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Na sua primeira manifestação após o primeiro turno das eleições, Lula falou cercado de aliados derrotados. Enquanto discorria sobre o resultado que lhe surpreendeu, era observado por Simone Tebet, Fernando Haddad, Marina Silva, dentre outros. Além de Guilherme Boulos e Janja da Silva, que não concorreram, mas que são figuras universalmente rejeitadas pelo eleitor médio e moderado. O resultado não foi uma imagem inspiradora para quem tem o dificílimo desafio de virar uma eleição.
Ao contrário de outras disputas em que foi ao segundo turno com vantagem, dessa vez, o petista parte de trás, com uma sobra de votos válidos que se divide majoritariamente entre diferentes grupos ou tendências de direita. O que Lula consegue alcançar além do que já obteve até aqui? Tudo leva a crer que o piso eleitoral de Lula também é o teto.
Há, claro, o expressivo contingente de abstenções, no qual se deposita a esperança do incumbente. Mas como motivar essa parte da população que não se sentiu interessada em votar até aqui? E como, uma vez alcançando tal objetivo, convencê-la de que o melhor caminho é a continuidade de Lula?
O PT, como é sabido, não é versado em autocrítica. Com frequência, escolhe o vitimismo. Seus membros, com Lula incluso, acham que são rejeitados por seus méritos. E daí concluem que o melhor a fazer é redobrar a dose do que, na verdade, são seus vícios
Com quase todos os principais colégios eleitorais já definidos, o número de militantes partidários pedindo votos por aí diminui. E, com isso, diminui também a capilaridade da campanha e, portanto, a possibilidade de convencimento do eleitor para comparecer às urnas. Quem fará isso em nome do presidente? As almas penadas de seus aliados exorcizados nas urnas? Um bando de vencidos?
O que se viu foi um landslide do bolsonarismo. Um saldo eleitoral da mesma proporção que o atingido por Donald Trump quando de sua volta ao poder. O PL teve resultados expressivos para o Senado Federal, para a Câmara dos Deputados, para os governos estaduais e para as assembleias legislativas. Será que alguém no PT terá capacidade de fazer a leitura correta do que se passou? É improvável.
Em 2022, Lula voltou com a promessa de uma nova era de prosperidade social. A imagem que representava a síntese do seu discurso era um pedaço de picanha no prato de cada trabalhador. Ao final de 2026, não só faltou picanha, como sobrou a fatura do endividamento recorde. A ideia de bonança se perdeu com a asfixia das condições financeiras nos lares brasileiros.
Condicionado ao passado, Lula sempre tentou justificar a equação econômica se referindo aos feitos do 1º mandato, quando o que sempre esteve em análise era sua terceira passagem pelo poder. Errou também ao achar que o eleitor avaliaria a democracia. Mas não é uma instituição que o cidadão carrega no bolso, e sim a carteira. Some-se a insatisfação com o governo (que não entregou o que prometeu) à percepção de que era necessária uma resposta aos ministros do STF, e saem as bases para entender os resultados do último domingo.
Mas o PT, como é sabido, não é versado em autocrítica. Com frequência, escolhe o vitimismo. Seus membros, com Lula incluso, acham que são rejeitados por seus méritos. E daí concluem que o melhor a fazer é redobrar a dose do que, na verdade, são seus vícios. Para Lula, o saldo é achar que repetiu seu primeiro mandato, quando, na verdade, fez uma cópia do segundo mandato de Dilma.
Alguém em meio àquele grupo que cercava Lula ao fim do primeiro turno certamente achará que estamos diante da ascensão do fascismo. Curiosamente, um “fascismo” resultante da preferência do eleitor que no último pleito havia votado em Lula, mas que agora preferiu dar outro caminho ao país. Ao invés de fazer uma inflexão tática, o mais provável é que daí saia uma pregação ideológica tão extremista quanto a que se supostamente combate. A ironia final. O mandatário que se elegeu duas vezes pelo discurso da esperança, tentar se salvar espalhando medo.
Conteúdo editado por: Jocelaine Santos

Guilherme Macalossi é jornalista, apresentador, redator e radialista. Formado em Direito, é apresentador do programa "Bandeirantes Acontece" e comentarista do "Jornal Gente", na Rádio Bandeirantes. É colunista do jornal "Band Cidade", na TV Bandeirantes. Atua também como fellow do Instituto Monitor da Democracia. Na Gazeta do Povo já foi produtor do programa Imprensa Livre e de mini-documentários especiais. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



