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Maurício Souza em treino da seleção masculina de vôlei antes do início dos Jogos Olímpicos de Tóquio.| Foto: Miriam Jeske/COB

“Os fundamentalistas são agressivos na mesma medida em que são vulneráveis.” (Peter Berger)

Enquanto, na semana passada, eu tentava pôr toda a minha atenção em assuntos relacionados à crise ambiental e à importantíssima COP-26 – pautas que, em meu julgamento, deveriam estar no centro de nossas conversas de fim de ano –, a esquerda identitária, sempre consistente na sua alegação de que pautas de “costumes” são pautas de direita, prestou seu desserviço forçando a saliência do tema LGBTQIA+ no pior momento possível, para promover a sua própria agenda de costumes. Porque, se há um assunto que não sai da cabeça da esquerda hoje, é esse: como dar educação moral e cívica aos brasileiros e, especialmente, aos evangélicos.

A saliência foi a movimentação persecutória e punitiva contra o atleta do vôlei Maurício Souza, pressionando patrocinadores e recrutando a imprensa liberal-progressista para pressionar o Minas Tênis Clube e forçar a demissão do jogador. É claro que, com o leite derramado, só restava limpar a sujeira. O assunto alcançou altíssimo engajamento nas mídias sociais. Mesmo assim, recusei-me a escrever sobre isso na semana passada, adiando o assunto por uma semana.

Não é o caso de revirar os detalhes do processo aqui, mas as acusações de “crime de homotransfobia” contra Maurício Souza não procedem. Embora se possa questionar a propriedade diplomática de suas intervenções, e especular sobre suas motivações ocultas, na forma externa elas não passam de expressões de uma sensibilidade moral conservadora diante da promoção da cultura LGBTQIA+, e do questionamento, num debate contemporâneo legítimo e em pleno curso, da participação de mulheres trans em esportes femininos. Os denunciantes do jogador claramente identificam a objeção moral aos valores da cultura LGBTQIA+ como intrinsecamente discriminatória, alegando razões jurídicas. Mas essa identificação é suspeitíssima; o que quer que seja a homotransfobia, não pode plausivelmente ser a mera objeção moral a comportamentos sexuais e a narrativas de autodefinição identitária. Se o direito brasileiro decidir realmente entrar por esse cano, com certeza não desaguará em um lugar glorioso.

Se há um assunto que não sai da cabeça da esquerda hoje, é esse: como dar educação moral e cívica aos brasileiros e, especialmente, aos evangélicos

Caso similar, poucos dias depois, foi o do cancelamento público da filósofa Catarina Rochamonte, por sua coluna da última segunda feira na Folha de S.Paulo: “Homofobia ou Opinião? O Direito de Maurício Souza”. No artigo, a colunista apontou a irracionalidade da celeuma e o problema crucial, que é a natureza precária e mal definida do termo “homofobia”. A indefinição do termo permite alegar que seu único, puro e inocente propósito seria proteger um grupo contra discriminações; mas à medida que se passa a boiada e se muda o regramento, temos testemunhado que o termo visa algo mais: criar um tabu e criminalizar a objeção moral. É uma cunha na pedra. E com isso ficamos na mão de “hermenêuticas jurídicas controversas”, como diz Rochamonte.

Mas a nova celeuma nem se deu por conta disso; o que acendeu o fogo foi a aparição da expressão “homem biológico”. A colunista comentou o incômodo de Maurício Souza com a “presença de um homem biológico no time feminino de determinada modalidade desportiva”. Pronto, Catarina Rochamonte passou a ser acusada de crime de transfobia, inclusive por gente respeitada como o professor Thiago Amparo, da FGV. Conservadores e moderados começaram a se perguntar sobre como deveríamos nos referir ao fato de que pessoas trans ainda pertençam geneticamente a seu sexo de origem. Talvez os denunciantes pensem que ela deveria dizer “mulheres trans”. Mas para Rochamonte isso não funcionaria, se seu propósito – como o de Maurício Souza – foi apontar que o sucesso da transformação sexual é na verdade apenas parcial, e que essa operação deixa como resto uma assimetria de capacidade física entre a mulher trans e as outras mulheres em competições desportivas. Ademais, é o sexo biológico o que causa essa assimetria, não a má vontade dos conservadores. Tampouco ajudaria muito dizer “machos biológicos” ou “pessoas geneticamente masculinas”.

E enquanto nos entregamos a esses exercícios escolásticos, sobe à mente a irresistível sensação de que essa controvérsia de palavras é perfeitamente tola.

Como é tolo o propósito desse policiamento fascistoide: controlar a linguagem, e criminalizar um conjunto muito especial de opiniões – aquelas sobre assuntos de caráter moral – empregando, como expediente, o inflacionamento do princípio antidiscriminatório. Ele é esticado até cobrir os valores sagrados do liberalismo expressivo – o bem-estar individual, a liberação sexual, o “self protegido” e autárquico – de modo que eles sejam, não apenas civilmente protegidos, mas psicologicamente protegidos da dúvida e do questionamento. O Estado se torna, então, o braço armado da cultura terapêutica moderna, da qual o movimento LGBTQIA+ é apenas a ponta de lança.

