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O estudo zureta de Zurique e a abertura das escolas
| Foto: Jonathan Campos/Arquivo/Gazeta do Povo

“Manipulação e uso tendencioso das informações não produzem apenas fatos fictícios, mas também pessoas fictícias.” (Thomas Sowell)

Esta nobilíssima Gazeta do Povo produziu um editorial de domingo propondo-nos um “amplo pacto pela abertura das escolas”. Achei excelente. Só faltou combinar com as quatro agentes de inspeção escolar da escola pública em que leciono, que pediram remoção – mudaram de escola – essa semana; estamos praticamente sem funcionários para organizar as entradas, saídas e intervalos dos alunos. Numa escola particular, isso seria facilmente solucionado com a contratação rápida de uma empresa terceirizada ou mesmo de funcionários novos – num país em que o desemprego é a regra, é sempre fácil contratar pessoas para atividades que não exigem habilidades muito específicas.

Talvez devêssemos combinar com os alunos também, pois, nas três semanas de aulas presenciais que tivemos esse ano, vi alunos tomando água no gargalo da mesma garrafa, usando máscara de forma inadequada ou mesmo tirando-a por qualquer motivo, brincando de “lutinha”, correndo pelos corredores e se aglomerando dentro e fora das salas de aula – salas, vale salientar, sem ventilação adequada. Álcool em gel? Quatro totens para uma previsão de 250 alunos só no período matutino (a escola tem três períodos). Será esse o recomendado pelos protocolos sanitários? Banheiros – aliás, sem plural, pois só há um banheiro masculino e um feminino para os alunos – sem papel higiênico e sabonete também são comuns. Mais alguns detalhes: não há álcool em gel nas salas de aula para os professores; as máscaras e face shields que recebemos são de péssima qualidade (uso as minhas, que comprei); e não há limpeza das salas nos intervalos (nem das aulas, nem no lanche).

A realidade das escolas públicas brasileiras não garante, de maneira alguma, o retorno seguro de professores, alunos e profissionais de educação ao trabalho presencial

Tais problemas, assim como uma infinidade de outros, mais ou menos complexos, fazem parte da duríssima realidade da escola e da educação públicas brasileiras – que os adeptos das ideias liberais, até ontem, pareciam saber, inclusive fazendo um esforço para que o sistema de vouchers e o ensino domiciliar fossem legalizados no país, para que pais pudessem buscar uma melhor educação para seus filhos.

Mas alguma coisa aconteceu. Tenho visto muitos liberais e conservadores (e tomo a liberdade de colocar a Gazeta do Povo, por suas convicções, nesse espectro) endossando a ideia de abertura das escolas sob a justificativa de ser uma atividade essencial, como se alguém achasse que não é. Mais do que isso, como se o problema fosse esse. É o que parece dizer o editorial quando afirma: “Se escolas seguem fechadas enquanto tantas outras atividades voltaram a funcionar, ainda que com todas as restrições de higiene e distanciamento exigidas para evitar surtos de Covid-19, é porque poder público e sociedade civil organizada, apesar do discurso, não incorporaram na prática a noção da escola como atividade essencial”.

Não sei, de verdade, se há alguém que não acredita que a educação é uma atividade absolutamente essencial. Agora, o que significa isso? Apenas a adoção de um termo decretado pelo governo faz com que as coisas passem do papel à existência? Teríamos, de repente, adotado a postura daqueles que tanto criticamos? A postura filosófica do famigerado personagem Humpty Dumpty, de Alice através do espelho? Teríamos substituído a prudência pela narrativa vazia de atividade essencial? Como garantir, como em seguida diz o editorial, o retorno às aulas “do modo mais seguro possível” ou mesmo “aplicando protocolos sanitários rigorosos” com a realidade descrita por mim no primeiro parágrafo? Talvez uma justificável resistência de conservadores e liberais aos geralmente improdutivos e ideológicos sindicatos – chamados de “certos grupos de pressão” pelo editorial – tenha obnubilado a visão de meus confrades.

A verdade inescapável é: a realidade das escolas públicas brasileiras não garante, de maneira alguma, o retorno seguro de professores, alunos e profissionais de educação ao trabalho presencial. E isso é um fato, essa é a realidade. E a diferença fundamental entre essa atividade essencial e todas as demais é que as escolas são um ambiente composto, em sua imensa maioria, por crianças e adolescentes – por mais que insistam em fingir que só há crianças, a fim de adotarem um discurso emocional e justificarem uma suposta baixa transmissibilidade; esse público, todos sabem, é muito mais refratário ao cumprimento dos protocolos sanitários. Daí, se com funcionários em número suficiente para realizarem a fiscalização do ambiente escolar, a situação já não é fácil – dou aulas na rede privada também e sei como é –, imagine, caro leitor, com a defasagem desses profissionais, que é a situação de muitas escolas públicas, o que ocorrerá?

