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Detalhe de pintura de Jean-Baptiste Debret com cena de uma família no fim do Brasil colônia e início do Império.
Detalhe de pintura de Jean-Baptiste Debret com cena de uma família no fim do Brasil colônia e início do Império.| Foto: Reprodução

“Donde nasce também, que nenhum homem nesta terra é repúblico, nem zela, ou trata do bem comum, senão cada um do bem particular. Não notei eu isto tanto quanto o vi notar um bispo de Tucuman da Ordem de São Domingos, que por algumas destas terras passou para a Corte, era grande canonista, homem de bom entendimento e prudência, e assim ia muito rico; notava as coisas, e via que mandava comprar um frangão, quatro ovos, e um peixe, para comer, e nada lhe traziam: porque não se achava na praça nem no açougue, e se mandava pedir as ditas coisas, e outras muitas a casas particulares lhas mandavam, então disse o bispo verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa; e assim é, que estando as casas dos ricos, ainda que seja à custa alheia, pois muitos devem quanto têm, providas de todo o necessário, porque tem escravos, pescadores, caçadores, que lhes trazem a carne e o peixe, pipas de vinho e de azeite, que compram por junto: nas vilas muitas vezes se não acha isto à venda. Pois o que é fontes, pontes, caminhos e outras coisas públicas é uma piedade, porque atendo-se uns aos outros nenhum as faz, ainda que bebam água suja, e se molhem ao passar dos rios, ou se orvalhem pelos caminhos, e tudo isto vem de não tratarem do que há cá de ficar, senão do que hão de levar para o reino. Estas são as razões por que alguns, como muitos dizem, que não permanece o Brasil nem vai em crescimento; e a estas se pode ajuntar a que atrás tocamos de lhe haverem chamado estado do Brasil, tirando-lhe o de Santa Cruz, com que pudera ser estado, e ter estabilidade e firmeza.” (Frei Gaspar da Madre de Deus, 1797)

Raízes do Brasil (1936) é um clássico obrigatório, revisitado religiosamente por qualquer um que se aventure pela compreensão do Brasil; todos pagam seus respeitos a Sérgio Buarque de Holanda; oferecem seus sacrifícios piedosamente e cantam seus elogios, nem que seja pelo dever cívico. Mas levar a sério sua leitura da formação nacional implica posicionar-se contra ou a favor, com toda a clareza.

O que grande intelectual paulista e urbano propôs, de certo modo falando a partir de sua própria realidade, foi uma revolução, um abandono do velho Brasil, do Brasil neoportuguês, rural, conservador, autoritário, personalista e pouco industrioso, acomodado e afetivo – ou cordial, por um novo Brasil que emergia nas cidades, o Brasil da impessoalidade, da indústria, da burocracia e do civismo – um Brasil efetivamente racionalizado, republicano e democrático.

O etos de nossos ancestrais portugueses era uma cultura da personalidade, do valor próprio e da autonomia de cada homem, resultando em falta de coesão na vida social; “cada qual é filho de si mesmo”

Para argumentar nessa direção, Buarque empreende uma erudita, gráfica e precisa descrição do paradoxo brasileiro, a grande questão nacional. Diferentemente de interpretações posteriores como as de Caio Prado Jr. e Florestan Fernandes, no entanto – graças a seu evidente, ainda que inconfesso weberianismo –, nosso autor explora por meio de tipos ideais e pares polares a luta interior da brasilidade: “trabalho e aventura”, “rural e urbano”, “português e espanhol”, “semeador e ladrilhador”, “família e Estado”, desenhando o quadro de um paradoxo histórico.

O historiador mineiro José Carlos Reis recupera o primeiro título de Raízes do Brasil: “Corpo e Alma do Brasil; ensaio de psicologia social”. O título acabou sendo Raízes do Brasil. E, segundo Evaldo Cabral de Mello, a obra permaneceu porque, além de seu positivo poder explanatório, uniu análise sociológica com história social de alta qualidade, como o fez também Gilberto Freyre. Daí saiu esse tipo, o “homem cordial”, a um só tempo uma categoria sociológica, antropológica e psicológica. Esse produto singular entre a sociologia, a psicologia e a história social poderia muito bem se enquadrar no que Philip Rieff chama de “psico-história”, na tentativa de desvendar os programas de formação espiritual e moral em cada cultura.

