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João Arthur Mohr , gerente de assuntos estratégicos da Fiep
João Arthur Mohr , gerente de assuntos estratégicos da Fiep| Foto: Gelson Bampi/Fiep

Milhares de empresas paranaenses abandonaram suas produções costumeiras de roupas, bonés e até itens automotivos para uma corrida contra a tempo em busca de fornecer ao estado até 7 milhões de máscaras, aventais cirúrgicos e outros equipamentos de proteção. O esforço coletivo está sendo capitaneado pela Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep), que faz uma articulação entre o governo e os empresários, além de fornecer a base técnica para que as linhas de produção possam rodar.

A demanda, explica João Arthur Mohr, gerente de Assuntos Estratégicos da Fiep, partiu do próprio governo estadual como uma solução para a escassez de produtos usados no combate à pandemia de coronavírus. Ao convocar empresas de diversos segmentos, Fiep e governo pretendem suprir as necessidades da saúde pública paranaense, além de fazer girar – ao menos uma parte – da economia do estado. Está dando certo.

Somente no ramo das confecções, 5 mil empresas trocaram o inevitável ostracismo das fábricas neste período de distanciamento e isolamento, por máquinas rodando em prol da sociedade. De quebra, garantiram ocupação para mais de 80 mil funcionários, destaca Mohr, em entrevista à Gazeta do Povo. Uma situação que vai suavizar os duros dias de crise.

Como está sendo esse trabalho de colocar empresas de outros ramos para produzir máscaras e aventais, por exemplo?
Mohr: Estamos mobilizando [as empresas] através da Fiep, tentando transformar todas estas indústrias que estão hoje [trabalhando com] produtos não essenciais, fazendo com que elas produzam itens ligados à saúde, ligados à Medicina. Dividimos a indústria do Paraná em três grupos. O primeiro grupo é o dos alimentos, medicamentos, saúde e higiene. Essa está tocando direto. Os funcionários estão saindo de casa todos os dias para trabalhar. O segundo é o dos produtos não essenciais e que hoje não têm mercado, como os de linha branca, móveis, automóveis. O mercado não está aberto e eles não têm nem onde estocar os produtos. Essas estão, a maioria, em férias coletivas. Mas existe ainda um nicho muito grande que nós temos no Paraná, e é considerado não essencial, é a parte de roupas. Que está se reinventando.

Como está a adesão a essa reinvenção?
Juntamos todo o pessoal. São cerca de 5 mil indústrias de várias regiões. Isso dá 80 mil pessoas trabalhando. A maioria delas ficaria em casa ou perderia o emprego. Estipulamos com eles normas técnicas de trabalho para que passassem a produzir produtos hospitalares. São máscaras e aventais cirúrgicos. Eles são feitos com tecidos especiais. Têm que seguir normas da ABNT, da Anvisa. Hoje, por exemplo, nós estivemos com empresários de Apucarana, conhecida por ser a capital do boné. Mais de 80 empresas da cidade estão migrando da confecção de bonés e camisetas para máscaras. Vão produzir 50 mil, 60 mil máscaras por dia. Tem uma grande empresa de camisas masculinas de Cianorte que vai começar a produzir também. Vão entregar quase 800 mil máscaras por semana. Esse produto antes vinha só da China. Recentemente dois aviões que viriam para o Paraná foram barrados nos Estados Unidos.

Qual é a demanda a ser atendida e para onde vão esses materiais?
A demanda só para a área de saúde do Paraná é de 7 milhões para os próximos 60 dias. Temos que prover hospitais, clínicas, ambulatórios, equipes de enfermagem, médicos. São máscaras descartáveis. O tempo de uso delas é de quatro horas. São máscaras com índices de retenção bacteriológica altos. Estamos priorizando o Paraná. É uma conversa direta com o governo, com a Secretaria de Saúde. Mas também já temos pedidos das 103 Santas Casas no Paraná, pedidos do sistema prisional no nível federal –  para não ter nenhum tipo de contágio nas penitenciárias.

Somente a indústria da confecção foi “convocada”?
Há diversos outros setores. Tem uma indústria que fabricava tintas em aerossol, para grafite, na região [de Curitiba]. Eles pararam de produzir esse produto e começaram a envasar álcool 70% em aerossol. Você pode borrifar e ele dá a higienização necessária. A Volvo e a Renault colocaram os engenheiros, junto com a equipe do Senai, para fazer a reparação de respiradores artificiais que estavam parados. A Princesa dos Campos [empresa de ônibus] está fazendo a logística disso [de trazer respiradores de outros locais para Curitiba]. Ainda no começo da semana estávamos com 12 [equipamentos prontos]. Outra empresa, do setor metalomecânico, de Marechal Cândido Rondon, está desenvolvendo respiradores novos. Há cachaçarias fazendo álcool em gel. Empresas que produziam cerveja e refrigerantes estão usando seus tanques para produzir álcool também. Há, além disso, o setor de macas. Não é uma reinvenção nesse caso, mas eles estão aumentando a produtividade.

O papel da Fiep é de articulação entre governo e empresas?
O papel da Fiep é de articulação e de fornecer base técnica. O governo [estadual] nos procurou. Pediu uma ajuda há uns 15, 20 dias. Disse que estava tendo um grande problema com máscaras e que isso iria piorar. O Executivo não conseguia comprar ou trazer esses itens. Nós ficamos muito dependentes da China em vários desses produtos.

Há alguma chances de essas empresas passarem a ser fornecedores constantes desses produtos, já que somos dependentes da indústria chinesa?
Isso vai ser uma grande oportunidade para a indústria do Brasil. Nos produtos essenciais, deveríamos ter uma fabricação de pelo menos 50%. Máscara é um produto muito simples de fazer. Isso não acontece [fabricação aqui] pelo problema de preço. A China tem questões tributárias, subsídios de impostos e mão de obra que barateiam seus custos. Em uma licitação internacional, não conseguimos competir. Já conversamos com o Exército brasileiro, com a Defesa, para que no mínimo 50% deste tipo de material seja comprado por aqui. Após a crise, vai haver uma “desglobalização” da produção mundial. E isso tem que ser pensado pelas autoridades. Produto estratégico tem que ter uma fabricação nacional. Pega as indústrias que produzem leitos hospitalares. É muito mais fácil chegar nelas e falar: ‘vamos abrir um segundo turno’. A tecnologia já é dominada. É mais difícil com uma empresa que precisa mudar. Com a questão da máscara, por exemplo. Você está transformando uma empresa que produz bonés em fabricante desse item. Precisa adequá-la às normas da ABNT, à capacitação técnica...

Essa produção ficará vigente por apenas 60 dias, o prazo inicialmente estipulado pelo governo?
Pode ser ampliada. O estado deve manter seus estoques altos. O consumo de máscara era cinco vezes menor do que o atual antes da pandemia. Pelas novas orientações dos órgãos de saúde mundiais, até mesmo as pessoas que não trabalham com saúde precisam de máscaras [caseiras, de acordo com indicação da Organização Mundial da Saúde]. Acreditamos que algumas dessas linhas de produção possam se tornar perenes. Mas isso desde que o governo reserve uma parte [do mercado] à produção nacional. Caso contrário, de novo, a China volta a controlar o mercado mundial. Temos que ter uma visão estratégica.

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