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Donald Trump e Jair Bolsonaro na Casa Branca: militares brasileiros tem se beneficiado do alinhamento automático entre os dois presidentes.
Donald Trump e Jair Bolsonaro na Casa Branca. Imagem ilustrativa.| Foto: Alan Santos/PR

A ex-editora executiva e colunista de VEJA, Vilma Gryzinski, fez uma pergunta no título de um de seus textos publicados no site da revista. “E se fosse Trump? Como seria tratada a derrocada no Afeganistão?”. Ela mesma responde no subtítulo: “o ex-presidente provavelmente estaria sofrendo um novo processo de impeachment e ataques sem comparações com os feitos a Joe Biden”. A coluna descreve o pior momento da aprovação de Biden, que caiu junto com os pobres afegãos que, pendurados, tentaram fugir de Cabul na fuselagem de cargueiros americanos. E descreve como, mesmo com a tragédia, o democrata goza da boa vontade dos críticos e da imprensa que pegam leve com ele, quando comparado com o tratamento dado ao seu antecessor. Uma comodidade que pode evaporar “se o desastre afegão não piorar” ou se “houver um atentado de última hora”.

As afirmações acima foram publicadas horas antes de um terrorista da filial afegã do Estado Islâmico se explodir em meio às pessoas aglomeradas nos portões do Aeroporto de Cabul, a única porta de saída da capital. Todos os dias milhares de pessoas tentam uma vaga nos aviões que estão resgatando pessoas em situação de risco com o retorno do Talibã ao poder. Um atentado era apenas uma questão de tempo. Os números oficiais mais recentes falam na morte de doze militares americanos e de dezenas de afegãos mortos.

A diferença na relação da imprensa americana com Trump e Biden em crises cabeludas como esta do Afeganistão remete à carta de demissão que Bari Weiss, a ex-editora de Opinião do The New York Times apresentou em julho do ano passado. O texto – infelizmente apenas em inglês – é atualíssimo e serve de diagnóstico não só para o comportamento dos jornalistas nos Estados Unidos, mas, também, das redações subtropicais.

Bari conta como é difícil, ou praticamente impossível – pensar, ou se manifestar qualquer coisa que seja dissonante ao comportamento do rebanho que emergiu na imprensa e em diversos setores da sociedade americana que juravam que a democracia morreria antes do raiar do sol do dia seguinte, pelas mãos do facínora que havia sido eleito e ocupou a Casa Branca entre 2017 e janeiro de 2021.

Podem ser publicados 4 mil artigos de opinião com a mesmíssima história antifascista e blá... blá... blá... Mas um, apenas um, que pudesse desgostar as redes sociais imediatamente era barrado. “O Twitter não está no expediente do The New York Times. Mas o Twitter tornou-se seu editor final”, escreveu Bari.

O resultado é uma cobertura quase uníssona. Portanto empobrecedora da sociedade, mas, sobretudo da própria imprensa.

A ativista de direitos humanos Ayaan Hirsi Ali, somali que denunciou os abusos do islã radical contra as mulheres, escreveu um artigo perturbador. Para ela, a imprensa é, simplesmente sócia do colapso afegão. Algo que pode parecer exagerado.

Mas a euforia com a atual administração criou um clima de adesismo incompatível com o trabalho para o qual a imprensa é paga pelos leitores para fazer.

Ayaan encerra dizendo: “‘A democracia morre na escuridão’ foi um dos muitos slogans fáceis adotados pela imprensa anti-Trump em 2017, como se apenas sua reportagem destemida estivesse entre a América e uma distopia fascista estilo anos 30.” Ela arremata dizendo que estamos testemunhando que governos competentes morrem quando se apagam as luzes para lisonjeá-lo. “Quando jornalistas e editores suspendem suas faculdades críticas, a tragédia é certa.”

Donald Trump desfiou um rosário de erros. Mas não só. Em nome do anti-trumpismo qualquer coisa, ideia, pessoa ou ação conectada com ele vinha com o selo da suspeição ou do erro. A China, por exemplo, avançou em seus planos de consolidação de influência em uma velocidade jamais vista. Todos fecharam os olhos, para não parecerem trumpistas.

O despertar para as ameaças da China, violações aos direitos humanos só se deu depois que Trump estava fora do jogo. Algo terrivelmente igual no Brasil.

Na semana passada, o ex-ministro da Justiça e da Defesa, Raul Jungmann disse, uma entrevista, que tinha um depoimento de que o presidente Jair Bolsonaro havia consultado um comandante de uma das três forças (que por razões óbvias só poderia ser o da FAB) sobre a disponibilidade operacional dos “jatos” Gripen. “Com a resposta positiva, determinou que (os caças) sobrevoassem o STF acima da velocidade do som para estourar os vidros do prédio. Bolsonaro mandou fazer isso”, disse ele.

A história foi repetida um milhão de vezes. Mas será possível que ninguém parou para melhorar a descrição tão impressionante do golpismo bolsonarista? A conversa é datada de março deste ano e teria sido o estopim que levou à demissão dos comandantes das três forças.

Vamos lá. Bolsonaro pode ter feito a pergunta? Pode. Mas fica o dito pelo não dito. Mas tem algo esquisito no ar, além da cena estilo Top Gun. Como um comandante militar poderia dizer que os jatos (no plural) estavam operacionais? O Brasil recebeu apenas um Gripen. Apenas um. E ainda que o problema na história do ex-ministro possa ter sido provocado por uma questão de plural indevido, o caça sueco é um protótipo que está em testes na Embraer. Sequer é operado pela FAB.

Jungmann – que é ex-ministro da Defesa e divide com o general da reserva Sergio Etchegoyen o comando do tentáculo de defesa de uma organização que prega a regulamentação do lobby no Brasil – tem as melhores fontes possíveis dentro das Forças Armadas. Mas, mesmo assim, a história não chegou direito para ele.

Os jornalistas não se sentiram na obrigação de averiguar a informação. Afinal, para quê? A imagem de caças atacando o STF casou direitinho com “golpe nosso de cada dia”.

Aliás, checar isso é um problema. Quem se atrevesse a fazer o trabalho, por sinal, viria imediatamente passador de pano, bolsonarista, fascista, genocida, gado. É o tal clima de autocensura que Bari Weiss descreveu no The New York Times.

Trump foi embora. Bolsonaro também irá um dia. As deformações autoinfligidas pela imprensa ficam.

Não são casos isolados. Vilma, Bari e Ayaan fizeram-nos o favor de iluminar as trevas. Luzes na tal escuridão onde a democracia, realmente, pode morrer.

No Brasil há uma espécie de prece para rupturas democráticas. A religião do golpe. Há um pessoal que reza por ele. Virou divindade – a única capaz de, por meio do caos, abrir as portas do paraíso.

Trump se lascou aos 45 minutos do segundo tempo pela ação de uma horda de débeis mentais que invadiram o Capitólio e pelo seu comportamento leniente diante da barbárie. Bolsonaro é acusado de seguir o roteiro do americano. Mas, ao que parece, ele é mais vulnerável a seguir um roteiro que vem sendo desenhado para ele.

Quando o pensamento crítico é abandonado, tudo que vem em sequência é tragédia.

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