| Foto: Mario Hagen/Pixabay
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Esses dois anos de pandemia – uma catástrofe que pegou o mundo inteiro, infectou 264 milhões de pessoas e matou 5,4 milhões (até 30 de novembro de 2021) – foram anos de isolamento, desemprego, fome, medo, pânico, depressão e desencanto com o futuro para milhões (ou bilhões) de pessoas ao redor do mundo. A humanidade sai desse episódio com a estrutura mental e emocional profundamente machucada e necessitando ser reconstruída.

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Há muito que se pode analisar e concluir sobre esta fase da vida no planeta. Os eventos que provocam mortes, destruição e sofrimento – que chamamos de catástrofes, tragédias, calamidades etc. – são de dois tipos: aqueles gerados por ação da natureza e aqueles resultantes da ação humana. Um terremoto, um tsunami e uma pandemia são eventos naturais. Uma guerra, uma revolução e um ato terrorista são ações humanas.

As catástrofes produzem mudanças durante sua ocorrência e, também, posteriores a seu fim. Durante uma guerra ou uma pandemia de proporções mundiais ocorrem grandes mudanças econômicas, tecnológicas e comportamentais durante o desenrolar dos próprios eventos. Após o fim dos eventos, as mudanças e as transformações continuam e, no caso das inovações tecnológicas, elas se aceleram. Com esta pandemia não será diferente.

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Como a pandemia atual pegou a quarta revolução tecnológica bem no meio, muitas mudanças e inovações serão aceleradas e, se a história se repetir, dá para esperar um período de crescimento e progresso na economia

Sob o aspecto econômico, tem sido comum após as tragédias – principalmente no caso das guerras – a ocorrência de surtos de expansão do produto e do emprego, de um lado, e rápidas mudanças tecnológicas, de outro. Nos anos após o fim da Primeira Guerra Mundial e após a Segunda Guerra Mundial, houve um período de progresso da economia e da tecnologia.

Como a pandemia atual pegou a quarta revolução tecnológica bem no meio, muitas mudanças e inovações serão aceleradas e, se a história se repetir, dá para esperar um período de crescimento e progresso na economia, sobretudo porque a humanidade terá de reorganizar o sistema produtivo desmantelado durante o isolamento social e o fechamento de empresas.

Mas esta pandemia, além das questões econômicas e tecnológicas, forçará a humanidade a encarar o estrago psicológico que seus efeitos causaram, e continuam causando. Isso me lembra a escritora Taylor Caldwell, em seu livro Médico de Homens e de Almas, e sua afirmação que “o conhecimento só vem com desgosto, lágrimas e dor”. Não só o conhecimento, mas a própria evolução se dá pela dor ou pelo amor – ou pode não se dar, dirão alguns.

Tudo depende de como se analisa a coisa. Nenhum progresso e nenhum retrocesso atingem igualmente a todos ao mesmo tempo. Embora eventos de alta magnitude provoquem mudanças para milhões de pessoas, é razoável haver diferentes reações e diferentes alterações de hábitos individuais em consequência do fenômeno que afetou a todo o grupo.

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A pandemia e seus efeitos pegaram o mundo inteiro ao mesmo tempo, e o mundo não será o mesmo após superada esta fase crítica. A tentativa de dimensionar para onde a humanidade irá, com qual velocidade e intensidade não é tarefa fácil. Mas uma coisa é certa: tanto no plano individual como no coletivo, alguma reconstrução da psicologia humana estará presente. Há quem fale, talvez de forma exagerada, em renascimento.

Bons e maus, otimistas e pessimistas, todos foram afetados. Ocorre-me perguntar: em que medida as populações de culturas diferentes serão afetadas de formas diferentes? E que diferenças seriam essas? Certa vez, em um seminário, levantei a seguinte questão: por que nossos países latino-americanos são pobres mesmo premiados com recursos naturais abundantes?

As crenças, a confiança e o espírito empreendedor são emoções importantes na reconstrução de uma economia combalida após as catástrofes

O palestrante, alto assessor do governo chileno, respondeu: “Os economistas gostam de buscar explicações nos fatores econômicos, o que tem sua dose de lógica, mas nós, os latinos, somos pessimistas, com baixo nível educacional e maus hábitos comportamentais no plano individual e no plano político; essa é nossa diferença em relação às nações ricas”. Achei um tanto exagerado, mas...

As crenças, a confiança e o espírito empreendedor são emoções importantes na reconstrução de uma economia combalida após as catástrofes. Pensando nessas características, recorro a Sigmund Freud e seu livro Psicologia das Massas e Análise do Eu, publicado em 1921 – portanto, três anos após o fim da Primeira Guerra Mundial. Na obra, Freud fala sobre o comportamento coletivo e os mecanismos, supostamente inconscientes, que levam uma multidão a seguir cegamente um líder ou uma causa.

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Naquele momento, a Europa estava devastada pelos horrores da guerra e já começava o movimento nazifascista, mas as populações nacionais eram bem menores e os meios de comunicação eram precários (o rádio estava começando, e ainda não meio de comunicação com as massas). A obra de Freud é útil para ajudar na compreensão do comportamento coletivo em situações extremas. Mas, enfim, este assunto é longo e complexo, e a discussão continua.

Infográficos Gazeta do Povo[Clique para ampliar]