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Twitter remove robôs, mas isso não é guerra contra desinformação
O Twitter suspendeu contas automatizadas, mas é uma profissão de fé dizer que se trata de combate à desinformação.| Foto: Pixabay

Vou confessar que não sabia nem por onde começar este texto. Fui fazer até ioga antes de escrever porque só Jesus para me acalmar depois de ler as reportagens sobre os robôs do Twitter. Hoje é um dos dias que justificam minha cruzada para mudar a frase da bandeira nacional. "Eu acredito em tudo" seria perfeito.

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Houve sim banimento de contas que o Twitter suspeita serem automatizadas. Mas é pensamento mágico relacionar esse movimento, que é periódico em todas as redes, a uma mudança no combate à desinformação. Falar, como vi, em golpe contra o bolsonarismo chega a ser patético e explico as razões.

Vi muitos bolsonaristas xingando porque perderam seguidores. Políticos importantes já estão todos trabalhados na Vera Verão rodando a baiana da censura porque sempre terá quem acredite. Todos eles usam automatização e todos eles sabem que esse banimento não é uma grande mudança nem um golpe de morte na desinformação como se quer fazer acreditar.

Há muitas definições de robôs, vamos a esta específica. São perfis controlados de forma automatizada, por software ou inteligência artificial, não por interação humana direta. O Twitter fez um teste específico que a maioria das automações não responde e congelou os que não responderam, eles deixaram de contar como seguidores mas não foram desativados até mais confirmações.

Teve gente que perdeu seguidores em todos os matizes ideológicos e gente que nem lida com política. Empresas de marketing e relações públicas têm perfis automatizados para uma série de tipos diferentes de operações de informação. Ter robôs seguidores não quer dizer que a pessoa está envolvida com nada disso e também não quer dizer que não está.

O banimento dos perfis automatizados ocorre em todas as redes periodicamente e não tem relação com o combate à desinformação, embora possa vir a ter impacto nisso. O negócio das redes sociais é coletar dados de usuários humanos para que o algoritmo entenda como eles se comportam. Se empestear de usuário controlado por computador, estraga tudo, corrompe o algoritmo, para de ler direito os humanos.

Robôs, perfis automatizados, também são usados em operações de desinformação, inclusive na política. Eles não têm viés ideológico, dá para programar qualquer ideologia e em qualquer canto do mundo. Só que eles burlam deliberadamente o algoritmo e a formação dos grupos, que são o coração do negócio das plataformas, a venda de publicidade hipersegmentada.

Quando algum grupo político tem a intenção de maximizar um assunto para fazer com que ele chegue à imprensa ou atacar alguém mas isso não tem importância ou aderência, usar robôs é uma boa alternativa. Você posta algo, mas só uma pequena porcentagem dos seus usuários vê. A depender de quantos interagem com aquele conteúdo o algoritmo decide se distribuir aquela postagem para mais ou menos pessoas.

Para maximizar algo, executa-se um serviço chamado de "disparo", que pode ser feito em qualquer plataforma ou simultaneamente em várias plataformas. Alguns perfis controlados por humanos fazem as postagens iniciais e os perfis robôs, controlados de forma automatizada, interagem com ela, replicando, dando likes e comentando. Há perfis robôs que fazem 1,5 mil postagens por minuto.

Isso faz com que o conteúdo chegue a um número exponencial de pessoas reais e ganhe a relevância que não tem. E isso não acontece porque a rede social é poderosa, mas pelo conceito de Conformidade da neurociência. É um fenômeno cujos detalhes são pesquisados incessantemente. Nós tendemos a mudar nosso comportamento, percepções e crenças para nos adequar ao grupo de que fazemos parte ou admiramos.

Nas redes sociais, todos estamos em bolhas ou caixas de ressonância, os tais grupos em que todos pensamos igual. Se perfis automatizados fazem com que uma informação se torne artificialmente relevante naquele grupo, a tendência é que ele valide a relevância da informação. Isso explica por que tanta gente inteligente enxerga a relação inexistente entre banimento de robôs e guerra contra a desinformação. Nos grupos, muita gente é incomodada por robôs que desinformam. As experiências pessoais validam o raciocínio e ignoram o todo.

Hoje começou o evento CyberTalks, promovido pela Cyberscoop, mídia líder mundial na cobertura de cybersegurança. Especialistas de nome mundial das áreas de combate ao terrorismo, espionagem, lavagem de dinheiro e ameaças à democracia revezam-se em diversos painéis até amanhã à noite. O segundo painel de hoje foi dedicado à desinformação, que é vista como uma das vertentes da cybersegurança e também um segmento de warfare e geopolítica.