Esse perfil da singularidade brasileira pode, em minha opinião, ajudar a iluminar um problema que temos levantado nessa coluna: a questão dos capitais sociais e morais na sociedade e na religião brasileira. Será assunto para mais de uma coluna. Mas primeiro precisamos voltar a 1936.

O “homem cordial”

Sérgio Buarque de Holanda abre sua argumentação acusando o impasse brasileiro: somos “desterrados na própria terra”. Tudo se deve ao etos de nossos ancestrais portugueses e seu modo de colonização. Tratava-se de uma cultura da personalidade, do valor próprio e da autonomia de cada homem, resultando em falta de coesão na vida social; “cada qual é filho de si mesmo”. A essa “autarquia do indivíduo” Buarque contrasta “o espírito de organização espontânea, tão característica de povos protestantes e, sobretudo, de calvinistas”. A falta de uma ética do trabalho e do interesse pela organização social faz com que os governos sejam o único princípio unificador possível, resultando nos polos da autarquia individual e do autoritarismo, com a renúncia de si e a obediência cega. Essa psicologia neoportuguesa estaria na matriz da brasilidade. Daí viria essa oscilação entre liberalismo autoritário e caudilhismo que incomodava Buarque, como nota José Carlos Reis.

E assim se deu a colonização portuguesa: no lugar de trazer aos trópicos uma ética do trabalho, o que veio foi uma ética da aventura, a “ânsia de prosperidade sem custo, de títulos honoríficos, de posições e riquezas fáceis”, e “teve influência decisiva em nossa vida nacional”. Em vez de criar uma civilização agrícola e uma verdadeira colonização, os portugueses se lançaram à lavoura açucareira e à predação da terra, com “métodos maus... rudimentares, danosos e orientados apenas para o imoderado e imediato proveito de quem os aplica”, pedindo mais à terra do que davam. O trabalho manual, malvisto, foi ocupado pelo trabalho escravo, e havia pouco “trabalho de índole coletiva” e empreendimento associativo. “Se os homens se ajudam uns aos outros, notou um observador setecentista, fazem-no ‘mais animados do espírito da caninha do que do amor ao trabalho’.” E aí estariam as origens da nossa “cordialidade”:

“Em sociedade de origens tão nitidamente personalistas como a nossa, é compreensível que os simples vínculos de pessoa a pessoa, independentes e até exclusivos de qualquer tendência para a cooperação autêntica entre os indivíduos, tenham sido quase sempre os mais decisivos... O peculiar da vida brasileira parece ter sido, por essa época, uma acentuação singularmente enérgica do afetivo, do irracional, do passional, e uma estagnação ou antes uma atrofia correspondente das qualidades ordenadoras, disciplinadoras, racionalizadoras. Quer dizer, exatamente o contrário do que parece convir a uma população em vias de organizar-se politicamente.”

O mundo criado por esse espírito é um mundo rural, mas predatório em relação à terra e moralmente acomodado à topografia do lugar; estagnado comercialmente e laboralmente com o escravismo; e também estagnado politicamente, por uma onipresente “mentalidade de casa grande”.

Isso se deu porque a vida econômica, social e política gira em torno da família patriarcal rural, e os compromissos ali são afetivos e biológicos. As considerações de caráter público não podem se erguer acima do interesse tribal e patriarcal de cada pertença. O dono da terra exerce autoridade despótica e caprichosa, e os domínios rurais se sustentam como autarquias. “Verdadeiramente que nesta terra andam as coisas trocadas, porque toda ela não é república, sendo-o cada casa”.

