Agressões online contra mulheres jornalistas escalam para ataques físicos
| Foto: Unesco - divulgação

Eu cansei de ouvir que é só um bando de idiotas falando bobagem na internet. Já vi, como você deve ter visto, quem bate no peito e diz que apenas ignora ataques e as pessoas somem. A maior bênção para a saúde mental é a ignorância. Confesso ter inveja principalmente dos colegas metidos a intelectuais que conseguem manter intacta a inocência do Dollynho em seus corações.

No mundo real, infelizmente, a maldade existe e o trabalho também. Deixar como é que estar para ver como é que fica não resolve problemas. Ignorar um problema não é a melhor forma de solução. No caso dos ataques online contra mulheres jornalistas, a bancada do deixa disso sempre pregou não fazer nada. No último ano, um em cada 5 casos se converteu em ataques no mundo real. Está na hora de trazer os adultos para a sala.

Antes de tudo, faço questão de repetir que nunca houve melhor época na humanidade para ser mulher. Nunca tivemos tantas oportunidades, horizontes, espaços para reclamar, crescer, aparecer. É evidente que há problemas e desafios, a ideia de igualdade é recente. Quando eu nasci, por exemplo, havia lei que proibia meninas de jogar futebol na escola. Pior ainda, mulher não tinha CPF próprio quando casada, era registrada no documento do marido. Obviamente há muito o que andar, mas é inegável que vivo hoje liberdades e conquistas que, adolescente, não imaginava possíveis.

Vivemos uma nova realidade na vida das mulheres e é por isso que enfrentamos também problemas novos. O assédio digital, conforme pesquisa feita em conjunto entre a Unesco e o International Center for Journalists (ICFJ) no ano passado, envolvendo jornalistas do mundo todo, mostra que há diferenças nos ataques contra homens e mulheres. Responderam jornalistas que trabalham em todo tipo de cobertura, desde os que investigam cartéis mexicanos de drogas até os que atuam em ditaduras árabes e africanas. Os desafios são diferentes mas há coincidências assustadoras na forma de tentar calar mulheres.

A perseguição a jornalistas em geral é maior quanto menos liberdade de imprensa um país tem ou quanto mais forte é a criminalidade organizada. A comparação entre pesquisas de 2018 e 2020 (pós-pandemia) mostra, no entanto, um aumento muito preocupante do assédio online contra mulheres e da conversão desses eventos em violência offline. No último ano, 73% das jornalistas entrevistadas sofreram ataques digitais. Uma em cada 5 atacadas sofreram ataques físicos que relacionam aos ataques digitais.

Os ataques contra homens variam de acordo com o tema ao qual se dedicam e é muito vinculado a quem não gosta do que revelam ou das opiniões que emitem. Podem ser xingados e perseguidos. Há inúmeros casos de mortes, principalmente em ditaduras e pela criminalidade organizada. No caso de mulheres, há um padrão que independe do assunto. Os ataques são contra a pessoa e a família. Começam geralmente questionando o intelecto e vão se degradando para a sexualização até que começam as ameaças veladas e ameaças reais. É muito importante frisar que não se trata de xingamentos na internet ou de "críticas", como classificam os mais desinformados e também os mais cínicos.

Segundo a pesquisa da UNESCO e do ICFJ, no último ano:
- 73% das mulheres jornalistas receberam ataques nas redes sociais
- 41% foram alvos de campanhas de desinformação
- 25% receberam ameaças de violência física
- 18% receberam ameaças de violência sexual
- 13% receberam ameaças contra familiares
- 20% das ameaçadas sofreram ataques reais que têm conexão com as ameaças
Diante desse cenário, instala-se um clima de pânico. Por um lado, quem recebe a ameaça raramente sabe como lidar com ela. Por outro, tanto veículos de comunicação quanto redes sociais tendem a minimizar esses atos. O fato é que eles estão crescendo exponencialmente e se convertendo em agressões reais, sempre ligadas à família - principalmente filhos - e à sexualidade.

