Em 2008, quando a crise financeira mundial já havia produzido severos estragos, publiquei um artigo na Gazeta do Povo sobre os ciclos ideológicos. Volto ao assunto para abordar a relação entre as ideologias e o progresso.
Começo lembrando que as ideologias não constituem um corpo de teorias e crenças fixas, mas, ao contrário, elas andam em ciclos, mudam e ajustam suas crenças e propostas. Isso ocorre à medida que os fatos se sucedem e alteram a realidade, gerando consequências sobre o mundo físico e sobre as pessoas.
Em todas as crises, sejam as produzidas pela ação humana (caso das guerras e crises financeiras) ou as produzidas pela natureza (caso dos tsunamis e secas), algo se repete sem exceção: o aumento do tamanho do governo e das intervenções estatais na vida das pessoas e das instituições sociais privadas.
Destacadamente, as crises se tornaram oportunidade para o aumento do governo, redução da liberdade e aumento das regras sobre o comportamento humano. Não importa o tipo de crise nem o conjunto de causas: o governo sempre cresce e aumenta a opressão sobre o indivíduo e suas ações.
Em todas as crises, algo se repete sem exceção: o aumento do tamanho do governo e das intervenções estatais
O crescimento do governo e o aumento de seu controle sobre os indivíduos e a sociedade dependem essencialmente do aumento dos meios de ação do Estado e dos políticos. E o principal meio de ação é o poder, com os instrumentos que lhe são próprios para impor suas decisões sobre as pessoas e os atos delas.
Assim, a compreensão do crescimento do governo e seu controle sobre a sociedade exige examinar a história do poder. Quem interpretou magistralmente a lógica do poder foi Bertrand de Jouvenel (1903-1987), em seu livro O Poder: história natural de seu crescimento.
Nascido na França, Jouvenel foi um intelectual multifacetado e escritor profícuo em assuntos de economia, direito e política. Entre suas atividades, destaca-se sua atuação como diplomata e professor nas melhores universidades da Europa e dos Estados Unidos.
Escrito durante a Segunda Guerra Mundial, o livro de Jouvenel é fundamental para a compreensão dos mecanismos que levam ao aumento do poder. O autor propõe uma questão intrigante: por qual motivo todas as utopias, as promessas de libertação e as revoluções geraram concentração cada vez maior de poder nas mãos do Estado?
Jouvenel lembrou também que, após chegar ao poder, o rebelde revolucionário, inclusive o que age em nome da liberdade, transforma-se em tirano implacável. Assim, não importa o modelo político nem a forma de governo, o poder estatal sempre crescerá.
A lógica do poder revela a trajetória dos políticos e das autoridades, que caminha em três passos: o primeiro é conquistar o poder; o segundo é manter-se no poder; o terceiro é aumentar seu próprio poder.
Nos últimos tempos, sempre que há uma crise, virou moda a mania do discurso enfadonho de que tudo é culpa do neoliberalismo. Primeiro, boa parte dos falantes nem sabe direito o que é neoliberalismo. Segundo, não há um único tipo de neoliberalismo, com ingredientes fixos e imutáveis.
Mas há uma razão para a crítica ao neoliberalismo: é que esse sistema seria a liberdade em alto grau de aplicação, quando o que os arautos da salvação nacional querem é aumentar o poder do Estado, e com eles próprios nos cargos públicos.
Os que se dizem salvadores da pátria distorcem os fatos e se apresentam como agentes da solução, para convencer os eleitores a votarem neles
Como vivaldinos que são, os que se dizem salvadores da pátria distorcem os fatos e se apresentam como agentes da solução, para convencer os eleitores a votarem neles. O resultado é que, invariavelmente, as crises sempre acabam em aumento do estatismo, do intervencionismo e da regulamentação sobre a vida econômica e social.
As ideologias caminham em ciclos e seguem a lógica descrita por Bertrand de Jouvenel: em qualquer circunstância, o poder estatal sempre crescerá. Um caso foi o crescimento da onda estatizante e intervencionista nas três décadas após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945.
A onda estatizante já vinha na sequência da Depressão dos anos 1930, e só fez aumentar após o fim da guerra. O poder estatal cresceu até os anos 1980, quando o liberalismo ressurgiu como resposta ao esgotamento da intervenção estatal e ao cansaço da sociedade com a inflação e a recessão que o estatismo produziu.
Após a retração da onda liberal que começou nos anos 1980 e foi até 2010, o mundo passou a ver o retorno do agigantamento do Estado em vários países. A partir daí, o excesso de estatismo e o crescimento do endividamento público de 2010 para cá acabaram se esgotando, e agora a humanidade demonstra cansaço com governos inchados, intervencionistas e politicamente opressores.
Repetindo a história, os ciclos ideológicos se alternam, e atualmente retorna o clamor por desestatização, desregulamentação, redução do tamanho do governo e ampliação das liberdades. Assim caminha a humanidade: as instituições humanas imperfeitas vão se alternando entre ondas estatizantes e ondas liberais.
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