O estilo de família segundo o “velho direito romano-canônico”, uma versão da forma latina, fazia do donatário um autêntico paterfamilias. Esse modelo patriarcal personalista, autoritário e antipolítico dominava todas as relações e organizava a vida social, perpetuando-se e tornando-se o padrão até mesmo para as famílias de menos posses e, posteriormente, para toda a vida urbana brasileira. Buarque chega a falar em uma duradoura ditadura dos domínios rurais, segundo esse paradigma.

A vida econômica, social e política gira em torno da família patriarcal rural, e os compromissos ali são afetivos e biológicos

Um insight de Buarque para realçar a singularidade brasileira é sua hábil comparação com a colonização hispânica. Na América espanhola a colonização se deu “por um ato definido da vontade humana”. Suas “cidades abstratas” ficavam longe do litoral, em locais de clima afim ao europeu, obedecendo a um rígido plano arquitetônico, sempre com a praça central e suas linhas retas. Desde o início os colonos vieram reproduzir a vida original, e a Universidade de São Domingos, a primeira do continente, é estabelecida já em 1538, e ao fim do período colonial já eram 23 universidades.

Nada parecido se deu na colonização portuguesa. Esta “renunciou a trazer normas imperativas e absolutas... cedeu todas as vezes em que as conveniências imediatas aconselharam a ceder... convidou menos em construir, planejar ou plantar alicerces, do que em feitorizar uma riqueza fácil e quase ao alcance da mão”. Permaneceram nos litorais, e sempre, de certo modo, “de passagem”, sem tentar fazer da terra uma extensão de Portugal, em relação de pura exploração . As casas eram construídas sem plano, desalinhadas e “segundo o capricho dos moradores”. O projeto inteiro tinha uma atitude “tateante e perdulária”, um “realismo fundamental” que em vez de modificar as coisas aceita a vida “como ela é”, sem ilusões e impaciências, mas também sem alegria.

Temos assim o contraste entre os tipos do “semeador” e “ladrilhador”, o primeiro acompanhando os humores da terra e o segundo industrioso, com uma ética de criação e imposição da vontade. Não é que os ibéricos fossem mais obcecados por riquezas que os outros povos – Buarque insiste em reforçar –, mas que o espírito é diferente. “O que principalmente os distingue é, isto sim, certa incapacidade, que se diria congênita, de fazer prevalecer qualquer forma de ordenação impessoal e mecânica sobre as relações de caráter orgânico e comunal, como o são as que se fundam no parentesco, na vizinhança e na amizade”.

E isso nos leva ao conceito seminal de “homem cordial” de Buarque. Esse tipo, construído segundo a metodologia weberiana, refere-se ao paradigma de formação moral neoportuguês, dominado pelo coração (cordis). Ele não é cordial no sentido de polidez ou de generosidade positiva, mas de ser dominado por afeições, apegos e compromissos privados, que podem se mostrar como amor ou como ódio, mas cujo efeito principal é inviabilizar o desenvolvimento de uma lógica de vida pública.

O “homem cordial” não é “cordial” no sentido de polidez ou de generosidade positiva, mas de ser dominado por afeições, apegos e compromissos privados, que inviabilizam o desenvolvimento de uma lógica de vida pública

A sede de intimidade e a afetividade como norma seria fruto da organização social patriarcal. Interesses ordenadores públicos não têm força diante do círculo de interesses privados e familiares: “um dos efeitos decisivos da supremacia incontestável, absorvente, do núcleo familiar – a esfera, por excelência, dos chamados ‘contatos primários’, dos laços de sangue e do coração – está em que as relações que se criam na vida doméstica sempre forneceram o modelo obrigatório de qualquer composição social entre nós”. O problema, então, é uma espécie de familismo retrógrado e sistêmico:

“Com efeito, onde quer que prospere e assente em bases muito sólidas a ideia de família – e principalmente onde predomina a família de tipo patriarcal – tende a ser precária e a lutar contra fortes restrições a formação e evolução da sociedade segundo conceitos atuais. A crise de adaptação dos indivíduos ao mecanismo social é, assim, especialmente sensível no nosso tempo devido ao decisivo triunfo de certas virtudes antifamiliares por excelência, como o são, sem dúvida, aquelas que repousam no espírito de iniciativa pessoal e na concorrência entre os cidadãos.”

