que o abandonou, é uma coisa estranha que nada exista na natureza que seja capaz de ocupar o seu lugar”.

Contra uma religião secular

Na história de Israel, no Antigo Testamento, há histórias de reis e rainhas, uns “andando nos preceitos de Davi” (1Rs 3,3), muitos outros corruptos e infiéis. Há intrigas palacianas, golpes de Estado sangrentos, transições políticas conturbadas, acordos sociais e alianças espúrias. Há tanto a perspectiva dos profetas, que exigem em nome de Deus conformidade à aliança, quanto o ponto de vista dos reis e dos palácios. No exílio babilônico, os sobreviventes da destruição de Judá, que temiam ao Senhor Deus, não se dobraram diante da “imagem de ouro”, símbolo de uma realeza que almejava lealdade e controle total (Dn 3,1-30).

No Novo Testamento, o Império Romano foi uma força sempre presente aos cristãos, que é denunciada e colocada em seu devido lugar (cf. Rm 1,1-32; 13,1-7). Nas Escrituras não há um único texto que apoie a ideia de que o cristão deva colocar sua esperança no poder do Estado ou ser servil a um governo autoritário ou totalitário. A mensagem poderosa do evangelho (Rm 1,16), que tem poder de produzir uma mudança social profunda, não depende do poder ou controle do Estado.

Os cristãos, que buscam confessar sua fé em submissão às Escrituras, creem que há um só Senhor e Rei, o único Deus todo-poderoso. Os cristãos são súditos do “bendito e único Soberano, o Rei dos reis e Senhor dos senhores” (1Tm 6,15). E esperam a “pátria [que] está nos céus”, de onde aguardam “o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3,20), o único que traz o juízo e a salvação para toda a sociedade.

Os cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria, uma quebra do primeiro mandamento. Somente o Senhor Deus comanda todas as esferas da sociedade. Nenhum governo ou partido recebeu este direito. E os cristãos também creem que governos e partidos que anseiam ser totais deixam de ser a “autoridade ordenada por Deus” (Rm 13,1-7), para se tornar “uma besta” que recebeu “seu trono e grande autoridade” do dragão (Ap 13,1-18). E, diante desta, a resposta cristã é: “Antes, importa obedecer a Deus do que aos homens” (At 5,29).

Diante dos fatos, há os que apelam para o argumento emocional de que uma postura antiesquerdista é “insensível”, “descaridosa” e “alienada”. Não custa lembrar: cristãos fazem “o bem a todos”, e “principalmente aos domésticos da fé” (Gl 6,7-10), constrangidos por amor e lealdade a Jesus Cristo; não terceirizam seu amor, entregando-o ao arbítrio do Estado. Em Atos 2,41-47, passagem tão ao gosto desta mentalidade, os primeiros cristãos repartem o que possuem não constrangidos pelo sinédrio ou pelos agentes imperiais – mas o fazem livremente por amor ao Senhor Deus e ao próximo.

“Sê fiel até à morte”

Helmuth James Graf von Moltke foi preso em janeiro de 1944 por fazer parte da resistência alemã contra o Partido Nacional-Socialista. Num trecho de uma carta escrita da prisão de Tegel para sua esposa, Freya, em 11 de janeiro de 1945, ele registrou o seguinte diálogo travado com o juiz-algoz no tribunal: “No decorrer de seus discursos, [o juiz Roland] Freisler me disse: ‘O Nacional-Socialismo assemelha-se ao cristianismo em apenas um aspecto: nós exigimos a totalidade do homem’. Não sei se os outros que estavam sentados ali puderam compreender o que foi dito, pois esse foi o tipo de diálogo travado entre Freisler e eu – um diálogo subentendido, visto que não tive a chance de dizer muita coisa –, um diálogo por meio do qual passamos a conhecer um ao outro totalmente. Freisler era o único do grupo que me entendia completamente, e o único que percebia por que deveria me matar... No meu caso, tudo era determinado da forma mais severa. ‘De quem você recebe ordens, do outro mundo ou de Adolf Hitler? Onde você deposita sua lealdade e sua fé?’”

Tal pergunta também não está ligada à luta entre a lealdade à esquerda e a exclusiva adoração ao Deus-Trindade, o único e verdadeiro soberano e rei?

Os cristãos não dividem sua lealdade com um Estado/partido/governo que requer fidelidade religiosa, pois os cristãos sabem que tal lealdade é idolatria, uma quebra do primeiro mandamento

“A frase decisiva no processo foi: ‘Herr Conde, o cristianismo e nós, nacional-socialistas, temos apenas uma coisa em comum; uma única coisa: nós reivindicamos a totalidade do homem’. Eu gostaria de saber se ele realmente compreendia o que havia dito ali. [...] Mantive minha posição [...] não como um protestante, não como um proprietário de terras, não como um nobre, não como um prussiano, nem mesmo como um alemão... Nada disso, mantive minha posição como um cristão e nada mais...”

Moltke era luterano, e membro do Círculo de Kreisau, de resistência não violenta ao nacional-socialismo. Foi executado na prisão de Plötzensee, em Berlim, em 23 de janeiro de 1945, após o fracasso da Operação Valquíria.

Que Deus nos ajude a alcançar tal firmeza, ao custo da própria vida, se necessário. Pois Deus não tolera culto a outros seres ou entes. Somente Deus, o Senhor todo-poderoso, cujos sinais de seu reino já se fazem presentes por meio do ressurreto Jesus Cristo, é digno de todo culto, devoção e glória.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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