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Instagram descobre que ameaça a saúde mental de adolescentes e resolve não fazer nada
| Foto: Unsplash

Em maio deste ano, fiz uma live com Guilherme Felitti, dono da NoveloData e perguntei qual rede social ele achava mais tóxica. Respondeu de bate-pronto que era o Instagram. Confesso que fiquei boquiaberta, não entendi. Há muito mais bate-boca pesado, grupos radicais e patrulheiros de discurso no Twitter e Facebook. Agora dou o braço a torcer, ele estava certíssimo na intuição.

Guilherme é mais um jornalista que migrou para a área de dados. Alguns fizeram esse movimento quando nossa profissão passou a ser atrelada a redes controladas por algoritmos. Na visão dele, o Instagram é o que tinha mais impacto sobre nosso comportamento e nossas emoções. São muitas imagens e é quase viciante rolar as telas até perder noção do tempo. Em maio, ele disse que sentia isso. Agora sabemos que ele percebeu exatamente o que ocorria.

Reportagem publicada esta semana pelo Wall Street Journal mostra que o Facebook, dono do Instagram, já tem pesquisas internas mostrando como o aplicativo de imagens ameaça a saúde mental. As principais vítimas são meninas adolescentes. Isso é preocupante porque a maior parte do público e quem passa mais tempo no Instagram são os jovens. Mas a empresa decidiu não fazer nada.

O Instagram é a jóia da coroa, onde vão as novas gerações. O Facebook tem cada vez menos jovens. Nos Estados Unidos, por exemplo, 22 milhões de jovens entram diariamente no Instagram enquanto 5 milhões checam diariamente o Facebook e o número vem caindo. Atrair os jovens é vital para a sustentabilidade de um conglomerado que fatura por volta de US$ 100 BILHÕES por ano.

Pesquisas internas mostram que a empresa sabe há anos detalhadamente os efeitos que seus filtros, formatos e algoritmos têm sobre os jovens. O Facebook chegou a anunciar que disponibilizaria menos anúncios para eles, seria uma tentativa de proteção e cuidado. Mas o fato é que a empresa depende de atrair cada vez mais jovens e tem de equilibrar as duas necessidades.

O que você faria se soubesse que o futuro de seu negócio bilionário depende de ameaçar a saúde mental de adolescentes em todo o mundo? O Facebook anunciou trabalhar na criação de um Instagram para menores de 13 anos, uma espécie de versão "kids". Sempre negou veementemente que tivesse conhecimento de danos à saúde mental. Não é novidade, lembra o que fizeram as indústrias do tabaco e amianto nas décadas de 20 e 30 no século passado.

Em março deste ano, Mark Zuckerberg mentiu ao Congresso dos Estados Unidos numa audiência sobre o tema. "A pesquisa que nós vimos é que usar aplicativos de redes sociais para conectar-se com outras pessoas pode ter efeitos positivos na saúde mental", declarou o CEO do Facebook. É óbvio que também há efeitos positivos, o que teria sido de nós e das crianças sem escola na pandemia? Mas ele omitiu que também tinha visto diversas pesquisas sobre efeitos colaterais. Desde 2010 isso é uma rotina nas relações da empresa com o governo dos EUA.

O que exatamente diziam essas pesquisas internas? Prepare o estômago. Traduzo do Wall Street Journal vários trechos:

"Trinta e dois por cento das adolescentes disseram que, quando elas sentiam-se mal com seus corpos, o Instagram as fazia sentir-se pior".
"Comparações no Instagram podem mudar a forma como mulheres jovens se vêem e se descrevem".
"Nós tornamos as questões de imagem corporal piores para as adolescentes".
"Adolescentes culpam o Instagram pelo crescimento na taxa de ansiedade e depressão. A reação foi espontânea e consistente em todos os grupos"
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Já vi muita gente desdenhar disso, dizer que essa é a geração floco de neve e que a nossa adolescência era muito mais difícil. Cada geração tem seus desafios, os deles são diferentes. Nossa geração não era refém de uma máquina de fazer doido que alimenta uma indústria bilionária e mais poderosa que governos. Nós também fizemos muita bobagem na adolescência, mas não tinha rede social. E, além disso, nossos pais conheciam muito bem os perigos do mundo. Hoje a gente descobre aos poucos.

