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Placas de identificação dos prisioneiros judeus no campo de concentração de Auschwitz
Placas de identificação dos prisioneiros judeus no campo de concentração de Auschwitz| Foto: Pixabay

De vez em quando, nas minhas aulas de História Contemporânea, pergunto aos alunos: alguém sabe qual era a porcentagem de judeus na totalidade da população alemã quando Hitler subiu ao poder? Começam os palpites: 25%? 50%? 70%?Dou uma ajuda e avanço com um número: falamos de 572 mil pessoas, mais coisa, menos coisa. Mesmo assim, as cifras continuam estratosféricas: 20%? 15%? Quando revelo que a porcentagem era de 0,8% o espanto da moçada é tangível.

Entendo esse espanto. Se nós ficarmos apenas pelos delírios antissemitas da época (os judeus dominavam governos, negócios, mercados financeiros, indústrias de guerra etc.), até acreditamos que eles eram majoritários. Não eram. Em 1933, só na Polônia (10%) ou na Hungria (5%) a população judaica se elevava um pouco acima da insignificância. Os judeus eram uma gota no oceano europeu.

O antissemitismo da década de 1930 era apenas mais um capítulo de uma história antiga: uma história que, segundo o historiador Paul Johnson em ensaio clássico sobre o tema (The Anti-Semitic Disease), começa em Alexandria, no século 3.º a.C., e que foi sempre adquirindo novas camadas e feições até os nossos dias.

O antissemitismo virou banalidade: 24% dos europeus adultos continuam a navegar essas águas infectas

De assassinos de Cristo a raça inferior e impura, sem esquecer a acusação coletiva que hoje paira sobre todos os judeus quando o assunto é Israel (até sobre os antissionistas!), estamos sempre na presença de uma “doença intelectual”, na definição de Johnson. É uma doença que existe e persiste sem haver nenhuma razão palpável que a justifique. Ainda nas palavras do historiador, a história do antissemitismo é “um dicionário de non sequiturs e antônimos”, ou seja, meros devaneios ou preconceitos que se anulam mutuamente.

Exemplifica Johnson: “Os judeus estão sempre a exibir-se; eles são herméticos e sigilosos. Eles não se integram; eles integram-se bem demais. Eles são demasiado religiosos; eles são demasiado materialistas e uma ameaça para a religião. Eles são incultos; eles têm demasiada cultura. Eles evitam o trabalho manual; eles trabalham em demasia. Eles são avarentos; eles são gastadores. Eles são capitalistas incorrigíveis; eles são comunistas natos”.

Lembrei de tudo disso quando lia o mais recente estudo da Liga Antidifamação (ADL) sobre a presença de antissemitismo no mundo. A ADL confrontou 18 países, Brasil incluso, com 11 proposições clássicas do antissemitismo soft e hard. Na primeira categoria estão afirmações aparentemente anódinas de que os judeus se acham melhores do que os outros ou, em alternativa, de que só se preocupam com os seus. Na segunda categoria está, mais uma vez, a litania da dominação judaica global – da política à mídia, da economia à indústria de guerra. Só uma das asserções seria impensável em 1933: a de que os judeus falam demasiado do Holocausto. Em 1933, lógico, esse Holocausto ainda estava em preparação.

Os resultados são tristes e, à sua maneira, banais, porque o antissemitismo virou banalidade: 24% dos europeus adultos continuam a navegar essas águas infectas. Isso na Europa Ocidental. Quando viajamos para leste, o número sobe para os 34%. Mas é sobretudo quando olhamos para alguns países da região – a Polônia, a Hungria – que o retrato adquire cores sinistras. Na Polônia, o antissemitismo conquista 48% da população adulta. Na Hungria, 42%. E, quando olhamos para as respostas dos inquiridos, parece que poloneses e húngaros são particularmente sensíveis ao tema do Holocausto: para eles, os judeus dedicam demasiada atenção ao assunto. O que permite conjecturar que, se o Holocausto fosse esquecido, talvez o mundo se esquecesse também do papel que poloneses e húngaros “gentios” tiveram no processo.

E o Brasil? Poucas razões para festejar, bom povo: a situação é semelhante à europeia (25% partilham opiniões antissemitas). Pode parecer pouco, sobretudo quando olhamos para a vizinha Argentina (30%, uma surpresa para mim). Mas é um crescimento de 9% quando comparamos os resultados de 2019 com uma enquete anterior de 2014. O que explica essa subida? Responda você, leitor.

Comecei com uma pergunta, termino com outra: qual a porcentagem de judeus na população total europeia em 2019? Não perca tempo, eu respondo já: uma estimativa realista não ultrapassa os 0,2%. Saber que um em cada quatro europeus acredita que 0,2% da população controla as alavancas do poder é a prova definitiva de que a doença antissemita sobreviveu a 1945.

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