A pia de água benta do STF: pedem para prender Danilo Gentili e liberar cocaína
| Foto: reprodução twitter

Quando trabalhei no STF, pensei muitas vezes em substituir o protocolo por uma pia de água benta. Seria a solução honrosa para quem pede coisas vergonhosas. Não mais teriam de confessar aos pares o próprio ridículo, ficaria entre esses gênios e Deus. Graças a Deus boicotaram esta minha ideia genial. Devido a esse fracasso, hoje tenho um artigo. Direto das vísceras do ridículo nacional, os dois pedidos mais importantes feitos hoje ao Supremo Tribunal Federal.

Vivemos uma tragédia humanitária como único país do planeta sem um plano nacional de combate ao coronavírus. (Aviso às paquitas de político: não sou eu quem digo isso, é o próprio Governo Federal). Diante disso, o que a Câmara deveria pedir ao STF? Isso mesmo, para prender o Danilo Gentili. De quebra, apareceu um outro abençoado pedindo para obrigar o governo a comprar gás de cocaína para combater a pandemia. Prioridades, né?

Meu amigo mais chave de cadeia é Danilo Gentili. Nunca vi uma pessoa para tanta gente querer prender o tempo todo. A culpa é toda dele. Afinal, se roubasse, matasse, fosse abusador sexual, fizesse rachadinha ou desviasse dinheiro público, não correria este risco. O problema dele é se meter a tirar sarro da cara de poderoso. Até poderia fazer isso se fosse de esquerda e comprasse o pacote progressista completo. Mas é uma pessoa teimosa demais.

Agora, uma panelinha de deputados governistas oriundos do centrão resolveu vingar Daniel Silveira via Danilo Gentili. O parlamentar que está preso ameaçou o STF e os ministros trocentas vezes, anda armado, já foi depor na Polícia Federal sobre, disse estar arrependido, retirou o que disse e fez de novo. Como o currículo do nobre parlamentar consiste em um punhado de fraudes, tráfico de anabolizantes e prisões disciplinares na Polícia Militar do Rio de Janeiro, o abandonaram. Agora, a Câmara quer equiparar Danilo Gentili ao nobre parlamentar.

No caso Daniel Silveira, o STF colocou a Câmara nas cordas. Iria faltar cadeia se fosse prender todo mundo que fala mal do STF ou xinga ministro. Iria lotar cadeia se fosse prender tudo quanto é parlamentar que xinga o STF e os ministros. Mas o conjunto da obra do deputado Daniel Silveira extrapola até o corporativismo da Câmara. Precisava ameaçar várias vezes, mostrar arma, dizer que já foi preso trocentas vezes, depor na PF dizendo que se arrependeu e fazer de novo? Espertamente, os deputados agora tentam equiparar nosso campeão olímpico de passagem pela cadeia com o humorista.

O presidente da Câmara bem que queria salvar Daniel Silveira, mas está enroscado demais na Justiça. Melhor não bater de frente. Mas veio o tweet: "Eu só acreditaria que esse país tem jeito se a população entrasse agora na Câmara e socasse todo deputado que está nesse momento discutindo a PEC de imunidade parlamentar". Após uma reunião de notáveis com Arthur Lira, um deputado desconhecido resolveu pedir a prisão de Danilo Gentili por incitação à violência. Comparar laranja com banana é uma tática marota para colocar o STF em maus lençóis. Parabéns a nós todos, que estamos pagando a tramitação dessa pérola jurídica.

Não se trata de queda-de-braço ideológica. O centrão é total flex. Querem defender agora os apaniguados de Jair Bolsonaro, mesmo os profissionais do xilindró. Só que o processo contra Danilo Gentili também é comemorado pelo deputado Filho do José Dirceu. Confesso que sinto um pouco de pena do rapaz. Já pensou ser filho de um dos homens mais poderosos do seu país e só contar uma única piada em loop? O parlamentar ainda está contando a piada da tchuchuca e do tigrão. Agora, para celebrar o processo contra Danilo Gentili.

Na imaginação do ilustre parlamentar, Danilo Gentili "recebeu notificação do STF". Uma potência administrativa. Não há isso no processo, apenas o indicativo de que a entrada do último dia 27 de fevereiro foi processada nesse 2 de março. O brilhantismo da peça jurídica é igual. Danilo Gentili poderia muito bem parar de importunar poderoso e virar, por exemplo, assediador sexual. Pelo menos aí a gente não precisa ficar toda hora escrevendo artigo porque querem prender ele. Não haveria o menor risco.

Se nossos nobres deputados federais estão preocupados em prender Danilo Gentili por um tuíte, há quem se preocupe com a pandemia. O exército de um homem só que forma a Escola de Humanismo Científico em Manaus aparenemente achou a cura do COVID. Entrou no STF pedindo que o Governo Federal seja obrigado a providenciar a todos essa cura. Consiste em injetar gás de cocaína em todo mundo. Também pede o fim dos contratos de vacina e a liberação de maconha e cocaína para qualquer fim. Genial.