O cenário de crescimento de ameaças às famílias de mulheres jornalistas, passividade dos colegas e das redações e cumplicidade das Big Techs é uma grande ameaça à liberdade de expressão e informação. Se jornalistas não têm como se defender, avalie o cidadão comum. "As jornalistas são muito mais visadas online do que seus colegas do sexo masculino, e as ameaças que enfrentam são altamente sexualizadas, focadas em suas características físicas, etnia ou formação cultural, em vez de no conteúdo de seu trabalho. Como resultado, essas ameaças tendem a silenciar as vozes das jornalistas femininas e a esgotar a liberdade de expressão ao interromper o valioso trabalho do jornalista investigativo", diz o último relatório da Unesco sobre o tema.

O principal impacto sobre mulheres jornalistas é na saúde mental, o que fica mais penoso durante a pandemia. A maioria opta pela família e desiste de tratar de temas como dia a dia da política, questões femininas, direitos humanos e políticas sociais. São os que mais rendem ameaças a filhos, por exemplo. Ameaças como "gostaria que seu filho morresse" não são as piores. As piores são as factíveis, em que se posta o nome, idade e endereço da escola da criança com algo como "e se alguém fosse até a escola do seu filho"? Alguém irá, acreditem. E pouco importa se por motivação verídica ou montagem.

Também são comuns ameaças enviadas a outros membros da família, montagens eróticas, criação de perfis falsos em sites de garotas de programa e campanhas de desinformação atribuindo à jornalista atitudes como defesa do satanismo e da pedofilia. Como os colegas jornalistas tendem a minimizar porque não sofrem o mesmo tipo de ataque na mesma intensidade e eles são a maioria das chefias, o meio jornalístico subestima o quanto é ameaçado por esse processo. Por isso a Unesco lançou uma campanha global em defesa da segurança das mulheres jornalistas, cujo material visual pode ser baixado aqui.

E por que essas jornalistas não entram na Justiça? Na maioria dos países não compensa e não se consegue denunciar nem a ameaça. Como as Big Techs não cumprem as próprias regras e se recusam sistematicamente a fornecer os dados de quem ataca, é impossível responsabilizar quem faz isso. Fiz um teste para um projeto futuro. No meu caso, o YouTube pagou advogado para defender anônimos mascarados que fizeram um vídeo de 39 minutos com xingamentos e ameaças veladas. Há vídeos suspensos pela plataforma por muito menos. O autor da façanha hoje é roteirista do Brasil Paralelo. Ou seja, compensou.

A pior Big Tech na proteção a mulheres jornalistas é o Facebook, diz a pesquisa mundial. A segunda é o Twitter. YouTube vem em seguida, bem abaixo. O duplo padrão do tratamento desses casos não é apenas das Big Techs, também é das autoridades nacionais. Vejam o caso da deputada Tábata Amaral, por exemplo. Não há precedente para o tipo de ataque digital que ela sofre, inclusive de mulheres. Tais ataques não são endereçados de maneira própria pela plataforma e nem mesmo pela Câmara dos Deputados.

Hoje, no Brasil, as mulheres são a maioria em todas as redações, de todos os tipos. Há casos registrados de quem tenha sofrido ameaça e perseguição até por debater uso de chupeta e mamadeira em publicações voltadas à maternidade. Por enquanto, a solução mais comum tem sido calar ou mudar de tema. A prioridade do brasileiro nunca foi ter liberdade ou uma vida melhor, é não incomodar. Os jornalistas sabem que passou completamente do limite o tipo de ataque que mulheres jornalistas têm sofrido, inclusive dos próprios colegas e de figuras públicas. Ah, mas não vão ficar mal com o amiguinho, né?

Sugiro um pouco de Brecht a todos nós:

Primeiro levaram os negros
Bertolt Brecht (1898-1956)

Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.

Fazer-se de sonso é um esporte olímpico do homem pós-moderno. Para que não haja dúvida, falo do metrossexual que mete um sapatênis porque não suportaria criar inimizade com defensores do traje social nem do traje esportivo, fica no meio-termo. Dá chiliques em iguais quantidades para um lado e outro, nos dias em que a falta de virilidade dói na alma, mas não finca posição. Aliás, posiciona-se como biruta de aeroporto. Jamais os cúmplices por omissão fizeram a humanidade evoluir, o futuro é dos que se importam. Avançamos puxados pelos que entendem a humanidade como fraternidade, tenham mais ou menos poder, são os que farão o mundo girar. Eles jamais calam diante dos ataques contra mulheres e merecem todo o nosso agradecimento.

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