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O vereador Fernando Holiday
O vereador Fernando Holiday participou de podcast com Mano Brown.| Foto: Afonso Braga/Câmara Municipal de São Paulo

“Todos os homens, inclusive os materialistas, são vítimas da ‘mistificação idealista’. Idealismo por idealismo, que se deixe de mofar do idealismo religioso, que, mesmo que nele não se acredite, tem ao menos, a vantagem de unir o que o idealismo do orgulho e da inveja só pode separar. (Gustave Thibon)

O leitor que me acompanha nas redes sociais deve ter visto que tenho tecido alguns comentários sobre o podcast Mano a Mano, recém-lançado e apresentado por uma das vozes mais importantes de minha geração: Mano Brown, do lendário grupo de rap Racionais MCʼs. Brown já foi tema de artigos meus aqui, nesta Gazeta do Povo, pois, não é de se estranhar, as músicas do Racionais, de certo modo, foram a trilha sonora de minha juventude e moldaram parte considerável de minha personalidade e visão social naquele período; e, apesar de, atualmente, discordar de quase tudo o que Brown diz publicamente, minha admiração por sua história e, sobretudo, por seu papel enquanto artista continuam muito relevantes para mim.

A ideia do podcast é debater “assuntos importantes, interessantes e controversos (...) no melhor estilo mano a mano”, e isso, na verdade, só tinha importância retórica diante dos primeiros cinco convidados – Karol Conká, Dráuzio Varella, Lula, os jogadores veteranos do Santos e o, digamos, pastor Henrique Vieira –, que, em alguma medida, compartilham da visão de mundo de Brown, de forma que não houve qualquer controvérsia. No entanto, o convidado mais esperado por mim foi o que esteve no programa na última semana, o vereador Fernando Holiday – esse, sim, polêmico e que, certamente, gerou uma conversa no mínimo interessante. Holiday surgiu na cena pública por volta de 2015, como YouTuber. Em seguida, tornou-se uma das vozes políticas mais importantes do Movimento Brasil Livre (MBL) – sobretudo à época do impeachment de Dilma Rousseff –, tendo sido eleito vereador, aos 20 anos, em 2016, com 48.055 votos (o vereador mais jovem da história do município de São Paulo), e reeleito, em 2020, com 67.715 votos – marca impressionante para um jovem de apenas 25 anos.

Apesar de, atualmente, discordar de quase tudo o que Mano Brown diz publicamente, minha admiração por sua história e, sobretudo, por seu papel enquanto artista continua muito relevante para mim

A esquerda em geral nutre um ódio irracional (e irresponsável, eu diria) por Fernando Holiday; ou, ao menos, pelo personagem agressivo e de posições firmes que ele criou para si e do qual atualmente tenta, aos poucos, se livrar; um sinal claro de amadurecimento. Pessoalmente, Holiday é tímido e reservado, digo isso porque o conheço. Mas, para aqueles que acham feio o que não é espelho, isso pouco importa; tampouco sua tenra idade, que deveria ser sopesada antes de qualquer julgamento definitivo a respeito de sua pessoa e caráter. Eles – aqui generalizo, mas não muito – o odeiam com todas as forças e de uma maneira absolutamente inconciliável. Inclusive, os comentários nas redes sociais por ocasião de sua participação no Mano a Mano são assustadores, mas não surpreendentes, uma vez que eu mesmo já passei e passo por tal tsunami de ódio ideológico. De jovens a adultos, de jornalistas a pretensos intelectuais, o comportamento diante do contraditório é algo funesto, mas digno de um país que há muito tem bebido o cálice da ignorância tanto em níveis formais quanto informais. Nossas imodestas pretensões – de acordo com o filósofo Sílvio Romero, nosso maior mal – revelam-se um tanto falhas diante da cultura de Almanaque Abril de nossa classe letrada e do louvor à ignorância da população em geral.

No entanto, vale dizer que a entrevista foi, na medida do possível, boa. Conforme comentei em minhas redes sociais – aqui repito integralmente –, a entrevista foi protocolar, mas histórica. Enganou-se quem esperava algo diferente; eu não. Brown é malandro e sabe a importância do que aconteceu, e bancou mesmo contra o conselho daqueles que ainda não estão preparados para essa conversa. Ele disse isso (a parte de não estarem preparados é minha). Holiday é muito jovem, sua base é muito diferente da de Brown (e minha também), e a parada ali foi, principalmente, tentar entender isso. Um episódio ao melhor estilo “decifra-me ou te devoro”.

Brown, como anfitrião, soube conduzir com maestria a conversa. Fernando, a quem pode-se acusar de muitas coisas, menos de covardia, expôs o que pensa de maneira cristalina – uma de suas maiores virtudes e eis sua vocação política. Não foi uma conversa truncada, mas quase dispersa, obviamente. Muitos assuntos foram somente introduzidos, mas não darão, aos espíritos moderados, sinais de qualquer mal-entendido. Brown, que vê Fernando como alguém equivocado, não nega esse direito ao jovem vereador. Seria arrogante e contraditório para alguém mais velho e (oriundo) da periferia. Brown sabe. Por isso, a ele coube o papel natural de conselheiro, como um irmão mais velho. Fernando prometeu refletir sobre o que ouviu; e o saldo foi, ainda que simbólico, verdadeiramente substancial.

