| Foto: Fabio Abreu/Thapcom
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A classe trabalhadora está a morrer nos Estados Unidos. Corrijo. Não está a morrer, está a matar-se. “Mortes de desespero”, eis a expressão que estudiosos como Anne Case e Angus Deaton pesquisam há vários anos. Os instrumentos do fim são conhecidos. Armas. Álcool. Drogas. Vale tudo para acabar com vidas de naufrágio.

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Aliás, não apenas a classe trabalhadora. Informa o New York Times, a partir das pesquisas do casal Case e Deaton, que o cenário é idêntico para a classe média branca sem formação universitária. O desespero mata com igual intensidade. E de onde vem esse desespero? Sim, a desigualdade crescente. Sim, a falta de serviços públicos de saúde. Sim, o outsourcing industrial que a globalização trouxe no seu rastro.

Se a depressão, como dizia Freud, é a incapacidade de projetarmos um futuro para nós, há uma parte da América que está coberta por essa nuvem negra. A violência contra os próprios é uma saída. Outra é acreditar em políticos redentores que sejam capazes de tornar a América grande outra vez. Quem não entende o fenômeno populista como um fenômeno intrinsecamente revolucionário, lamento, passou ao lado dessa história.

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Éric Vuillard vê nas guerras dos camponeses do século 16 o espírito que preside a muitas das rebeliões populistas do nosso presente

O escritor francês Éric Vuillard não passou. Já falei de Vuillard a propósito do seu A Ordem do Dia, uma novela breve sobre a ascensão de Hitler ao poder (prêmio Goncourt em 2017). Vuillard é essa estranha combinação: ensaísta, historiador, romancista. Certo é que essa literatura “mestiça” transporta uma força meditativa que se ajusta aos problemas do nosso tempo.

O seu mais recente livro, La Guerre des Pauvres (“A guerra dos pobres”), confirma o que digo. Superficialmente, o tema que ocupa Vuillard perde-se na memória do século 16. E a figura central – Thomas Münzer (1489-1525) – tem interesse para teólogos ou especialistas sobre a Reforma Protestante. Mas Münzer, aquele rapaz que viu o pai ser enforcado pelas autoridades feudais germânicas (curioso: Lênin, que admirava Münzer, também ficou indelevelmente marcado quando jovem ao testemunhar a execução do irmão pelas autoridades do czar), chamou a si uma tarefa radical: convocar os miseráveis para um ajuste de contas com os príncipes.

Nas palavras de Éric Vuillard, Münzer sentia “uma sede de pureza”, uma intolerância face à “imundície” do poder, uma exasperação face ao “gentil povo cristão” que, pela sua passividade, se limitava a repetir os versículos em latim sem compreender o que dizia. A Bíblia deveria ser vertida na língua vulgar; o conhecimento deveria ser extensível aos maltrapilhos; e a eles deveria ser confiada a espada para punir os enganadores de Cristo.

A violência foi a etapa seguinte. Exércitos de gente pobre destrói e saqueia as cidades e os seus palácios. Cabeças rolam, cabeças são expostas em piques. Mas tudo termina em Frankenhausen, na batalha do mesmo nome, quando as forças militares de Philip de Hesse e de George da Saxônia massacram os camponeses. Münzer seria capturado e teria o mesmo destino do pai.

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Na pequena e preciosa obra de Vuillard, Münzer não é apenas apresentado como um revolucionário protestante, interessado em salvar os espíritos pela força da fé e da espada. Ele ocupa um lugar primeiro na longa lista de revolucionários políticos que tiveram na Revolução Francesa o seu apogeu. Mas não só. Vuillard vê nas guerras dos camponeses do século 16 o espírito que preside a muitas das rebeliões populistas do nosso presente.

Encontramos as mesmas figuras alucinadas que, movidas por um desejo de pureza irreal, se lançam contra as “elites” dissolutas ou corrompidas. Encontramos o mesmo ódio ao “velho discurso” das elites, com a diferença de que, agora, não é o conhecimento bíblico que deve ser democratizado; é todo o tipo de conhecimento, vertido no caos moral e epistemológico da internet. Encontramos o mesmo apelo ao “verdadeiro povo”, por oposição a um povo falso ou vendido, que não merece sobreviver no novo reino dos justos. E encontraremos a mesma destruição desencantada, os mesmos exércitos de seguidores atraiçoados e os mesmos salvadores reduzidos à condição paradoxal de homens “frágeis e violentos”, “inconstantes e severos”, “enérgicos e repletos de angústia”.