
O comer bem não tem nada de rebuscado. Pelo contrário, pode se calcar na simplicidade e ofertar os melhores sabores possíveis. Há pratos, sim, mais elaborados, mas estes sempre correm o risco de ultrapassarem a tênue fronteira entre o saboroso e o exagerado (principalmente nos molhos e na decoração, desviando atenção do prato principal). E o melhor é sempre aplicar o simples – que não significa simplório, é bom que se diga.
Então, com essa ideia, surgiu o nosso jantar. Tínhamos em casa dois filés de linguado e um naco (quase nada de salmão). Vamos de peixe, como é a maioria dos pratos que fazemos por aqui. E aí, sem a mínima ideia do que poderia vir, fui até ao Mercado Municipal, onde aquela profusão de aromas e cores sempre que acalma e me permite relaxar.
O que vai ser o jantar, então?
Passei ali na Peixaria Kelly Mozer e pedi (já me desculpando com o Paulinho Mozer) uns 100g de salmão. Somados ao que tinha em casa dariam certo para um Tiradito, Ceviche, Sashimi ou algo assim de entrada. Ele fez uma careta, pegou uma peça inteira de salmão (acho que fez de propósito para me provocar) e tirou a pontinha, que deu 200g. “Mas tirando a pele dá o que você quer” – ainda tirou um sarro da minha cara.
Ali na frente, na banquinha do Yamazaki, fui comprar as coisas básicas: tomates, limão, cheiro-verde… e aí vi uma pequena abóbora que me despertou a curiosidade. Já tinha visto outras, já havia cozinhado outras, mas estas eram diferentes. Tentei pegar algumas informações com o Edivaldo (nosso Rádio-Mercado, que sabe tudo o que acontece por lá), mas ele me disse apenas que era pra fazer igual às outras mini-abóboras ou mini-morangas. Então tá… comprei duas e trouxe para casa.
A ideia seria seguir os procedimentos anteriores. Cortar uma tampa, retirar as sementes, limpar aqueles fios internos e pôr para assar por alguns minutos. E não é que na hora de tirar o miolo descobri que não era abóbora? Era abobrinha, com aquelas sementes pequenas e a polpa firme. Mudanças de planos, portanto.
Tinha pensado em fazer a mini-abóbora recheada com um creme de sua própria polpa, com base de molho branco ou algo assim. Já não mais seria possível, pois tanto o interior quanto a casca seriam aproveitáveis. Poderiam compor um risoto, que tal? Com a polpa, parte da casca e mais alguns ingredientes, para ser servido dentro da casca escavada. Poderia dar certo, imaginei.
Levei ao forno (180ºC) por meia hora, as abobrinhas sem o miolo e o próprio miolo. Sem sal sem nada, apenas para cozinharem. Quando a casca ficou mais macia, reservei a parte inferior, piquei a tampa e juntei à polpa. E daí parti pro risoto, com o preparo básico. Azeite aquecido, cebola refogando, o arroz arbóreo, um toque de vinho branco até evaporar, daí os pedaços de abobrinha, um tomate sem peles nem sementes e o caldo de legumes para cozinhar. Foi só ter paciência, mexendo sempre. Para terminar, um pouco de queijo ralado, fogo desligado, uma colher de manteiga, tudo muito bem misturado e daí o descanso de alguns minutos, com a panela fechada.
O salmão seria um tiradito. Fatiado fininho. Bati no liquidificador cebolinha, suco de limão, cebola, caldo de peixe e alho e reservei. Daí misturei molho Hoisin com saquê (dois por um) e também reservei. Tinha alguns alhos negros na geladeira e achei que poderia combinar (pois o Hoisin é adocicado). Tirei umas fatias e pus em cima do salmão, assim como algumas folhas de coentro e uns cubinhos de tomate que sobraram do risoto. Uma pimenta dedo-de-moça cortada fininha, algumas rodelas de cebola (ideal se fossem da roxa, mas não tinha na despensa) e a finalização, com o Hoisin e o molho batido no liquidificador. Com direito a um momento de chef da moda. Depois de batido, o molho foi pra geladeira e ali se acomodou, deixando uma camada líquida embaixo e a espuma no topo. Pus a espuma, claro, sou metido.
O salmão foi servido como entrada. Para o prato principal, risoto pronto, foi só grelhar os filés de linguado na frigideira com um fundinho de azeite, esquentar as carcaças das abobrinhas no micro-ondas e tudo bem. O jantar estava servido.
E que ficou muito bom, ficou mesmo. Modéstia à parte.
Fácil e ao alcance de qualquer um que quiser arriscar.
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