O que houve ali foi, antes de qualquer coisa, um embate sobre visões de mundo. Brown, mais velho, periférico e embebido de ideologia progressista livresca, manifesta um discurso que vai ao encontro de uma perspectiva que vê a história do Brasil à maneira da luta de classes marxista. Admirador do guerrilheiro Carlos Marighella, o rapper – que, atual e curiosamente, faz concessões ao politicamente correto e renega canções antigas de seu grupo por considerá-las preconceituosas – vê, por exemplo, nas ações afirmativas o único caminho para impedir o que ele chama, na conversa com Holiday, de “máquina de moer gente”. Para ele, negros morrem aos montes no Brasil por causa do “sistema”, e faz análises e afirmações absurdamente superficiais para problemas extremamente complexos. Óbvio que o Estado brasileiro é o maior agente e perpetuador de desigualdade, de pobreza e de violência contra os mais pobres nesse país; isso é ponto pacífico para qualquer um que queira ser honesto diante dos fatos. Mas esse não é o único problema, e pensar que o mesmo Estado que prejudica seja capaz de oferecer a solução é ser um tanto ingênuo.

Holiday, jovem, também periférico, mas com referências culturais quase opostas às de Brown (e minhas), pensa – e eu também – que a solução passa por um fortalecimento da liberdade individual, e que o Estado brasileiro, como está “organizado”, praticamente tira dos pobres para dar aos ricos (e não é?). Segundo ele, as ações afirmativas promovem um tipo de inclusão de “má qualidade”, uma vez que exacerbam o preconceito e não garantem, de fato, que negros e brancos tenham, se não as mesmas oportunidades, o mesmo prestígio diante de um mercado competitivo. Ele advoga as cotas sociais, que seriam mais amplas e, ao fim e ao cabo, incluiriam os negros, uma vez que são os mais pobres. Também houve controvérsia em relação à redução da maioridade penal, à qual Brown é contra. Mas, como eu disse, a diferença não se dá propriamente em termos somente de ideias.

Brown, como anfitrião, soube conduzir com maestria a conversa. Fernando, a quem pode-se acusar de muitas coisas, menos de covardia, expôs o que pensa de maneira cristalina – uma de suas maiores virtudes e eis sua vocação política

Thomas Sowell – que Brown deveria ler –, em seu necessário Conflito de visões, diz que “visões são como mapas que nos guiam através de um emaranhado de complexidades desconcertantes”. No entanto, apesar de “indispensáveis, [são] perigosas, precisamente porque nós as confundimos com a própria realidade. O que tem sido deliberadamente negligenciado pode de fato se revelar insignificante quanto ao efeito que causa nos resultados. Isso deve ser testado com provas”. Ou seja, as ideias de Brown e Holiday, isoladas, não significam muita coisa, pois há justificativas, digamos, plausíveis para todas as posições; afinal de contas, o diagnóstico, se não é igual, é bastante parecido. Os problemas existem e devem ser enfrentados; entretanto, as visões de mundo podem nos levar a propostas absolutamente esdrúxulas de solução. O Estado é máquina de moer carne? Sim. Diante disso, as cotas raciais são a melhor forma de estancar essa moagem? A resposta não é óbvia. Tampouco em relação à redução da maioridade penal. Pois, como diz Sowell:

“Em geral, interesses específicos prevalecem, uma vez que podem mobilizar apoio do público em geral a visões que podem ser evocadas a favor ou contra uma determinada política. Do ponto de vista da motivação pessoal, as ideias podem ser simplesmente as peças com que os interesses específicos, demagogos e oportunistas de vários tipos fazem o jogo político. Porém, a partir de uma perspectiva mais ampla da história, essas pessoas e organizações podem ser vistas como simples veiculadoras de ideias, muito semelhantes a abelhas que carregam inadvertidamente o pólen, desempenhando um papel vital no grande esquema da natureza enquanto buscam um propósito individual muito mais estrito.

Nesse sentido, Fernando Holiday tem, na definição de Sowell, uma visão restrita do ser humano, crendo que – e aqui a citação é do founding father Alexander Hamilton – “é próprio de todas as instituições humanas, mesmo aquelas mais perfeitas, ter defeitos assim como qualidades – tanto propensões ruins quanto boas. Isto decorre da imperfeição do Instituidor, o Homem”. Já Brown tem – teoricamente, pois nem creio que, na prática, ele pense assim – uma visão irrestrita do ser humano, crença segundo a qual “o homem era capaz de sentir diretamente as necessidades das outras pessoas como mais importantes do que as suas próprias e de agir, portanto, de forma imparcial, mesmo quando estavam presentes seus próprios interesses ou os de sua família. Isso não significava uma generalização empírica sobre a forma como a maioria das pessoas se comportava no momento. Significava uma afirmação da natureza basilar do potencial humano”.

Ou seja, a visão restrita tem uma perspectiva, digamos, prudencial – e, de certo modo, pessimista – da natureza humana, pensando ser melhor “a ponderação cuidadosa das compensações” à esperança numa suposta bondade intrínseca do ser humano. Por outro lado, “na visão irrestrita, em que o aperfeiçoamento moral não tem limite fixo, a prudência tem uma ordem de importância menor”. E, nessa visão, “está implícita a ideia de que o potencial é muito diferente do que é real, e isso significa que existe para aprimorar a natureza humana rumo a seu potencial, ou que tal recurso pode ser desenvolvido ou descoberto, para que o homem faça a coisa certa pela razão certa, em vez de agir por posteriores recompensas psíquicas ou econômicas”.

Trocando em miúdos, qualquer discussão política deve levar em consideração as visões de mundo de quem discute, pois a solução dos problemas precisa, necessariamente, estar de acordo com a realidade. Desse modo, ouso dizer que, caso Brown e Holiday atentassem para isso, penso que suas ideias seriam muito mais convergentes do que divergentes, como Brown fez questão de salientar repetidas vezes. No mais, como eu disse, na medida do possível a entrevista foi ótima e vale ser vista.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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