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Vocês viram o rosto da moça francesa que teve a loja saqueada por bandidos na Paris socialista, durante os protestos do último fim de semana? Aquela é a expressão de todo militante do amor quando se vê diante das consequências de seus próprios atos. Só mesmo um grande trauma pode fazer alguém abandonar suas ilusões mais queridas.
No conto “É difícil encontrar um homem bom”, de Flannery O’Connor, uma família em viagem sofre um acidente e é encontrada por criminosos foragidos liderados por um sombrio Desajustado, um assassino em série. A avó reconhece o assassino e sela o destino de todos. Enquanto os parentes são levados um a um para serem executados no mato, a velha senhora tenta comover o psicopata até o último suspiro, repetindo que ele é um homem de bom coração: “Você é uma das minhas crianças, um dos meus filhinhos!”. O Desajustado dá três tiros no peito da idosa e, com frieza absoluta, limpa os óculos.
A primeira vez que li esse conto, em um velho exemplar emprestado da Biblioteca Municipal, foi em 2002, o ano em que morreu Celso Daniel e Lula ganhou sua primeira eleição.
Na época, ainda não vivíamos em um país totalmente dominado pelo narcoterrorismo e governado por organizações criminosas. Ainda não havíamos conhecido o Mensalão, nem o Petrolão, nem a recessão da Dilma, nem o Inquérito do Fim do Mundo, nem a farsa do 8 de janeiro, nem o roubo do INSS, nem o golpe do Master, nem o escândalo Lulinha, nem o afundamento geral da nação. Na Presidência da República, não havia ninguém que já tivesse sido condenado por corrupção e lavagem de dinheiro; jamais se imaginaria que um tal Desajustado viesse a lançar uma candidatura e a ser proclamado presidente. Mas já havia muita gente com o mesmo discurso da velha senhora do conto:
“Sei que o senhor é um homem bom, não é uma pessoa qualquer!”
Votar em Lula é esperar que, desta vez, o lobo poupará suas vítimas
Eis que os anos se passaram e o Partido dos Desajustados não apenas chegou ao poder no Brasil, como o devastou completamente, a ponto de ser quase impossível discernir onde termina o Estado e começa o crime.
Votar em Lula, hoje, depois de tudo, é reproduzir o comportamento daquela senhora estúpida e da moça francesa simpática aos bandidos. É esperar que, desta vez, o lobo poupará suas vítimas. É acreditar que agora, finalmente, o Desajustado será bonzinho e revelará que tem um coração.
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Paulo Briguet é escritor, jornalista, palestrante e professor de literatura. Trabalhou em diversos jornais, revistas e assessorias de comunicação no Paraná. Foi colunista da Folha de Londrina e editor-chefe do jornal Brasil Sem Medo. Publicou diversos livros, dentre eles: “Nossa Senhora dos Ateus”, "Coração de mãe", “O Mínimo sobre Distopias” e “Diário de Moby Dick”. Já escreveu mais de 2 mil crônicas. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