O nome do painel era provocativo: Desinformação de Aluguel, o novo normal. Participaram nomes das líderes mundiais em consultoria sobre violações digitais para governos e grandes empresas. Camille François é a Chefe de Inovação da Graphika, empresa vinculada às universidades de maior prestígio dos Estados Unidos e pioneira no rastreamento de difusão de informação multiplataformas. Graham Brooke é diretor do Laboratório Forense da Atlantic Council, empresa focada na parceria Brasil-Estados Unidos que fez a análise do relatório de dados de redes sociais do inquérito da PF sobre o que se apelidou de "atos antidemocráticos" por razões que desconheço.

No relatório da PF, aliás, há o "lado b" do banimento de robôs no combate à desinformação, o sumiço de dados que seriam úteis para investigações. Um exemplo concreto é quando o Facebook baniu 200 mil perfis automatizados. O YouTube fez o mesmo recentemente. Um olhar superficial sobre o tema vai ficar preso em queda de seguidores, mas há o impacto na investigação. Eram mais de 15 mil perfis rastreados e não foi possível obter a maior parte dos dados porque eles sumiram com o banimento dos perfis.

Redes sociais trabalham muito com a tática do schadenfreude, que é uma palavra alemã para o contrário de inveja, é quando você fica feliz com o sofrimento de quem você não gosta. É natural e um direito que não melhora o mundo. Quem já foi atacado por bolsonaristas os viu reclamando da perda de seguidores e ficou exultante. Pronto, já foram lá elogiar o Twitter por combater desinformação. Sei lá quantas vezes por dia isso acontece desde 2014, só sei que perdi a paciência porque até meu cachorro aprende com os próprios erros.

Ah, mas por que os bolsonaristas reclamaram? Ainda não sou telepata, um dia chegarei a esse nível espiritual. Suponho que há os que realmente sentiram-se boicotados, os que sempre usaram disparos com anuência da plataforma e sentem-se traídos e ainda os que vêem oportunidade política. Nem sei se eles vêem, mas eu vejo e estou dando a consultoria de graça.

O governo da Índia conseguiu aumentar seu poder sobre o Twitter ao invadir o escritório central da empresa depois que posts de pessoas ligadas ao governo foram sinalizados como notícias falsas sobre COVID. Na Nigéria, há uma comoção nacional com intervenção de entidades internacionais de Direitos Humanos depois que o Twitter foi proibido no país. Eles censuraram um post do presidente Muhammadu Buhari e ele proibiu o Twitter e está punindo quem dribla a proibição.

Qual a oportunidade política de reduzir uma discussão sobre poder das Big Techs, legislação transnacional e desinformação como warfare a perda de seguidores e banimento de posts? Acertar tudo isso nos bastidores e longe dos olhos da opinião pública. Um povo dividido, confuso e conflagrado é muito mais fácil de manobrar.

Elogiar redes sociais pelo banimento dos robôs e consequente sumiço de todas as atividades deles ignora algo fundamental, a participação das Big Techs nisso que agora dizem combater. Quando o Facebook baniu o perfil de Donald Trump, quem o odeia comemorou. Schadenfreude. O Oversight Board do Facebook perguntou à empresa em que extensão as ações da plataforma colaboraram para o desfecho da invasão ao Capitólio. A empresa não respondeu, o perfil de Trump tinha sido apagado.

E vamos à matemática que, acredito, ainda salvará o Brasil. Quem lucra mais com a desinformação promovida pelos robôs banidos? As plataformas das redes sociais ou quem os opera? Há um consenso de que plataformas atuam contra desinformação. No Brasil, 70% das visualizações de vídeos antivacina na pandemia ocorreram por recomendação do algoritmo do YouTube. Nos EUA, 70% do conteúdo antivacina é produzido por 12 influenciadores que ganharam US$ 36 milhões em 2020. As plataformas ganharam US$ 1,1 bilhão com o conteúdo deles.

Volto agora o Cybertalks 2021, onde se defende a tese de que Desinformação de Aluguel é o novo normal. Perfis automatizados em uma única rede social são um detalhe tão ínfimo que isso sequer é mencionado na discussão dos especialistas. Operações de desinformação misturam a realidade com o mundo virtual e também a tecnologia com leis e problemas sociais. É algo tão amplo que não temos parâmetros para avaliar se é bom ou ruim o Twitter banir os tais robôs.

