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O mercado do negacionismo científico é lucrativo e suprapartidário
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Existe, sobretudo nos tempos sombrios que atravessamos, uma tendência a rotular ideologicamente o negacionismo científico. Assim como existe o direito universal à imbecilidade também há o direito universal de não acreditar em ciência. Ambos são exercidos com gosto e orgulho por vários seres humanos que se destacam nas redes sociais. Nos últimos anos, no entanto, houve uma mudança no algoritmo das redes para a criação de nichos cada vez mais específicos. Foi o fertilizante necessário para fazer crescer o negacionismo.

Crueldade, imbecilidade e negacionismo científico sempre foram direitos. No ambiente digital, no entanto, transformam-se em nichos de mercado. Redes sociais operam criando bolhas ou câmaras de eco, grupos unidos pelo laço da unanimidade. Toda unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues. Pois é. Num grupo que nega a ciência de forma unânime, infelizmente o ridículo da burrice não será a consequência mais grave.

Hoje vivemos o ápice do negacionismo científico. Digo ápice pelos riscos. Diante de uma pandemia, agarrar-se a curandeirismo é uma tentação. O horror e a fragilidade nos paralisam, soluções fáceis confortam a alma. Infelizmente, o COVID não se comove com nada disso. O mercado das redes sociais não aglutina só quem nega ciência. Negar a realidade é um mercado muito lucrativo para quem vende livros, cursos, participação em grupos e produtos da realidade alternativa.

A grande maioria das pessoas que faz parte dos grupos mais herméticos e radicalizados está ali de boa fé. O primeiro grande movimento de negacionismo científico da atualidade é o antivacina. Não esse populacho que virou agora, façam-me o favor. Era uma coisa VIP, bem VIP. A crème de la crème da elite intelectual resolveu levantar uma bandeira que finalmente a separa até biologicamente da gentalha. Vacinação é um ato coletivo. Pois bem, não querem mais.

O sommelier de vacina é obviamente uma invenção da fina flor da intelectualidade, não dessa gentalha fazendo bingo de eficácia em rede social. Como o caráter egoísta, negacionista e xexelento do movimento antivacina começou a pegar mal, criaram uma saída. "Não somos contra a vacina, só contra a obrigatoriedade dessas não-comprovadas", diziam. Nunca existiu no Brasil obrigatoriedade de vacina nova nem não comprovada. Enquanto houver otário, malandro não morre de fome.

Há dois problemas diferentes. O da proliferação de otários é inútil tentar conter e seria até antidemocrático. Mas há um problema mais grave, a tentativa de colocar crendice, curandeirismo e fé no currículo acadêmico como se fosse ciência. Esses dias falei da etimologia freestyle, que chegou ao ambiente universitário. Há universidades que utilizam o gênero neutro em comunicações internas, implementando no ambiente acadêmico uma crendice.

Gênero neutro é usado nas comunicações em português para irritar a comunidade trans e também acabar com o machismo. Como se chegou a essa conclusão? Por meio da humilhação pública de quem questiona, o que já é praticamente um método científico. Mas existem exemplos de que isso funciona. Observemos os países de língua inglesa, que naturalmente usa gênero neutro. Acabou o machismo neles. Ah, não, péra... Bobagem, vai assim mesmo.

A tentativa de fazer com que universidades chancelem a equiparação entre conhecimento científico e crendice é mais perigosa do que parece. Se a fonte da produção científica dá aval a crendices - como o uso de gênero neutro ou sommelier de vacina - abre espaço para a substituição da ciência por crendice em outras circunstâncias. Temos o direito individual à crendice e ao autoengano. Mas universidades não podem dizer que isso é ciência, têm obrigação de resguardar o método científico.

Imaginem se uma irmã cristã, ao acreditar ter sido curada pelo pastor da Assembleia de Deus do Jardim Rochdale, Osasco, tentar emplacar na USP a cura pastoral como ciência. Fico imaginando a exposição da irmã diante dos professores, o diálogo, os argumentos que apresentaria, incluindo um vídeo do culto em que nitidamente se pode ver a cura. Brincadeira. Vocês acham mesmo que uma crente de Osasco conseguiria a oportunidade de expor algo que não é ciência para cientistas? Sorry, periferia.