Esse expediente empregado pelos identitaristas é, quando não desonesto, carente de autoconsciência. Promove narrativas de autoconstituição identitária que, como Charles Taylor mostrou, necessariamente se organizam a partir de bens supremos (ou “hiperbens”) e são, por isso, intrinsecamente morais; afirma a prioridade da felicidade afetivo-sexual individual sobre deveres familiares, religiosos ou sociais, aderindo abertamente à “relação pura” descrita por Anthony Giddens, como núcleo de sua ética sexual; contesta a reprovação moral cristã contra certas práticas sexuais; prega que “toda forma de amor é válida”... e, depois de tudo isso, nega veementemente e de cara lavada que seu discurso seria “moral”! Retruca, sob argumentos variados, como o de que se trata de assuntos psicológicos e de “identidade”, como se isso dissolvesse magicamente o caráter obviamente moral da coisa toda. A falta de autocrítica é exasperadora.

Para mim parece claro que a veemência dos oráculos pronunciados contra a liberdade de expressão e de crença e contra as posições conservadoras é o típico ruído para compensar outro ruído. É uma tentativa de eliminar a vertigem.

O Estado se torna o braço armado da cultura terapêutica moderna, da qual o movimento LGBTQIA+ é apenas a ponta de lança

“Pode-se dançar exuberantemente em volta da árvore da liberdade. Depois de algum tempo, contudo, a vertigem da libertação abre caminho para uma inquietação crescente. É como se não houvesse chão para se manter; nada é certo, e não há mais guias confiáveis para dizer como se deveria viver. Agora se busca uma nova libertação, uma libertação da antiga libertação que abolira as velhas coações institucionais. O que se segue tipicamente é a reconstrução de instituições, sejam elas antigas ou novas.” (Peter Berger)

Pois é isso; desfeito o establishment judaico-cristão no campo da moralidade afetivo-sexual, das identidades e dos “costumes”, de repente a “diferença” deixa de denotar a existência de alternativas, para significar uma única alternativa, a ética do liberalismo expressivo, da qual as moralidades sexuais e as identidades afetivas do movimento LGBTQIA+ são apenas um símbolo sagrado, com função similar às crianças no cristianismo. A diversidade, refratada pela lente do progressismo liberal, deixa de incluir a divergência. A tolerância torna-se, então, desnecessária, e as liberdades fundamentais de expressão e de crença são severamente qualificadas. Tudo para criar um novo establishment, numa nova institucionalização.

Essa é a verdade, o óbvio ululante, dançando aos olhos de todos, mas supreendentemente invisível a algumas mentes: se, com apelos aos direitos humanos, a jurisprudências, à ADO26, a Jesus Cristo, à deusa Afrodite, a Santo Expedito ou até às almas penadas, se sustenta que a objeção moral à cultura LGBTQIA+, às suas moralidades afetivo-sexuais e às suas narrativas de autoconstituição identitária é um gesto imoral e criminoso, segue-se que essa cultura, com suas moralidades sexuais e entendimentos da identidade humana, tornou-se normativa, a regra e a lei, a nova torah de nossa sociedade.

Nesse caso, o que temos não é o reconhecimento de que os artigos 18 e 19 da Declaração Universal dos Direitos Humanos são limitados por outros direitos, como alegou falaciosamente Gabriela Prioli, mas que esses artigos ficam suspensos em tudo o que se refere a assuntos de afetividade, moralidade sexual, família e identidade. Nesses assuntos a religião só pode dizer o que o liberalismo expressivo permitir.

E com isso fica proibido o cristianismo.

“O fundamentalismo é um esforço para restaurar a certeza ameaçada. O termo é geralmente aplicado a movimentos religiosos, mas é importante compreender que há muitos fundamentalismos seculares – políticos, filosóficos, estéticos e mesmo culinários (como no caso de alguns vegetarianos) ou atléticos (como na fidelidade a um determinado time esportivo). Praticamente qualquer ideia ou prática pode se tornar o fundamento de um projeto fundamentalista, em níveis muito diferentes de sofisticação... há fundamentalismos reacionários e progressistas... Os fundamentalistas são agressivos na mesma medida em que são vulneráveis.” (Peter Berger)

Praticamente qualquer ideia... não é este o caso? Os valores do liberalismo expressivo são isso, uma ideia, e uma ideia moral que não aceita divergências. Que não pode ser questionada, ou evocará o desejo de silenciar, criminalizar e encarcerar. Pois o sagrado projeto de moralizar o mundo com a sua moralidade liberal não poderá progredir, se houver gente subversiva à solta, semeando incertezas e dúvidas.

Os moralistas estão chegando, meus amigos.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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