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Guilherme Fiuza

Guilherme Fiuza

A primeira, segundo ela

Para Janja, as outras primeiras-damas não trabalharam

Novo episódio polêmico de Janja: primeira-dama diz que foi a primeira a trabalhar efetivamente. (Foto: Claudio Kbene/PR)

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Janja disse que, antes dela, o Brasil nunca teve uma primeira-dama que trabalhasse. A declaração foi dada numa entrevista ao portal UOL. A esposa de Lula parecia bem segura do que dizia — tanto que fez questão de se classificar como a primeira esposa de chefe de Estado a trabalhar “efetivamente”.

Ou seja: trabalho de verdade, na história das primeiras-damas brasileiras, só ocorreu com Janja da Silva (segundo ela própria).

A afirmação contundente não gerou polêmica na entrevista. Janja chegou a ser perguntada sobre sua agenda de trabalho ou em que consistia essa atividade considerada por ela pioneira para o posto. Respondeu que vai “quase todo dia” ao Palácio, citou parcerias e programas em que atua junto a outros países e ficou tudo bem.

O centro da argumentação da primeira-dama brasileira era uma autodefesa contra os que a consideram “gastadeira”. As despesas em viagens internacionais com hospedagens em hotéis de luxo e comitivas numerosas não foram inventadas pelos críticos. Mas Janja afirmou que sempre procura primeiro a estadia nas embaixadas. Não deixa de ser um consolo.

A questão principal, porém, é menos inocente do que essa polêmica ou disse-me-disse sobre shoppings, hotéis e cartões. A primeira-dama brasileira afirma — e fez questão de enfatizar na entrevista ao UOL — que as críticas ao seu nível de gastos são “misoginia”. Considerando que está em tramitação um projeto de lei sobre a matéria, criminalizando os atos misóginos, e, a prevalecer o juízo de Janja sobre o assunto, muito em breve quem eventualmente chamá-la de “gastadeira” estará em maus lençóis.

A primeira-dama do Brasil tem lugar de fala na questão do controle da informação

Ela mostrou ao mundo sua preocupação com o assunto ao lado de ninguém menos que o presidente da China, Xi Jinping. Lula e Janja pediram ajuda ao líder máximo do regime de partido único (que controla o ambiente digital em seu país com mão de ferro) para a regulação das mídias sociais no Brasil. Sem dúvida alguma, no regime chinês ninguém deve se aventurar a chamar uma autoridade ou figura palaciana de “gastadeira”.

Talvez o Brasil já esteja a meio caminho desse padrão. A declaração de que nenhuma primeira-dama antes de Janja “trabalhou efetivamente” não comoveu os meios de comunicação, nem gerou ao menos a saudável sequência de contrapontos — como qualquer assunto no mínimo polêmico merece numa democracia.

O insulto a D. Sarah Kubitschek, com seu proverbial legado em várias formas de assistência social, saiu de graça. A Rede Sarah de hospitais deve ter sido batizada dessa forma por acaso. Se não foi trabalho, deve ter sido numerologia. O famoso programa Comunidade Solidária, elaborado e implementado com eficiência e discrição pela então primeira-dama Ruth Cardoso, vai ver também não é mais considerado trabalho na historiografia moderna. Quem sabe não foi um golpe de sorte?

Parabéns a todos os entusiastas e apoiadores, tácitos ou explícitos, desse discurso. Esqueçam a história e a liberdade de crítica. O poder é a verdade. Desse jeito a gente chega lá.

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