A conversa, a meu ver, precisa começar aqui. Se vamos expor conscientemente esse público, nessas circunstâncias, sob a justificativa de que outros profissionais (médicos, enfermeiros, comerciantes etc.) estão expostos, que façamos sem mascarar a realidade.

Outro detalhe me causou espécie nos últimos dias: de repente, conservadores e liberais esqueceram das lições de Thomas Sowell e, mediante um discurso de autoridade absolutamente estranho à realidade brasileira (Zurique virou a capital do mundo), passaram a citar, em conjunto com o governo de SP, um estudo produzido por pesquisadores brasileiros radicados na Universidade de Zurique (o estudo foi independente e não da própria universidade), que concluiu que a abertura das escolas não havia aumentado o número de casos de Covid-19 no Brasil. O estudo diz, conforme reproduzido em matéria nesta Gazeta do Povo, que “dos 645 municípios do estado de São Paulo, 133 reabriram as escolas entre outubro e dezembro de 2020. Dois decretaram a volta às aulas e depois voltaram atrás. Sobrou, então, uma amostragem bastante confiável: de um lado, 131 cidades com instituições de ensino abertas”, e que “mesmo com 1.700 escolas reabertas e 2 milhões de alunos voltando às atividades presenciais, não houve diferenças significativas entre as cidades que abriram as escolas, em relação às que não abriram”.

O problema inicial é que o estudo foi produzido no ano passado, entre os meses de outubro e dezembro, quando as escolas haviam aberto somente para “aulas de reforço e recuperação, orientação de estudos, tutoria pedagógica, plantão de dúvidas, avaliação diagnóstica e formativa, atividades esportivas e culturais e acolhimento emocional”, com frequência baixíssima. Os dados sobre “1.700 escolas reabertas e 2 milhões de alunos” não são reais, foram fornecidos pelo secretário de Educação como uma estimativa.

Em fevereiro do ano corrente, quando as aulas, de fato, foram retomadas – com cerca de 4,5 mil escolas –, a situação já não era a mesma que em 2020. Aliás, a adesão dos alunos foi baixa, pois os pais não se sentiram confiantes em mandar os filhos à escola. Eu mesmo dei aulas para, no máximo, 10% de alunos em cada turma. Entretanto, os casos aumentaram entre professores, profissionais de educação e alunos. Sem contar a manipulação de dados no Boletim Epidemiológico divulgado pela Secretaria da Educação. Resultado: voltamos para o ensino remoto – aliás, ressalto que dei aulas on-line durante todo o ano de 2020, ininterruptamente, até o dia 22 de dezembro, nas duas escolas em que leciono.

Mas na verdade a ansiedade pela volta às aulas está partindo, sobretudo, de grupos de pais de escolas de elite de São Paulo, cujas mensalidades chegam a R$ 10 mil. Desse jeito, até eu. Cheguei a entrevistar umas das fundadoras de tal movimento, que – coisa rara – me tirou do sério tamanha foi a quantidade de platitudes que disse para defender sua posição. Já analisei a situação dramática da educação brasileira em duas séries de artigos – aqui e aqui – e posso dizer, com certeza, que essa senhora não sabe o que está falando. Perdoe-me a franqueza, atencioso leitor.

A questão não é se as aulas presenciais precisam voltar ou não. Devem voltar. O retorno é imperativo. A questão é: como? A que custo?

Mas o que me espantou mesmo foi o total esquecimento, entre nós, que estamos à margem direita do rio, das advertências de Sowell, que diz, em Os intelectuais e a sociedade:

“A manipulação dos números pode tornar quaisquer dados estatísticos consistentes com determinada visão, e a manipulação de outros números ou até mesmo dos mesmos números, vistos ou selecionados de forma diferente, pode produzir dados consistentes com a visão oposta. Mas somente quando os números estão a serviço de uma visão dominante é que ficam propensos a ser aceitos cegamente, sem passar pelo crivo da crítica e sem considerar outras estatísticas, as quais podem contar uma história um tanto quanto diferente.”

A questão não é se as aulas presenciais precisam voltar ou não. Devem voltar. O retorno é imperativo. A questão é: como? A que custo? O governo poderia propor um retorno em escala, dando preferência à alfabetização e aos anos iniciais do ensino fundamental. Mas não, quer uma política de tudo ou nada. Poderia ter preparado melhor as escolas durante o ano de 2020, mas também não fez, achou que jogar milhões dentro da burocracia resolveria o problema. Não resolveu. Por quê? Eu sei: a educação estatal é feita para não funcionar. Quem parece ter esquecido disso são meus confrades.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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