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Equipe econômica aperta a “tecla Keynes” e precisa pensar em ações ainda mais fortes
| Foto: Carolina Antunes/PR

A crise provocada pela pandemia de coronavírus tem um ritmo tão rápido que fez a equipe econômica mudar de postura em poucos dias. O ministro da Economia, Paulo Guedes, começou a semana reafirmando o potencial de crescimento de 2,5% para o Brasil em uma entrevista à CNN. Seu ministério nesta sexta (20) já projeta resultado zero para 2020.

No meio do caminho, Guedes teve de apertar a "tecla Keynes", adotando políticas que podemos creditar à análise do economista John Maynard Keynes sobre a depressão dos anos 30. Sua equipe formulou uma série de intervenções para dar suporte para a economia, sendo a mais simbólica delas a decretação do estado de calamidade pública. Com ele, a política fiscal fica livre enquanto houver a batalha contra o coronavírus.

O resumo das ações econômicas do governo até aqui é uma cartilha keynesiana: apoio na forma de transferência de renda para pessoas com dificuldade de manter o trabalho (em especial informais, mas também quem negociar redução da jornada), liberação de recursos para compras públicas (com razão, focadas no combate ao vírus) e um programa para setores mais afetados (empresas aéreas em especial).

Na somatória, o governo anunciou ações que somam quase R$ 200 bilhões. Boa parte desse dinheiro tem efeito fiscal zero, como a liberação do FGTS. Outra parte, atrasa receitas (o desconto no recolhimento ao Sistema S). E há o gasto extraordinário, focado em pessoas de baixa renda e na saúde.

Este é só o início. A expectativa de crescimento divulgada pela equipe econômica ainda será revista várias vezes para baixo. Estamos só na primeira semana de um choque inédito, que não pode ser comparado a recessões anteriores. Trata-se de uma limitação sincronizada de oferta e demanda que rapidamente consumirá o caixa de empresas e a poupança de famílias.

As medidas para a manutenção de emprego ajudarão a dar fôlego aos negócios que conseguirem manter faturamento. O setor de serviços é o que terá mais dificuldades, a depender do tempo de fechamento ordenado pelas autoridades e do número de cidades atingidas. Neste momento é muito difícil estimar o tempo pelo qual esses negócios e seus profissionais terão de viver com suas poupanças e crédito.

É por isso que a equipe econômica precisa estar pronta para manter o dedo na "tecla Keynes". Pode ser a única maneira de manter a demanda até por itens essenciais por parte de milhões de pessoas. Entramos em modo de economia de guerra, pelo menos até o controle do coronavírus no país.

A escolha feita pela equipe econômica pode ter contrariado, inclusive, convicções do ministro Paulo Guedes. Liberal da escola de Chicago, ele aposta na menor intervenção do Estado como o melhor caminho para a prosperidade. É uma visão correta para tempos normais, nos quais as pessoas conseguem empreender e produzir. O coronavírus, porém, é uma barreira ao funcionamento da economia de mercado.

O governo poderá ser colocado diante de escolhas difíceis, como salvar empresas importantes para o país. Em alguns casos, a única saída poderá ser a estatização de negócios. Em outros, a liberação de recurso a custo zero.

Impossível dizer hoje o quanto estamos próximos ou não de um cenário como esses. Mas ele precisa estar já no debate para que não haja um congelamento de ações necessárias. Até governos mais cuidadosos com o gasto público, como o da Alemanha, já se colocaram à frente de pacotes bilionários de apoio à economia.

Nesse processo de suporte à atividade, haverá críticas a respeito do crescimento da dívida pública. Muitos economistas sérios, no entanto, vêm ecoando a máxima de Keynes: no longo prazo estaremos todos mortos. Os governos vão sair mais endividados e terão de lidar com isso depois que a crise passar.

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