Para os revisionistas, que se danem os europeus escravizados, os povos pré-colombianos e africanos que faziam da escravidão uma atividade do cotidiano ou um negócio (Imagem: Reprodução/Unsplash).| Foto:
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Quando Hernán Cortés tomou Tenochtitlán e derrubou o império Asteca em 1521, os indígenas locais se viram irremediavelmente sob o domínio espanhol. Depois disso, sucumbiram os maias e os incas. Muita gente passou a acreditar que o desembarque dos espanhóis, naquelas que eram a mais esplendorosas civilizações pré-colombianas, colocou fim de uma vida de idílio e marcou início da escravidão nas Américas. Primeiros os índios, depois os negros. Uma engano.

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Quando o imperador Montezuma II se encontrou com Cortés pela primeira vez, alguns anos antes de seu império ruir de vez, ele presenteou o espanhol com ouro e escravos. Muitos escravos. O asteca pensou que os conquistadores eram deuses mitológicos. Por isso, ofereceu-lhe os seus produtos mais nobres.

Montezuma era um escravocrata. Além de subjugar os outros povos, obrigando-os a trabalhar na construção de templos monumentais, ele tratava os cativos como estoque de carne humana para oferecer em sacrifício nas cerimônias religiosas.

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Maias e incas faziam exatamente o mesmo. Adeptos da escravidão dos vencidos, os povos que os conquistadores espanhóis encontraram nas Américas escravizavam, torturavam e matavam aqueles que consideravam inferiores. Com menos disponibilidade de mão de obra para escravizar, os portugueses recorreram ao mercado de escravos africanos, que já existia por lá muito antes da descoberta do Novo Mundo.

No início do século 19, quando a escravidão vicejava nas Américas, os muçulmanos nigerianos que fundaram o Califado de Sokoto – uma teocracia regida por leis islâmicas – chegaram a ter 4 milhões de escravos. Considerando que a população total era de aproximadamente 10 milhões de pessoas, é possível presumir que eles conseguiram ser os maiores escravocratas do planeta.

O espanhol Miguel de Cervantes, autor de uma maiores obras da literatura universal, foi escravo. Passou cinco anos nas mãos de mercadores de escravos do Norte da África. Não só ele, mas pelo menos um milhão de europeus – brancos – que eram muitas vezes sequestrados dentro de suas casas para abastecer os mesmos mercados por onde passou Cervantes.

Mas nada disso interessa aos revisionistas.

Nos Estados Unidos, há um movimento que busca cancelar Thomas Jefferson, o autor da Declaração da Independência do país, por ele ter tido escravos. Também há um esforço para empurrar uma conta bilionária para universidades que fizeram uso de mão de obra escrava. Uma corrida insana não por justiça, mas por justiçamento.

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Os presentistas não sé leem os fatos do passado com a ética e os conceitos de hoje. Além da flagrante distorção da história, a estratégia quase sempre vem acompanhada de ativismo. O que torna a manipulação deliberada.

Para eles, que se danem os europeus escravizados, os povos pré-colombianos e africanos que faziam da escravidão uma atividade do cotidiano ou um negócio.

Não faz sentido algum cobrar uma fatura do passado segundo os princípios de hoje. A escravidão, em todas as suas formas, foi uma mancha na história.

Os países ocidentais foram os primeiros a se livrarem dela. E, ironicamente, são os que são cobrados por terem feito parte do processo.

Enquanto você lê esta coluna, muçulmanos da etnia uigur estão escravizados na China. Mercados de escravos estão ativos na Líbia, onde imigrantes oriundos da porção subsaariana do continente chegam ao país na esperança de atravessar o Mediterrâneo rumo à Europa. Crianças são drogadas para ganhar resistência para trabalhar por horas a fio nas “cozinhas” de refino de cocaína na Bolívia.

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O Brasil foi até 2018 palco de um vexame. Os governos de Dilma Rousseff e Michel Temer permitiram que 15 mil cubanos fossem escravizados por meio do programa Mais Médicos. Tinham cerca de 80% de seus salários confiscados para alimentar o regime que os matinha sob vigilância e ameaça constantes.

Os movimentos revisionistas ignoram. Olham para o passado com as lentes do presente. E ignoram, em muitos casos, as brutalidades de hoje, porque elas colocariam a choradeira deles em justa medida.

O tráfico de escravos foi uma desumanidade – cometida de forma conjunta por europeus e africanos. Exigir desculpas e indenizações de apenas um dos lados é no mínimo curioso.

A escravidão é para ser lembrada todos os dias. Lembrança para nos envergonhar e orientar na correção das sequelas que ainda existem. Não deveria servir de pretexto para políticas oportunistas. O ano de 2020 está chegando ao fim como o ápice da distorção do significado histórico e do valor que a experiência, ainda que terrível, poderia nos proporcionar como civilização.

A busca por reparação virou um negócio. Talvez o novo mercado de escravos. A causa é só o meio. O fim ainda vamos descobrir.

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