Para se ter ideia da complexidade das operações e da complexidade do monitoramento, um dos estudos de caso foi uma operação de desinformação monitorada em conjunto pela Atlantic Council e pela Graphika. Se você estivesse em uma rede social jamais perceberia algo, o esquema foi montado para escalar usando simultaneamente mais de 230 plataformas diferentes, além de porta-vozes políticos, imprensa e mercenários.

Um dos monitoramentos da Atlantic Council foi pedido pelo próprio Facebook, que detectou uma atividade anormal nas contas do Sudão, mas não era capaz de interpretar o que acontecia. Não basta levantar dados, é preciso confrontá-los com a realidade política e econômica. A Rússia tem interesses em acesso aos portos do Sudão, então começou um programa chamado Food Aid, de entrega de comida. Até aí, tudo bem.

A operação de desinformação consistiu em usar diversas técnicas, incluindo perfis robotizados, para maximizar o alcance e a importância do programa Food Aid. A intenção é que ele virasse o queridinho da opinião pública no Sudão, criando clima político junto à população e à mídia para a aprovação do acesso da Rússia aos portos do país. O país está conflagrado e sem remover resistências não há como aprovar.

Segundo os especialistas que falaram no Cybertalks 2021, há uma diferença importante entre as áreas de cybersegurança e desinformação: a organização. Já existem protocolos, instituições e organização para lidar, por exemplo, com ramsomware e terrorismo doméstico organizados pela internet. Na área de desinformação, segundo Camille François, ainda estamos verificando o que podemos estudar em termos de técnicas de contenção. É um caminho em construção, não uma verdade absoluta.

Nós ainda não temos normas internacionais que dêem limites à manipulação de informação e à interferência de um país em outro via redes. Já é consenso que um país não deve influenciar nas eleições de outros, mas e quanto a manipulação mental? Não falamos sobre isso, provocou o diretor do Laboratório de Pesquisa Digital Forense do Atlantic Council, Graham Brookie.

Entre os neurocientistas já há projetos piloto de regulação por meio de leis e interferência na sociedade civil. Eles acreditam que é necessário falar abertamente com a sociedade sobre Direitos Neurais e manipulação mental. Também crêem na necessidade de conscientização sobre o poder dos mecanismos da internet sobre a vontade das pessoas e os limites éticos e morais que devem nortear a atividade.

Há um consenso sobre a necessidade de regulação, mas não sobre o tipo de regulação das Big Techs. O fato é que colonizamos o universo digital e precisamos aprender como ele funciona ao mesmo tempo em que já vivemos nele. O único consenso até agora é o de que nunca é demais aprender como as coisas funcionam. Nossa mente é excelente em compreender padrões e isso gera o efeito "Mister M", a capacidade de desfazer para sempre o encantamento de um truque assim que sabemos como é feito.

Eu tenho uma amiga que era da seita que venera o ET Bilu. Ela chegou a comprar um "iglu" no lugar onde eles acreditavam ser a salvação para o Apocalipse. Quando a reportagem do ET Bilu foi ao ar na TV Record, eu estava em Angola, com internet em um celular via satélite. Ela não quis dizer por email a mensagem do ET Bilu, eu precisava ver o vídeo. Precisei de 8 horas para baixar uns 5 minutos de vídeo. Nunca passei tanta raiva na vida.

A descrição que ela fazia por email da reportagem era que o ET Bilu havia passado a mensagem que salvaria a humanidade, algo novo, revolucionário, inédito. A mensagem do ET Bilu, para ela, era um divisor de águas. Era como AC/DC, agora teríamos Antes de Bilu e Depois de Bilu. Igualzinho esse pessoal achando que o Twitter banir perfil robotizado vai ser um passo fundamental no combate à desinformação.

Eu deixei o vídeo baixando a noite toda e fui ver pela manhã. Vai que o Armageddon tivesse acontecido e a resposta estivesse ali. Não dava para ver nada, era mais confuso que A Bruxa de Blair e em preto e branco. No meio de um matagal, tudo escuro, uma sombra com voz distorcida era o ET Bilu. Qual a mensagem dele para a humanidade? "Busquem conhecimento". Quase joguei o computador na parede. Foram necessários muitos anos para reconhecer que o ET Bilu tem mais razão do que muita gente inteligente na nossa sociedade.

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