Buarque verá aí, em um interessante salto de imaginação psicológica, uma incapacidade de existir como indivíduo, um “viver nos outros”. Se assim for, podemos pensar que a falta de solidariedade ética entre os brasileiros não seria fruto de ausência de sociabilidade, mas de uma formação incompleta do indivíduo, gerando coletividade e dependência emocional, mas sem comunidade de fato. “O desconhecimento de qualquer forma de convívio que não seja ditada por uma ética de fundo emotivo representa um aspecto da vida brasileira que raros estrangeiros chegam a penetrar com facilidade”.

O impasse brasileiro

O impasse brasileiro, tão vívido diante de Buarque em 1936, diz respeito a essa difícil passagem entre o modo de vida antigo, rural e patriarcal, e o modo moderno, urbano e, devemos dizer, ético, e de uma ética apropriada à vida moderna – uma ética de trabalho, impessoalidade, individualidade, racionalidade e vida pública. Os maçons e positivistas trabalharam para modernizar a nação, de cima para baixo, mas as providências para mudar a cultura nacional não foram tomadas, e as condições para tanto não havia. Uma “crença mágica no poder das ideias”, o bacharelismo, o teorismo e a abstração apenas acentuaram nosso impasse.

Buarque ainda se perguntará sobre “a Revolução Brasileira”, e põe-se a desmascarar impiedosamente as apostas vãs na mera mudança política. Aqui, como em outras partes da América Latina, trocamos um projeto personalista por outro, sem mudar a essência. É inútil também apenas mudar as leis escritas – o que para muitos brasileiros parece ser o único recurso imaginável – desde que a felicidade dos povos e a estabilidade das nações depende de muito mais. Trazer “as palavras mágicas Liberdade, Igualdade e Fraternidade”, reinterpretando-as para se acomodarem ao velho modelo social, se mostrou inútil. Não haverá mudança real “enquanto não se liquidem, por sua vez, os fundamentos personalistas e, por menos que o pareçam, aristocráticos, onde ainda assenta nossa vida social”. A velha ordem precisaria ser revogada por “uma boa e honesta revolução”, nas palavras de Herbert Smith.

Essa “revolução vertical” da qual fala Buarque precisaria ser algo radical, capaz de alterar o etos brasileiro, o nosso próprio paradigma de formação moral, que se encontra na base da ordem brasileira.

“É claro que um amor humano sujeito à asfixia e à morte fora de seu círculo restrito não pode servir de cimento a nenhuma organização humana concebida em escala mais ampla. Com a simples cordialidade não se criam os bons princípios. É necessário algum elemento normativo sólido, inato na alma do povo, ou mesmo implantado pela tirania, para que possa haver cristalização social.”

É assim que reformas superficiais e mesmo ajustes no Estado serão sempre insuficientes. O Estado é “criatura espiritual” e não tem força normativa a não ser em unidade e correspondência com a vida social, como “um contorno congênito” a ela. Portanto, a sociedade é que precisa mudar, e o etos cordial precisaria ser superado.

Como isso deveria acontecer é o que não fica claro; Buarque nunca foi defensor de uma revolução socialista. José Carlos Reis o descreve como um liberal-democrata, contemplando muito mais as revoluções burguesas e o etos protestante, como já observamos. Ele aspira por essa transformação, mas entende que a mudança brasileira é coisa muito lenta, com um tempo próprio. E ela está em curso, de qualquer modo, no palco das cidades.

Etos protestante sem protestantismo?

Com mencionamos no curso do artigo, Buarque não se evade na honra ao protestantismo; admite livremente que esse etos distinto levou a civilizações adiantadas em termos econômicos, sociais e políticos. Esse etos envolvia trabalho e indústria, consciência e responsabilidade pública, impessoalidade e, com destaque, um espírito cooperativo capaz de produzir grande coesão social. Ao considerar o experimento da Nova Holanda em Pernambuco, observou com clareza a diferença de etos em relação ao mundo colonial português.

