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Paulo Briguet

Paulo Briguet

“O Paulo Briguet é o Rubem Braga da presente geração. Não percam nunca as crônicas dele.” (Olavo de Carvalho, filósofo e escritor)

Redescobrimento do Brasil

Terra da Vergonha: a nova Carta de Pero Vaz de Caminha

Em Minas Gerais, recebo uma carta misteriosa atribuída a Caminha, em tom satírico, sobre Tiradentes e críticas ao Brasil atual. (Foto: Imagem criada utilizando OpenAI/Gazeta do Povo)

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Estou passando alguns dias em Minas Gerais, terra que inspirou Cecília Meireles a escrever sua obra-prima, o belíssimo “Romanceiro da Inconfidência”.

Em meu quarto de hóspede, preparava-me para escrever sobre o Dia de Tiradentes (e também sobre seu traidor, Joaquim Silvério), quando ouço baterem à porta. Levantei-me para atender, mas já não havia ninguém, apenas um envelope e uma carta escrita a bico de pena, deixada no chão.

Li o manuscrito, que reproduzo aqui, na linguagem do autor, com algumas adaptações para melhor compreensão:

“Senhor,
Posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães escrevam a Vossa Alteza a nova do achado desta Vossa terra nova, que se ora no mundo descobriu, não deixarei de também dar minha conta disso a Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que, para o bem contar e falar, o saiba fazer pior que todos.

Todavia, saiba Vossa Alteza que, voltando eu por místico desígnio a estas paragens que outrora louvei pela pureza de sua gente e grandeza de suas matas, achei-as em grande e dolorosa confusão. A terra, que dantes parecia um paraíso de águas infinitas, agora fenece sob o peso de um colapso fiscal tamanho, que o ouro e a prata parecem fugir das arcas reais como se tivessem pés, deixando a gente em grande aperto e desespero.

O governo desta terra, que ora se diz sob o comando de um cognominado senhor Lula, parece não ter norte nem bússola. É um desgoverno tal que as leis da lógica e da prudência foram lançadas ao mar. E o que mais espanto causa, Senhor, é que os magistrados da Corte Suprema, que deveriam ser os guardiões da justiça — a saber, os senhores Moraes, Toffoli e Gilmar —, agem como se fossem eles próprios os donos da vida e da voz de cada súdito. Criaram um tribunal de exceção onde a liberdade é crime e o arbítrio é a lei.

Vi coisas, Senhor, que fariam chorar os anjos: perseguição severa aos dissidentes, homens e mulheres de bem lançados aos ferros apenas por clamarem contra o arbítrio do regime que une o PT a essa Corte de togados. É uma Inconfidência ao revés: os tiranos perseguem os que amam a liberdade.

E não param aí as vergonhas. Corre pelas bocas o escândalo do Master, em que rios caudalosos de dinheiros públicos foram desviados por mãos leves, e o escândalo do INSS, que retira o pão da boca dos velhos e cansados para sustentar a luxúria dos palácios. Esta terra, que em se plantando tudo dá, parece agora só produzir espinhos de corrupção e ervas daninhas de opressão.

Beijo as mãos de Vossa Alteza. Desta dantes Terra de Vera Cruz, ora Terra da Vergonha, onde o espírito de Tiradentes ainda soluça nas pedras, ao vigésimo segundo dia de abril de 2026.
Seu mui modesto súdito,
Pero Vaz de Caminha.”

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