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O Brasil aprendeu nos últimos anos que existe inflação e “sensação de inflação”. A realidade dos fatos, a partir desse fenômeno, adquiriu um novo status: assim é, se lhe parece (ou se assim te contam). Será que estamos entrando também na era da “sensação de democracia”?
O motivo mais visível para se pensar nessa hipótese surgiu na campanha presidencial. Um setor muito esclarecido da sociedade - que poderia ser classificado como “elite cultural” ou algo assim - passou a ter uma conduta ostensiva em defesa do seu candidato. Basicamente, intelectuais e artistas saíram apontando o dedo para colegas famosos e exigindo deles que declarassem publicamente seu voto para presidente da República.
Pode-se dizer que foi exigência, porque hoje em dia uma cobrança em rede social, entre usuários de grande alcance, é uma mensagem que chega para todo mundo. Ou seja: ninguém pensou em discrição ou privacidade. O jogo é expor o alvo ao julgamento geral.
Sobreveio então uma verdadeira campanha para estigmatizar aquele que não “se posicionasse” na eleição. Ou seja: integrantes da classe artística (os mais ruidosos) passaram a jogar no ventilador o nome de colegas que ainda não haviam declarado publicamente seu voto em Lula. Por que em Lula? Porque para o comando propagandístico que outorgou a si mesmo o posto de porta-voz da cultura nacional, Lula é a única possibilidade de democracia para o Brasil.
Em nome da democracia, portanto, figuras célebres do showbiz passaram a patrulhar, à luz do dia, quem não havia declarado voto no PT. Existe perseguição democrática? Se os valores forem transplantados para o campo das sensações, pode até existir.
Intelectuais e artistas saíram apontando o dedo para colegas famosos e exigindo deles que declarassem publicamente seu voto para presidente da República
Numa reação bastante rara nos dias de hoje, o cantor Falcão, do grupo O Rappa, disse o seguinte sobre a chegada dos patrulheiros ao seu quintal:
“Vocês têm seu político de estimação que é o sistema (kkkkk). Tiram foto, abraçam e botam camisa. Que piada. ‘Geral’ atolado nos impostos, supermercado caro, crimes, saidinha de estuprador, zero segurança e vocês insistem (kkkkk). Aqui é suor e trabalho. Canto pra todos e não pra um lado. Eu sou e sempre fui contra esse sistema que vocês idolatram. Aqui é sem privilégios, suor, trabalho e sem Lei Rouanet. Vai lá perturbar o João Gomes”.
Ou seja: uma voz quase solitária surgiu em meio à patrulha para dizer que os “democratas” que andam caçando colegas por aí são, na prática, defensores do sistema. Exatamente isso: usam discurso libertário para defender o poder - e todas as suas emanações deletérias, como nas áreas econômica e criminal, citadas por Falcão.
Qual seria o nome adequado para essas brigadas culturais que perseguem o pensamento alheio? Rebeldes a favor? Libertários oficiais? Revolucionários do sistema? Governistas de oposição?
Escolha você mesmo o seu paradoxo preferido. Com uma certeza: se a sociedade normalizar a perseguição às consciências individuais como forma de “responsabilização política”, ela estará de fato decidindo substituir a democracia pela sensação de democracia.

Guilherme Fiuza é jornalista, escritor e roteirista, autor dos livros “Meu nome não é Johnny”, “3.000 dias no bunker” (ambos adaptados para o cinema), “Bussunda - A vida do casseta”, “O Império do Oprimido” e “O passado promete”, entre outros. Autor das peças “Eu e ela” e “O controle”, e coautor da série de TV “O Brado Retumbante”. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