Os efeitos sobre os adolescentes surgem principalmente por causa dos filtros que alteram a estrutura óssea, cor da pele, grossura do nariz, tamanho dos olhos, enfim, fazem um photoshop live. Como passam tempo demais olhando essas imagens, estranham o próprio rosto no espelho. A demanda por cirurgias no nariz cresceu. E há adolescentes tomando remédios que deformam o corpo para ficar com o nariz mais fino.

Em outra rede, o Tik Tok, popularizou-se o antes e depois de tratamento com Roacutan, um remédio perigosíssimo usado sob controle rígido para tratar pacientes com casos gravíssimos de acne. É um remédio controlado, que depende de acompanhamento constante, tem até avaliação psicológica para prescrição e nem pode ser tomado por grávidas porque deforma o bebê. Em algumas pessoas, ele tem o efeito colateral de uma deformidade que parece afinar o nariz.

Mesmo para adolescente, chegar a uma estupidez dessas não é um processo de convencimento, é emocional. Os estudos do Facebook mostram que o problema não são exatamente os filtros, mas a forma como a plataforma é estruturada, em que o foco é no corpo, estilo de vida e mostrar só os melhores momentos. O Tik Tok é focado em performances, repetição e cópia de dancinhas, coreografias, reedições de vídeos e reacts. O Snapchat é todo focado na face, segundo o próprio Facebook.

Trata-se de uma soma dos filtros com o algoritmo, a tendência de postar apenas bons momentos (ainda que falsos), o foco no corpo (os maiores charlatães de nutrição, exercícios e remédios são gigantes na rede) e os filtros criam aos poucos um efeito terrível na mente. "Aspectos do Instagram exacerbam uns aos outros de forma a criar a tempestade perfeita", diz um estudo que foi apresentado a Mark Zuckerberg em 2020. Em 2021, ele disse ao Congresso nunca ter ouvido isso.

Parece tudo muito assustador, mas não estamos diante de empresários especialmente perversos. Às vezes parece que a história é feita de ciclos. Volto às indústrias do tabaco e do amianto, que também tive oportunidade profissional de estudar. No início do século passado, a indústria do tabaco descobriu que seu produto estava relacionado ao câncer de pulmão e era altamente viciante. Isso foi bem quando entendeu-se que, para a sobrevivência do negócio no mesmo patamar de lucro, era preciso convencer mulheres e gente cada vez mais jovem a fumar.

No mesmo início do século passado, a indústria do amianto descobriu na Suíça que seu produto causava asbestose, o endurecimento do pulmão. O bom do mundo de hoje é a rapidez. Nos outros casos, somente depois de décadas esses documentos internos vieram à tona. Havia tentativa de contornar esses danos mas sem falir as empresas ou comprometer o futuro. É o mesmo que ocorre agora com as redes sociais. Quando instituições e sociedade se posicionarem, serão enquadradas.

A indústria do amianto foi a que mais percebeu como a diferença de marcos regulatórios e respeito pelo próprio povo mudava sua situação em vários países. Decidiram em pouco tempo parar de produzir na Suíça e planejaram a migração para os Estados Unidos, depois América Latina, depois Ásia. Ficavam enquanto a regulação não as obrigasse a substituir o produto por outro semelhante que custa 30% a mais. Demoramos uns 90 anos mais que a Suíça para fazer isso.

No caso das redes sociais, estamos diante de um processo talvez inédito. Elas próprias trataram de conectar o mundo todo e, portanto, não vão ter como aproveitar para ganhar décadas contando com a diferença de regulações. Vai muito além de saber sobre leis de outros países. Se você souber que um usuário de outro país tem mais direitos que você na rede, isso gera uma reação em cadeia. E essa diferença já existe: nós temos menos direitos que europeus, por exemplo.

Você sabia que, na União Europeia, não pode derrubar post nem suspender ou derrubar perfil sem avisar exatamente qual foi a postagem problemática, a regra específica infringida e dar chance de recorrer? A plataforma diz não ser responsável pelo conteúdo, então não pode determinar sem explicação o que pode ou não ser postado. Isto é função das instituições de cada país. O desafio agora é como diferentes governos e diferentes culturas vão lidar com a complexidade, a polarização e as paixões desse nosso novo mundo.

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