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Eles fazem sucesso na imprensa e nas redes dizendo que são cachorros em corpos de humano.
Eles fazem sucesso na imprensa e nas redes dizendo que são cachorros em corpos de humano.| Foto: print vídeo de divulgação

Você se acha uma pessoa esquisita ou excêntrica? Eu sim, mas depois que pesquisei para fazer este artigo acho que sou sem graça. Viralizou um vídeo de uma pessoa levando a outra na coleira no bairro Bacacheri, em Curitiba. Num primeiro momento pensei que o povo do fandom Furry tivesse resolvido ir às ruas. Então, descobri um mundo bem além do que eu já achava meio estranho.

A pessoa levada na coleira era um experimento social feito por performers. Você pode gostar ou não, arte às vezes é só para provocar e realmente provocou. Ocorre que nem sempre provoca o que o artista quer. Uma obra - ou performance - é como um filho que se coloca no mundo. A gente imagina uma série de coisas, mas ele segue o próprio destino.

A performance consistiu em comparar imposições de gênero a querer que uma pessoa seja um cachorro. Fosse ciência, seria um absurdo completo. Como performance, é uma sacada genial. Este tipo de arte serve para provocar sensações e discussões. Sem dúvida, missão cumprida. Da minha parte, constatei que estou absurdamente desatualizada no tema fetiches.

Mas qualquer performance feita para chocar é arte? Tem quem pense que sim, eu penso diferente, o limite é o respeito à dignidade e à autonomia. Ali não havia crianças, ninguém foi coagido a se passar por cachorro, não se feriu ninguém e nem se impediu as manifestações espontâneas das pessoas. Quem não gostou tem todo o direito de dizer que não gostou e ponto.

Eu gostei e confesso que ri depois de saber que era uma performance. Mas quem sou eu? Uma pessoa que ri até hoje das pegadinhas com o Ivo Holanda. Faço a comparação com o trabalho de performance de Guillermo Vargas. Há alguns anos, ele virou motivo de um debate visceral porque amarrou um cachorro vira-latas magérrimo num canto de uma galeria até que ele morresse de fome. Dizia ser arte.

Voltando à nossa performance tupiniquim, a comparação entre gênero, sexualidade e cachorro me fez pensar se alguém já havia dito ser transcachorro nesse mundo. A transexualidade existe, é algo complexo e estudado pela ciência. Mas, na mídia e nas redes sociais, vira uma esculhambação total. É um prato cheio para os ataques de um grupo contra outro e ganhar poder xingando quem discorda.

Há um caso famoso de uma mulher que quis transformar-se num felino de grande porte. A socialite norte-americana Jocelyn Wilderstein gastou uma fortuna em cirurgias plásticas para ficar parecida com um animal. O marido dela era apaixonado por leões e tigres, então ela pensou em ficar parecida com um deles para agradar e manter-se jovem. Acabaram separados.

Há um fetiche sexual que inclui vestir-se como um bicho de pelúcia. Ele foi registrado num filme brasileiro, mas ninguém percebeu porque deu a maior encrenca por outra coisa. Foi em "Amor Estranho Amor", de Walter Hugo Khouri em 1982. Metade do elenco de famosos da Globo participou, mas ele ficou conhecido como "o filme da Xuxa" devido à cena erótica com um menor de idade. Nesta cena, ela estava praticando o fetiche Furry.

Você tentaria isso por amor? Caso tente, por favor mande uma mensagem contando como é porque curiosa eu sou, mas não tenho maturidade. Eu já quase perdi emprego por não conseguir segurar a gargalhada ao vivo mais de dez vezes. Avalie o que aconteceria num momento de total privacidade diante do cidadão tentando sensualizar vestido de ursinho Puff. Impossível para mim.