Já o etos patriarcal, individualista e cordial neoportuguês garantiu-nos o que viria a se chamar de subdesenvolvimento. Estagnamos num modo de sociedade afetivo e familista, submoral em certo sentido, vivendo ou autarquicamente ou unidos sob a força do caudilhismo. E aqui a religião foi adaptativa também. O catolicismo romano envolvia “uma simpatia transigente e comunicativa... mais universalista ou menos exclusivista do que o protestantismo”. Daí o relativo “insucesso” do calvinismo em captar convertidos (ainda que os seus fossem praticantes muito mais fervorosos).

Assim, na opinião de Buarque os valores cordiais e a ênfase no sensível (diferentemente do racionalismo protestante) se acomodaram ao nosso comportamento social pouco integrado e pouco disciplinado. O catolicismo romano “batizou” o homem cordial; coube aos maçons, positivistas e agnósticos promover a independência e depois a república. Por outro lado, cita com aprovação um visitante do Brasil para quem “o austero metodismo ou o puritanismo jamais florescerão nos trópicos”.

O etos patriarcal, individualista e cordial neoportuguês garantiu-nos o que viria a se chamar de subdesenvolvimento. Estagnamos num modo de sociedade afetivo e familista, submoral em certo sentido, vivendo ou autarquicamente ou unidos sob a força do caudilhismo

Para um weberiano com sonhos de sociedade nova e modernizada, tal declaração poderia causar certa aflição; mas Buarque não faz questão de religião per se, mas se interessa por ela apenas enquanto e na medida em que dá sua contribuição para o processo civilizatório e a modernização. Sem esperança de uma generalização do protestantismo nessas terras, um etos moral diferente do cordial precisaria se desenvolver no Brasil de algum modo, a partir da experiência urbana brasileira.

O fato, no entanto, é que isso não se consumou. O etos cordial sobrevive. É verdade que foi parcialmente civilizado; mas segue potente, condicionando a religião, a vida familiar, a economia e, claramente, a política. Hoje mesmo a política nacional é refém de duas personalidades caudilhescas que polarizam as emoções nacionais. Querem algo mais cordial do que isso?

Protestantismo sem etos protestante?

O fato é que algo da austeridade protestante chegou ao Brasil, seja por meio do protestantismo de missão – tímido em 1936, mas crescente – ou pelo pentecostalismo, herdeiro da piedade metodista e holiness. Parece que o evangelicismo brasileiro cresceu na medida em que se adaptou às novas formas de vida urbana brasileira, enquanto essas se tornavam menos tradicionais e se afastavam do mundo neoportuguês.

No entanto, o que se vê em boa parte do evangelicismo brasileiro e talvez, ainda mais, nas formas mais sincréticas como o neopentecostalismo, é precisamente a reprodução do etos do homem cordial e do estilo familista e patriarcal de poder. Ou melhor: temos um continuum, do neopentecostalismo popular, uma “religião de feitoria”, por assim dizer, e o evangelicismo conservador, alinhado com o protestantismo histórico. Mesmo em suas formas mais estritas, no entanto, o evangelismo brasileiro parece não ter se engajado conscientemente no processo de julgar e agir em relação ao impasse posto por Buarque.

Minha hipótese, a essa altura, é de que o evangelicismo, como versão pós-iluminista de protestantismo, é uma forma de religião muito mais adaptada à ênfase na individualidade e na afetividade que, em todo caso, é a marca do “capitalismo de hiperconsumo” (segundo Gilles Lipovetsky) ou “capitalismo emocional” (segundo Eva Illouz) que começou a emergir já na primeira metade do século 20. Nesse sentido, por razões distintas, mas de modo muito similar, ele se amolda ao atual modo de produção do mesmo modo que o catolicismo romano se amoldou à sociedade colonial no passado. Mas, além disso, adaptou-se ao etos cordial brasileiro, nosso fio condutor espiritual.

