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Luciano Trigo

Luciano Trigo

Futebol e política

Por que a grande mídia odeia Neymar?

Transformar Neymar em bode expiatório da derrota ignora os fatos e revela como disputas políticas contaminam até o futebol. (Foto: Angel Colmenares/EFE)

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A eliminação do Brasil na Copa produziu um roteiro previsível. Bastaram poucas horas para que a grande mídia voltasse seus holofotes para Neymar. Manchetes, comentários e análises o apontaram como símbolo do fracasso brasileiro, como se a sua simples presença fosse suficiente para explicar a queda da seleção. O que vimos foi uma campanha intensa e seletiva de desqualificação.

O problema é que os fatos contam uma história diferente. Neymar praticamente não participou da Copa: em três partidas ficou no banco de reservas e, nas outras duas, entrou apenas na metade do segundo tempo.

O futebol é um esporte coletivo, e derrotas raramente têm uma única causa. Elas são resultado de escolhas administrativas, planejamento, preparação, decisões da comissão técnica e circunstâncias próprias de cada partida. É legítimo discutir se a convocação de Neymar foi acertada; o que não parece razoável é transformá-lo no bode expiatório do desastre.

O tratamento dispensado a Neymar chama ainda mais atenção quando se considera sua trajetória. Com 80 gols em 126 jogos, ele é o maior artilheiro da história da seleção brasileira, superando Pelé. Durante mais de uma década, foi o principal jogador do Brasil, decidiu inúmeras partidas importantes e sustentou sozinho, em muitos momentos, a criatividade ofensiva da equipe.

Ainda assim, há tempos Neymar ocupa um lugar peculiar na cobertura esportiva. Erros que seriam tratados como circunstanciais em outros atletas são interpretados, no seu caso, como demonstrações de falha de caráter. Suas conquistas são relativizadas; seus fracassos, apresentados como confirmações de uma narrativa enviesada. A grande mídia parece partir da conclusão de que Neymar representa tudo o que há de errado no futebol brasileiro.

A pergunta é: por quê?

Redações e universidades se tornaram comunidades de consenso, nas quais opiniões divergentes são tratadas como sinais de delinquência moral

Em seu canal no YouTube, o insuspeito Rui Costa Pimenta, presidente do PCO – Partido da Causa Operária – ofereceu uma explicação. Rui afirma com todas as letras que Neymar passou a receber um tratamento mais agressivo após declarar seu voto em Bolsonaro, em 2022. Desde então, o jogador deixou de ser visto como atleta e passou a ser tratado como símbolo político, como um alvo preferencial daqueles que odeiam o ex-presidente.

Nem toda crítica feita a Neymar tem origem política, é claro. Há críticas esportivas legítimas, mas é difícil ignorar que, ao tornar público seu posicionamento político, Neymar passou a ser analisado não pelo que faz dentro de campo, mas pelo que representa fora dele.

A perseguição a Neymar é sintoma de um problema maior. É sabido que o ambiente nas grandes redações é quase unanimemente lulopetista – como, aliás, no ambiente acadêmico. Um e outro se tornaram comunidades de consenso, nas quais opiniões divergentes do pensamento hegemônico são tratadas como sinais de delinquência moral.

Jornais e universidades se converteram, assim, em aparelhos ideológicos a serviço de um campo político. Muitos de seus profissionais se comportam como militantes que enxergam na perseguição uma virtude. Neste cenário, Neymar ocupa o papel de inimigo simbólico para aqueles que defendem a democracia de um lado só. Eles se esquecem que a pluralidade de pensamento e de opinião deveria ser parte inerente da democracia que afirmam defender.

Em uma democracia, qualquer pessoa deveria ter o direito de expressar suas escolhas. Mas, no Brasil de hoje, opiniões políticas funcionam como critério oculto para avaliar a competência profissional de alguém, ou até mesmo seu direito à existência.

Quando um jogador de futebol se torna pivô de um campo de batalha ideológico, o problema não está mais dentro das quatro linhas. Neymar é apenas o exemplo mais evidente de um fenômeno que atinge diariamente milhões de pessoas anônimas, que são constrangidas a ficar caladas para não correrem o risco de punição social e outros prejuízos.

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