Na virada do século, surge o Furry Fandom, que deixa de ser um fetiche sexual para ser uma forma de expressão. As pessoas promovem encontros e festas em que levam seus familiares e vão vestidas de bicho de pelúcia. O maior evento do tipo no Brasil acontece desde 2016, a Brasil Fur Fest. A próxima está programada para janeiro do ano que vem e o ingresso mais barato sai por R$ 175.

De fetiche, a cultura furry virou algo mais próximo de cosplay e cultura gamer. Não são apenas adultos com fantasias de animal, trata-se de criar uma persona que consiste em um animal com características humanas. O site da Fur Fest explica melhor do que se trata. Eu compreendi a explicação, sei que o jogo da Microsoft voltado para este público sempre estoura os milhões de vendas, mas ainda não tenho maturidade para estes eventos.

Voltando à performance inicial, ela é fichinha perto dos encontros da comunidade furry em Curitiba. Em 2018, foi feita uma versão modesta, o Furboliche. Sim, a diversão era jogar boliche vestido de bicho de pelúcia. Esse eu não tive maturidade nem para ver os vídeos, então só vi uma foto. Mas Curitiba tem tradição de cultura furry. Um encontro do fandom na Ópera de Arame acabou virando uma espécie de Disneilândia paranaense para várias famílias em 2013. Eu amo o Brasileiro.

Ainda assim, nada tirava da minha cabeça que alguém já estava cavando espaço na internet e na imprensa com essa história de transcachorro. Claro que tem! Só falta alguém levar a sério, mas não duvido que demore muito. Aliás, tem vários. Sinceramente, é uma bela de uma jogada para bombar nas redes. Mas será que são sinceros? Nos vídeos, eles juram ser cachorros presos em corpos humanos.

Nesta reportagem, o namorado diz que a característica mais admirável dela é não ter vergonha de ser quem realmente é, um cachorro preso em um corpo humano. Eles abriram uma conta no Tik Tok em que ela já faturou mais de US$ 200 mil com os vídeos em que finge ser uma cadela. Até veio uma tentação, sabe? Se tem quem acredite...

O problema desse ramo é que a concorrência já é grande. Há tanto homens quanto mulheres que juram ser cães presos em corpos humanos. Fazem vídeos o tempo todo com sua "rotina". Aparecem em órgãos da grande imprensa que os entrevistam a sério sobre sentir-se um cachorro. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Phillip, o homem-pet, virou um frisson no Reino Unido. Até no prestigioso The Guardian ele apareceu sendo levado a sério. Postei este vídeo porque gostei da apresentadora. Phillip diz que resolveu ser um pet para escapar das agruras da vida adulta, ter um pouco de escapismo. E a apresentadora questiona por que ele não escolheu ioga ou meditação.

Tem um caso, no entanto, em que eu acredito piamente. Lembrei até da lenda de Remo e Rômulo, fundadores de Roma que foram criados por uma loba. Ou Mogli, o menino lobo. Adotada muito pequena por uma família, separada dos seus e criada só entre cachorros, ela realmente acredita que é um deles e comporta-se como se fosse. Estou falando de Boo, a galhinha-cachorro.

Se você acompanha minha coluna, vai achar que este texto nem parece meu. Prudência e canja de galinha nunca fizeram mal a ninguém. Hoje é uma sexta-feira 13 e de agosto. Na política brasileira, agosto é cientificamente comprovado como o mês do cachorro louco e da bruxa solta. Acordei hoje com a notícia de mais uma batalha da guerra entre STF e Bolsonaro, a prisão de Roberto Jefferson.

Em 25 de agosto, Jânio Quadros renunciou. Getúlio Vargas cometeu suicídio em 24 de agosto. Juscelino Kubitschek morreu num acidente de carro em 22 de agosto. Eduardo Campos morreu num acidente de avião durante a campanha à presidência em 13 de agosto. Dilma Rousseff sofreu impeachment em 31 de agosto. Sobram razões para incluir-me fora dessa. Resolvi ficar com o cachorro louco.

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