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“Feliz aquele que se compraz no serviço do Senhor e medita na sua lei dia e noite.”
(Salmo 1, 2)
A tradição bíblica nos apresenta dois grandes Josés, e cada um deles é guardião de uma promessa. O primeiro, o do Egito, foi o homem da providência que transmutou o exílio e a túnica ensanguentada em celeiros cheios para salvar seu povo da fome. O segundo, o de Nazaré, foi o Justo do primeiro salmo, o herói silencioso, o carpinteiro que protegeu o Pão da Vida na fuga para o Egito. Neste dia 2 de maio, despedimo-nos de um terceiro José: o Dr. José Ruivo da Silva.
Nascido no Natal de 1929, Dr. José Ruivo nos deixou quatro anos antes de completar 100, no dia de Santo Atanásio — providencial rima do tempo para um homem que, como o santo, foi um pilar de ortodoxia nesta época de deserto espiritual. Se a vida fosse um romance de Ray Bradbury ou de Graham Greene, Dr. Ruivo seria o personagem que guarda o segredo da civilização.
Português de nascimento, cirurgião por vocação e irmão dominicano por eleição espiritual, ele atravessou quatro continentes carregando pouco mais que seus instrumentos médicos, seu rosário e uma biblioteca inteira gravada na alma.
Os Josés das Escrituras guardavam o trigo e o Messias; o nosso José de Sertanópolis guardava a memória e a fé. Nossa amizade, embora tardia, foi uma dessas boas surpresas que a Providência reserva para o outono. Guardo com saudade os nossos almoços, muitas vezes acompanhados pelo professor Miguel Contani.
Fosse no ambiente histórico do Hotel Bourbon, em Londrina, ou na atmosfera sagrada de seu apartamento em Sertanópolis — onde as paredes mal se viam, tomadas por estantes repletas de livros —, o Dr. José Ruivo nos recebia com a fidalguia de um príncipe do espírito. Ali, entre os melhores pratos da culinária portuguesa, o bacalhau era apenas o preâmbulo para conversas que atravessavam séculos e desvelavam os jogos do poder de nossa época dilacerada.
Por décadas, ele viveu entre o bisturi, a pena e o rosário. Devoto piedosíssimo de Nossa Senhora de Fátima, Dr. Ruivo conhecia tudo sobre esse grande conjunto de milagres do nosso tempo. Não apenas acreditava na Cova da Iria: ele a estudava com o rigor de um cientista e a humildade de um filho obediente. Lembro-me, com especial emoção, de um de seus ensaios mais belos, escrito naquela sua letra cursiva impecável em papel-almaço, sobre a palavra Shalom. Para ele, o termo hebraico era a “paz que excede todo o entendimento”, a plenitude do ser que ele buscava em cada página de Santo Tomás de Aquino.
Sua importância para a sociedade paranaense transcende definições reducionistas. À semelhança de São Lucas, curava homens e almas
Dr. Ruivo foi um farol intelectual, um guardião da alta cultura que tratava a grande literatura como escudo contra a barbárie. Em sua longa carreira médica, curou e salvou incontáveis vidas, na maioria das vezes para pessoas que só podiam pagá-lo com gratidão. Realizou mais de 30 mil cirurgias, mas sua maior operação foi no imaginário de seus amigos e interlocutores. Ele sabia que o Eu Perfeito só se encontra na Eternidade, mas dedicou seus 96 anos a tornar o nosso eu terreno um pouco mais nobre, mais culto e mais próximo de Deus.
Perdi um amigo, um mestre e um decano; porém, não perderei jamais o exemplo de uma vida luminosa. Ao fechar este último capítulo da peregrinação terrena, tenho a certeza de que ele foi mais que um Ninguém na multidão — aquele personagem de Gil Vicente que busca a virtude enquanto Todo o Mundo busca o dinheiro. Dr. José Ruivo foi, e sempre será, Alguém: um personagem real que escreveu, com a própria vida, a crônica mais bonita da amizade.
Descanse em paz, Dr. José. O senhor agora conhece a Vida que tanto buscou e habita, finalmente, o Shalom definitivo.
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