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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Manifesto pela liberdade

Gazeta 107 anos: a coragem de fazer o que é direito

Aos 107 anos, a Gazeta do Povo ecoa o alerta de Robert Conquest e o diagnóstico de Guilherme Cunha Pereira: sem vigilância e coragem, a liberdade não sobrevive. (Foto: Reprodução/YouTube/Gazeta do Povo; Rob C. Croes/Wikimedia Commons)

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“Audaces fortuna iuvat.” (A sorte favorece os audazes)
(Virgílio, Eneida)

1- Nesta semana, a Gazeta do Povo completou 107 anos. Em 3 de fevereiro de 1919, o mundo ainda cheirava a pólvora e gás venenoso, encerrado o maior e mais cruel conflito até então conhecido pelo homem. Mal se fez o armistício, a humanidade enfrentaria a terrível gripe espanhola, que igualmente causou milhões de mortos. Pouco antes, Nossa Senhora havia aparecido a três crianças portuguesas para anunciar tempos ainda mais difíceis, e a Rússia iniciava o pesadelo revolucionário, tornando-se o primeiro Estado socialista da história.

Durante os últimos 107 anos, vivemos o tempo dos totalitarismos, dos genocídios e da Guerra Fria. De Stálin e Hitler. De Mao e Pol Pot. Do Holocausto e do Holodomor. De Auschwitz e do Gulag. Das grandes fomes e dos grandes avanços científicos. Da conquista do espaço e do vazio materialista. Do globalismo e do terrorismo. No Brasil, passamos por ditaduras positivistas, crises econômicas e desilusões democráticas. Em meio a tantos dramas e desafios, a Gazeta seguiu cumprindo a sua vocação: informar com coragem e independência.

A longevidade de um jornal se deve a essa coragem de fazer o que é direito e resistir àqueles que tentaram — e tentam até hoje — entortar a realidade. Completar 107 anos, bem mais que um simples registro de calendário, é o triunfo da permanência: o jornal fala com a autoridade de quem viu muitas certezas caírem, enquanto permanecia em pé. A Gazeta sobreviveu porque teve a coragem de fazer o que é direito.

2- E foi dentro desse espírito que o presidente da Gazeta, Guilherme Cunha Pereira, fez um importante comunicado no dia dos 107 anos. As palavras de Guilherme não foram um simples discurso de aniversário; muito além disso, soaram como um diagnóstico da doença institucional que devora o país.

A metáfora do sapo na água fervente ilustrou com exatidão a angústia que a sociedade brasileira vive hoje sob o Regime PT-STF: “O quadro é tão grave que continuo acreditando que muitas pessoas de bem, que hoje não conseguem perceber o que está acontecendo, mudariam de opinião se pudessem ver, de forma concentrada, a quantidade colossal, gigantesca, de decisões arbitrárias tomadas ao longo dos últimos anos, porque o que ocorreu foi um processo gradual, como na metáfora do sapo na panela fervente. O calor aumenta pouco a pouco, o animal se acostuma, não salta e acaba morrendo cozido”. Nós, o povo brasileiro submetido a uma autocracia nefasta, somos esse sapo na panela.

3- Ao ouvir o diagnóstico de Guilherme sobre a “anomalia institucional” e a “hipertrofia do Judiciário”, pensei em convocar à mesa o historiador britânico Robert Conquest (1917–2015).

Conquest, que dedicou a vida a expor as entranhas do terror soviético quando a maior parte da intelectualidade ocidental preferia o silêncio cúmplice, formulou três leis da política que explicam o apodrecimento institucional. A primeira delas diz que “todo mundo é conservador naquilo que conhece melhor”.

A Gazeta é conservadora porque conhece profundamente o jornalismo e a história brasileira; ela sabe que a realidade não aceita desaforos e que o desprezo pela experiência acumulada é o primeiro passo para o abismo.

Fazer o que é direito, portanto, é manter-se fiel ao que se conhece, recusando as utopias de quem pretende reinventar a sociedade por decreto

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4- A segunda lei de Conquest é um alerta contra a entropia das organizações: “Qualquer organização que não seja explicitamente e constitucionalmente de direita se tornará, mais cedo ou mais tarde, de esquerda”. Conquest não falava de partidos, mas da tendência natural das burocracias de se agigantarem e buscarem o controle social. Guilherme apontou esse “agigantamento do Judiciário à revelia da Constituição” como o problema mais grave do país.

A Gazeta, ao ter a coragem de se assumir conservadora, ergueu uma barreira explícita contra essa maré. Em um ambiente onde “progresso” e “democracia” frequentemente são termos esvaziados de sentido — meros eufemismos ou flatulências vocais para disfarçar a erosão das liberdades —, fazer o que é direito exige a coragem de ser o obstáculo no caminho da manada.

5- A terceira lei de Conquest é a mais ácida de todas: “A maneira mais fácil de explicar o comportamento de qualquer burocracia é assumir que ela é controlada por uma conspiração de seus inimigos”. Quando observamos um tribunal que, sob o pretexto de salvar a democracia, suspende o Estado de Direito, atropela o devido processo legal e impõe a morte civil a cidadãos e empresas, a lei se confirma.

A instituição age como se fosse sua própria sabotadora. Diante desse cenário de juristocracia, em que o juiz se torna vítima, acusador e carrasco, a Gazeta recusa-se a participar da farsa. Fazer o que é direito, em tal contexto, significa manter o espelho diante do poder, revelando que a “defesa das instituições” tornou-se o biombo para a destruição de sua finalidade original.

6- Robert Conquest viveu 98 anos. Teve a chance de ver o império soviético desmoronar e os arquivos secretos confirmarem cada vírgula de suas denúncias sobre o Grande Terror comunista. Em 1991, quando consultado sobre um novo título para sua obra-prima, ele sugeriu, com seu inconfundível humor britânico: “Eu bem que avisei, seus idiotas!”. É essa mesma paciência que habita os corredores da Gazeta.

O jornal não escreve para o aplauso efêmero das redes sociais ou para as vênias palacianas; escreve para os arquivos da história. Fazer o que é direito é saber que, enquanto a “anomalia institucional” ferventa a panela, a palavra escrita com independência é o que garantirá, daqui a alguns anos, o direito de rir por último — o riso de quem não negociou a verdade por um prato de lentilhas estatais.

7- A longevidade da Gazeta do Povo e a clareza do manifesto de Guilherme Cunha Pereira convergem para uma única certeza: a liberdade é um exercício de audácia cotidiana. Completar 107 anos não é apenas durar, é liderar pelo exemplo. Fazer o que é direito — tanto no sentido da retidão moral quanto na restauração da justiça — é a única forma de evitar que o sapo brasileiro termine cozido pelo cinismo dos autocratas.

A Gazeta continuará sendo a sentinela que, por entender muito bem o que protege, não tem medo de nadar contra a corrente. Porque a corrente, por mais forte que seja, acaba no mar do esquecimento; mas o que é direito permanece, como o jornal que não foge à luta e o cidadão que se recusa a ficar deitado em berço esplêndido.

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