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Subida do número de casos e da aceitação da censura no ambiente universitário é preocupante.
Subida do número de casos e da aceitação da censura no ambiente universitário é preocupante.| Foto: Reprodução Instagram

Acaba de ser lançada nos Estados Unidos uma plataforma de monitoramento de ataques contra a liberdade de expressão nas universidades. A iniciativa é da FIRE, Foundation for Individual Rights in Education. Num primeiro momento, pode parecer mais do mesmo eterno debate sobre politização do ensino, ideologia e doutrinação. Trata-se de algo diferente, com base na ciência.

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Você talvez espere que um movimento tão forte de combate à censura vinda da esquerda e dos movimentos identitários seja conservador. O fundador e presidente da FIRE é um advogado de direitos civis progressista, pró-aborto, liberal e ateu, Greg Lukianoff. Ele escreveu um livro com um dos mais renomados psicólogos norte-americanos, Jonathan Haidt. Chama-se "Mimando a mente americana: como boas intenções e más ideias estão preparando uma geração para o fracasso".

Aqui não falamos de ideologia nem de moralidade ou de certo e errado, mas de futuro. A ideia de que precisamos impedir discursos que tenham potencial ofensivo está prejudicando as novas gerações, conforme pesquisas científicas. A boa intenção de evitar problemas com a saúde mental e dar mais confiança não tem se revelado na prática.

Os estudos mostram que há um efeito contrário. Como é um troféu social fazer uma denúncia e o comportamento de manada decide quem está certo ou errado, estudantes e professores morrem de medo de cancelamento, vivem pisando em ovos. A saúde mental e a confiança, segundo mostram estudos da área de psicologia, são piores nesta geração "protegida" do que nas anteriores. A suposta proteção oprime mais que a ofensa deliberada, no final das contas.

A FIRE tem uma base de dados completa com todos os detalhes sobre as tentativas de cercear a liberdade de expressão em universidades dos Estados Unidos. São casos que foram publicamente rotulados como racismo, transfobia, homofobia, misoginia e doutrinação de forma injusta. Exatamente por isso, toda a história está contada e é possível pesquisar por nome, local, período, tipo de acusação, quem fez e desfecho.

A maioria das denúncias vem da esquerda política e de alunos. Mas também há denúncias feitas pela direita, com alunos suspensos por organizar um protesto Black Lives Matter. Tem professor investigado e quase demitido por ter feito postagem em rede social falando mal de Donald Trump. O mais preocupante, no entanto, é que o patrulhamento de discursos definitivamente caiu no gosto dos mais jovens e todos podem ser alvos.

A FIRE classifica como censura a tentativa de calar quem tenha uma visão ou opinião pessoal sobre tema controverso, o que corresponde a 63% dos casos na plataforma. O que seria isso? Vamos a um exemplo prático. Christina Crenshaw, PhD e professora da Baylor University fez um tuíte sobre uso de banheiro por pessoas trans.

Por este tuíte, surgiu uma campanha pedindo que ela fosse demitida da universidade sob a acusação de transfobia. Houve um abaixo-assinado online, movimentação da militância e, claro, adesão da mídia. A professora resistiu. Foi suspensa, mas não demitida, acabou reintegrada. O jornal que a chamou de transfóbica teve de se retratar publicamente por ter distorcido os fatos.

Nem todos tiveram tanta sorte. Austin Clark, professor de Medicina de Louisville, foi demitido depois de organizar um evento pró-vida com associações de médicos e dentistas cristãos. Desde 2019 até a demissão houve um processo longo, que incluiu uma briga monumental com o chefe do departamento e uma oferta da universidade para afastamento por doença mental. Ele próprio havia dito que estava deprimido e abalado com o processo. Acabou demitido.

Entre 2015 e 2020 foram 426 casos catalogados nos Estados Unidos. Nem todos os alvos eram professores, alunos também foram denunciados. Em 2015 houve 24 casos do gênero. Em 2020 foram 113. Até a metade de 2021 eram 61. Estes números mostram que a produção do conhecimento está sendo alcançada por uma tendência que mostrei há alguns dias em um artigo. Os norte-americanos, sobretudo os mais jovens, já topam abrir mão da liberdade de expressão.

O problema da cultura do cancelamento é gerar consequências para os alvos e ganho de status social para falsos denunciantes mesmo quando depois se desfaz o engano. Em 74% dos casos listados pela FIRE houve alguma sanção contra a pessoa, indo desde uma investigação interna até um pedido de demissão, passando por suspensões, demissões e outros tipos de medidas.

Outro fenômeno interessante é patrulhar as redes sociais das pessoas para decidir seu futuro, levando em conta só o post. Aproximadamente 25% das denúncias têm como base algo que foi dito em redes sociais. Metade das denúncias aconteceram durante aulas ou pesquisas. Segundo a FIRE, 25% dos casos eram só de conteúdo "sensível, controverso ou difícil". Por exemplo, falar que uma mulher foi estuprada para analisar um caso jurídico. Sim, tem reclamação até disso.

Um ponto importante dessa discussão é manter o foco na realidade. Aqui não falamos de pessoas que negaram direitos a outras pessoas, tentaram destruir a reputação delas, causaram danos reais por puro sadismo, mentiram deliberadamente, nada disso. Quem faz isso, quando levado à luz das autoridades, costuma mentir dizendo que apenas "deu uma opinião". Os casos listados pela FIRE não têm nada disso, é gente injustiçada mesmo.

"O clima pedagógico está mudando e alguns acadêmicos não acreditam mais que seja aceitável exigir que os alunos leiam ou vejam o conteúdo que dê gatilho, especialmente sem um aviso prévio. Mas a FIRE considera que tornar os acadêmicos alvos pelo que dizem ou fazem na sala de aula ou em suas pesquisas tem o efeito de minar a função primária da liberdade acadêmica: garantir a promoção do conhecimento nas instituições americanas de ensino superior", diz o relatório da instituição.

Ou acreditamos em regras válidas para todos e institucionalidade ou partimos para dar poder a quem grita mais alto. A segunda alternativa parece tendência nos últimos tempos, dando poder até a anônimos em redes sociais. Há séculos a humanidade sabe que permitir o comportamento de manada como processo decisório não dá certo. Na vez que ficou mais famosa, a decisão foi libertar Barrabás e crucificar o filho de Deus. Quem tinha autoridade lavou as mãos e fez coro com a multidão. Esperamos que não haja Pôncio Pilatos sobrando por aí.

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