A Escola de Humanismo Científico é uma empresa que tem como principal atividade a "pesquisa e desenvolvimento experimental em ciências físicas e naturais". Trata-se de uma atividade empresarial regulamentada, que compreende:
- as atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas no âmbito das ciências da vida, tais como: medicina, biologia, bioquímica, farmácia, agronomia e conexas.
- as atividades de pesquisa e desenvolvimento realizadas no âmbito das ciências físicas e de engenharia, tais como: matemática, física, astronomia, química, geociências e conexas
.

O processo movido no STF não diz claramente qual foi o desenvolvimento experimental que chegou à conclusão de que gás de cocaína mata o vírus. O dono da Escola de Humanismo Científico é o advogado que entrou com o processo no STF. "A pedra de cocaína transformada em gás natural, injetada nos corpos dos infectados, neutralizará os núcleos dos gases nocivos presentes neles, onde encontra-se os nêutrons e prótons, para os nêutrons anestesiar os prótons onde está o vírus. Os vírus ficarão anestesiados para eles mesmos morrerem", diz a inicial. O pessoal do Cloroquina Team deve estar com inveja da criatividade.

Sabe essa história de que o vírus foi criado e espalhado como um complô envolvendo interesses ocultos? Então, tem disso para todo ponto ideológico, do mal passado sangrando à sola de sapato. Agora temos uma teoria conspiratória de esquerda nos tribunais. "É porque a burguesia, uma classe social rica, que tem sua extensão na política de poder, incluiu a cultura da maconha e da cocaína na Lei 11.343 para evitar a concorrência dessas duas culturas dos pobres, índios e caboclos do Amazonas e dos Andes com as culturas vegetais já desenvolvidas por ela na indústria", explica o advogado.

A melhor parte é que ele deu um jeito de enfiar a maconha no meio. Eu prefiro fumante comum a maconheiro pela consciência da própria imbecilidade. Avalie um fumante sem noção o suficiente para tentar te convencer que cigarro presta, tabaco é só uma folha natural e existe um complô da indústria. O fumante clássico sabe que está fazendo bobagem e admite. O maconheiro finge que não há efeitos colaterais e, aliás, que só faz bem, é uma erva natural. Na ação, maconha e cocaína são práticas culturais, então não se pode proibir.

A base para garantir que injeções de gás de cocaína curariam COVID não são experiências científicas da Escola de Humanismo. Quem poderia desconfiar? O advogado baseia-se em uma teoria sobre a diferença entre bons e maus gases que credita a Lavoisier em 1662. Tudo começa com a respiração dos vírus. "O Corona que se alimenta pela respiração, ficou presente no seu DNA o vírus do gás nocivo. O velho Corona pela simbiose comunicou o vírus para a espécie de sua família que chamaram de novo corona. Pela respiração conjunta da família, ele pôs novamente o vírus nocivo no ar", explica o advogado.

Tem mais. Levando em conta que o ser humano respira, somente gases naturais poderiam matar o COVID. Segundo a petição, "as massas desses gases que têm a mesma densidade e propriedades, se atraem na razão direta de suas massas que se expressam em quilograma/litro para se acumularem em grandes volumes que dizem ser as variantes de mutações e as reinfecções da COVID-19". Confesso que não entendi nada. Mas a conclusão é que o governo deveria ser obrigado a testar injeções de gás de cocaína em nós todos.

São 5 os pedidos da ação:
1. Como obrigação de fazer do Estado, experimentar o gás da cocaína injetado no corpo humano, para se vê o vírus nocivo morrer;
2. Diante do resultado, deverá o Estado denunciar a Organização Mundial de Saúde (OMS) a rescisão unilateral dos contratos das vacinas, dos insumos inorgânicos dos laboratórios;
3. Citar a União Federal para contestar a Ação, e se vê condenada a retirar da Lei 11.343, de 23 de agosto de 2006, a proibição das culturas vegetais da maconha e da cocaína;

4. Expedir Carta Rogatória ao Tribunal Internacional de Haia na Holanda, para homologar a decisão dessa Egrégia Corte e intimar a Organização Mundial do Comércio (OMC) para cadastrar a maconha e a cocaína no mesmo nível de concorrência com as demais culturas da biodiversidade.
5. Anular todas as condenações pelo tráfico de maconha e da cocaína porque elas são atípicas.

Não me parece que a ação faz sentido. Mas, talvez, eu seja muito burra para perceber essas coisas que "todo mundo sabe", como o complô da burguesia e da indústria farmacêutica para inventar doença. Dentro da minha ignorância, parece que o autor vê a realidade da mesma forma distorcida que o alfaiate do Paulo Guedes. Até hoje não sei se ele mira na Grace Jones ou na Xuxa, mas acertou no Didi. Pelo menos a gente não paga o salário desse povo. Quer dizer, a gente paga só o dos gênios que querem prender o Danilo Gentili. Agora vai.

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