Mas e se a fina flor da classe-média-alta-progressista tiver umas moças muito bem educadas e elas pretenderem que a Universidade chancele como ciência coisas que elas próprias inventaram. Aí já vejo base científica, viu? Os acadêmicos cedem porque se pede com jeitinho. Caso não atendam, serão esculachados pelas madames, então cedem. Ah, foi só um amig@s num memorando, quem liga? Começa assim e depois se cria um monstro. O problema é a abertura do precedente.

Existe um movimento pela "descolonização" que se tornou fortíssimo no ambiente acadêmico. Embora a palavra seja descrição do impossível, a intenção até faz sentido nas ciências humanas e na história. A versão dos colonizadores se impôs sobre a verdade muitas vezes, inclusive sobre a autoria de invenções. O problema é quando se propõe "descolonização da ciência". A proposta concreta envolve até equiparar bruxaria à lei da gravidade como explicação científica. É como aquela propaganda antiga da Feiticeira: "não é bruxaria, é tecnologia". Foi profética.

Falar na ideia de descolonização é um direito, debater como e se ela é possível também. Mas permitir que o termo se torne chancelado por universidades como se houvesse qualquer estudo que o comprove é bruxaria. Aliás, não é não. Desculpa ao pessoal da bruxaria que pelo menos precisa convencer alguém do que faz. A descolonização, como você vê no vídeo, é proposta a pé no peito. Discordou? Racista. Insistiu? Olhaí a branquitude defendendo a colonização. Vidas negras não importam para a branquitude. E por aí vai.

Diante do bullying e daquele senso de superioridade que só a juventude rica consegue atingir espiritualmente, muitos acadêmicos cedem. Universidades brasileiras chegaram a ceder aos antivacinas quando eles eram só a fina flor da sociedade e da intelligentsia nacional. Podiam até publicar teses na área de saúde enquanto militavam contra campanhas de vacinação do governo. Não eram antivacina, eram só "contra a obrigatoriedade de vacinas novas" que nunca existiu.

Compreendo alguns professores. Fui enfrentar uma antivacina e, sem aviso prévio, fui chutada de um coletivo feminista onde eu debatia cuidado com bebês. Na verdade, tiraram minha carteirinha de feminista por outros motivos, sendo o principal dele não me agachar para autoritário. Mas isso fica para outro texto. Resistir aos ataques reputacionais em massa feito pelos negacionistas de luxo pode custar caro profissionalmente. Não resistir custa caro a toda a sociedade.

Outro dia recebi uma mensagem num grupo de whatsapp. Não era o de madames, era outro, de gente mais pé-de-chinelo. Ali tem corrente de oração e gente que vende até marmita. Muito boa, aliás, comprei semana passada. A mensagem era de uma mãe protestando contra a "ciência de poucos" e defendendo a "ciência de todos". Começou na universidade e virou domínio popular. Muitos no grupo defendiam que curandeirismo e simpatias fossem equiparados a ciência no caso da COVID. Eu quase botei para vender uma garrafada milagrosa, mas Jesus não me deixou cair em tentação.

Todos os mercados com base em conhecimento e evolução científica e tecnológica são regulados e rígidos para que a gente entre. As bolhas de internet abrem um novo mercado, o da ciência freestyle. Eu poderia ter entrado nele vendendo a garrafada mágica. Outras pessoas tomaram meu lugar e já estão faturando. A criação de realidades paralelas comporta a criação de produtos e serviços na lógica da realidade paralela.

O discurso anticiência vende de tudo. A indústria antivacina é tão ampla que tem conferências anuais como se fosse um ramo legalizado, como indústria automobilística, turística o alimentícia. Não se confunda esse mercado na margem entre realidade e ficção com o da fé ou transcendental. Ali há produtos relacionados à espiritualidade, sem nenhuma intenção de substituir a ciência ou confundir com ciência.

Já contei outro dia que minha avó, kardecista, nos chamava de ignorantes ao alegar que a religião dela havia sido comprovada pela ciência. Para ela, o cristianismo católico e evangélico eram coisas de quem ainda não conhece a ciência. Ela sabia mais do que grandes cientistas religiosos, inclusive astronautas. Eles alegam que fé e ciência não se misturam nem se excluem. Bobagem, está aí a ciência equiparada à bruxaria. Finalmente conseguimos democratizar uma ideia tão bem intencionada.

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