Assim, o protestantismo brasileiro não transplantou para o Brasil o etos protestante descrito por Weber. A esquerda e a direita nacional jamais conseguiram extirpar o etos cordial, e o cristianismo brasileiro, seja ele católico ou evangélico, ainda não pôde solucioná-lo. O brasileiro ainda é um ser desinteressado pelo bem comum; ainda é válido o diagnóstico de Frei Gaspar. Essa segue sendo a própria raiz da nossa doença.

Uma boa e honesta revolução

Aqui cabem algumas observações críticas. Em primeiro lugar, é claro que para Buarque precisamos viver uma mudança cultural no Brasil. A “revolução” buarqueana não é a revolução socialista nem é uma revolução meramente política, mas uma revolução de raiz moral. Segundo diz claramente esse sábio, seria preciso “um elemento normativo sólido”, inato ou implantado “na alma do povo”. Faz sentido que Buarque pretendesse intitular o livro como um tratado de psicologia social, portanto. Mais do que isso, eu diria: Buarque apresenta uma espécie de psicologia moral histórica. O “homem cordial” não é só uma categoria sociológica ou antropológica; é uma tipologia moral.

Ora, não é segredo que a sociologia brasileira há muito abandonou essa linha de abordagem, privilegiando a investigação das subestruturas econômicas do comportamento social. Com Caio Prado Júnior o modelo de colonização e o modo de produção econômica assumem a dianteira nos processos explanatórios, e Karl Marx suplanta (ainda que não extingua) o weberianismo de Buarque. Outros, como Florestan Fernandes e a “escola paulista”, vão procurar nos aspectos macroestruturais a explicação dos problemas brasileiros e também a saída para eles. Buarque passou a ser visto como um dos representantes da “ideologia do caráter nacional brasileiro”.

Há uma pobreza na alma brasileira. Esse ainda é nosso problema hoje – um problema do Brasil e das igrejas brasileiras, inclusive

Em defesa de Buarque, no entanto, eu apontaria o surgimento posterior de interpretações sobre o desenvolvimento econômico e político democrático que herdam de Tocqueville a consideração pela sociedade civil e a traduzem em termos de “capitais sociais”, como Robert Putnam e Francis Fukuyama; e que consideram o peso da cultura na explanação da vida produtiva nacional, como David Landes. Longe de ser uma “fase ideológica” da interpretação do Brasil, a discussão sobre cultura e valores segue relevante. Voltaremos a esse assunto nessa coluna.

Mas contra Buarque, eu diria que sua esperança de uma revolução brasileira sem lidar com a religião brasileira é um sonho vão. A seu modo, a sociologia progressista sempre cultivou o mesmo sonho, com parcos resultados. Intelectuais mais conservadores do que Buarque buscaram em valores inatos à alma brasileira alguma solução, e os progressistas apostaram nas mudanças estruturais. Mas a religião é estruturante de todo o universo moral das pessoas, lança raízes muito profundas, e condiciona a cultura tanto quanto ou até mais que o modo de produção econômico. Mudanças tão radicais quanto as que Buarque desejava são mudanças espirituais que dependem de grandes traumas nacionais ou de transformações religiosas profundas, ou de ambas. E quanto a isso, nem a direita, nem a esquerda, e nem as igrejas conseguiram mais do que riscar a superfície.

Não nego que os cuidados conservadores e as mudanças estruturais do progressismo tenham relativa importância, mas sinto que ambos negaram um grave problema nas raízes brasileiras: a falta do Evangelho. De um Evangelho capaz de arrancar o brasileiro da prisão de si mesmo e lançá-lo na direção do próximo, da fraternidade e do bem comum. Há uma pobreza na alma brasileira. Esse ainda é nosso problema hoje – um problema do Brasil e das igrejas brasileiras, inclusive. E é aí que carecemos de uma boa e honesta revolução.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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