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O educador Ernesto Carneiro Ribeiro.
O educador Ernesto Carneiro Ribeiro.| Foto: Reprodução/Domínio público

“Compare Machado de Assis a Ernesto Carneiro Ribeiro. O primeiro é o escritor solitário, sem escola, sem continuadores, sem sociedade. O segundo é o agremiativo diretor de colégio; o gregário, o mentor, o guia. Enquanto o carioca escreveu os seus livros, o baiano lavrou as suas almas. Fizeram ambos prolixa e minuciosa obra dʼarte: Machado fez as suas páginas, Carneiro as suas vocações.” (Pedro Calmon)

“Aos oitenta anos, ei-lo ainda a dirigir as novas legiões nas pugnas da inteligência; ei-lo alçado como um guião a que seguem gerações dos que aqui aspiram o saber e buscam as lições das virtudes patrióticas.” (Theodoro Sampaio)

Em 19 de setembro deste ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, o celebrado educador Paulo Freire completou 100 anos. Com isso, uma cruzada hagiográfica se iniciou e todos, tendo lido ou não suas obras, gostando ou não dele, reagiram, pois, no Brasil atual, é impossível ficar indiferente a Paulo Freire – seja para venerá-lo e dizer amém a tudo que ele disse e escreveu, seja para demonizá-lo em absoluto – inclusive em razão das discussões a respeito da famigerada doutrinação ideológica nas escolas e a culpa que lhe atribuem. Já tratei disso aqui, nesta Gazeta do Povo – no quarto e último artigo de uma série sobre educação –, de modo que não me estenderei.

O que quero, na verdade, é propor um novo patrono da educação brasileira, não só por sua história de vida e conquistas acadêmicas espetaculares, mas também pelos frutos que gerou. Estou falando do imenso Ernesto Carneiro Ribeiro, simplesmente um dos maiores brasileiros de todos os tempos.

Ernesto Carneiro Ribeiro continua sendo uma figura obscura para o grande público, que perde muito por não ter como referência alguém de tamanha envergadura

Ernesto Carneiro Ribeiro é um daqueles personagens emblemáticos da história brasileira; é alguém cuja memória deveria ter sido preservada, mas não foi. Não que ele seja totalmente esquecido; em 2014, por ocasião de seu 175.º aniversário, o Google até fez um doodle em sua homenagem. Não obstante, ele continua sendo uma figura obscura para o grande público, que perde muito por não ter como referência alguém de tamanha envergadura. E – por que não dizer? –, para a juventude negra, ter um modelo de verdadeira representatividade.

Ernesto Carneiro Ribeiro nasceu em 12 de setembro de 1839, na Ilha de Itaparica, na Bahia, filho de José Carneiro Ribeiro, que era escrivão de órfãos, e Claudiana Ramos – os dois, netos de escravos. Levavam uma vida muito modesta; no entanto, desde pequeno Carneiro Ribeiro demonstrou grande habilidade para os estudos. Em 1851 (quando tinha 12 anos, portanto), seu pai, sabendo da importância da educação, o matriculou nas aulas de Latim. Dois anos depois o enviou para Salvador a fim de realizar os estudos preparatórios no chamado Liceu Provincial, onde se destaca sobremaneira. É digno de nota que, longe da família, ainda aos 14 anos, começa dar aulas particulares para custear os seus estudos. Curiosamente, como diz Danilo Carneiro Ribeiro, seu neto e biógrafo, ele gastava grande parte do dinheiro que recebia em velas de carnaúba, para poder estudar à noite. Dormia muito tarde; às vezes virava à noite acordado, estudando. Tudo isso pela vontade e pela necessidade de aprender.

Aos 18 anos, em 1857, enquanto ainda estava no curso preparatório para medicina – pois é, negro e médico no século 19 –, algo extraordinário acontece: é convidado para assumir a cátedra de Filosofia do Colégio São João, em substituição a um grande educador da época, o professor Salustiano Pedrosa. Um ano depois, se matricula na faculdade de Medicina, graduando-se em 1864, com uma tese dedicada a analisar a Medicina e suas relações com as Ciências Filosóficas. A propósito, a Filosofia permeará toda a vida e obra de Ernesto Carneiro Ribeiro. Ao lermos seus escritos, é perceptível a grande habilidade filosófica que possuía.

Ainda em 1858, ou seja, no mesmo ano em que entra para a faculdade de Medicina, é convidado para lecionar Francês e Inglês no famoso Ginásio Baiano, do ilustre precursor do movimento abolicionista Abílio César Borges. Posteriormente, ainda assume as aulas de Filosofia e torna-se vice-diretor. E é no Ginásio Baiano que, provavelmente, se dá a maior contribuição de Ernesto Carneiro Ribeiro para a história brasileira, porque é lá que ele leciona para algumas das maiores mentes que esse país já teve. Ele foi professor de ninguém menos que Rui Barbosa, Clóvis Bevilacqua, Rodrigues Lima e Castro Alves.

Em 1871, ainda lecionando no Ginásio Baiano, entra na disputa pela cátedra de Gramática Filosófica do Liceu Provincial, colégio no qual havia estudado. O que ocorre nessa nessa disputa é interessantíssimo, por isso vale mencionar. Seu “adversário” era outro grande professor da época, Guilherme Pereira Rebelo, que era seu amigo. E eles foram tão bem nos exames que a disputa teve de ser resolvida por sorteio, que se deu da seguinte maneira: eles colocaram, dentro de uma caixa, dois papéis, com as frases “Tive mérito e não tive sorte” e “Tive mérito e a sorte me ajudou”. Carneiro Ribeiro tirou o “Tive mérito e a sorte me ajudou” e ficou com a vaga, mas os dois celebraram, juntos, a entrada do amigo para a cátedra de Gramática Filosófica do Liceu Provincial. Vale lembrar que, até aquele momento, Carneiro Ribeiro ainda exercia a medicina; em 1887 disputou uma vaga para a cadeira de Psiquiatria na Faculdade de Medicina. Foi aprovado, mas decidiu não assumir.

No Liceu Provincial, onde lecionou por 30 anos (até 1902), foi professor de nada menos que dez disciplinas, a saber: Latim, Língua Portuguesa, Francês, Inglês, Botânica, História Natural, História do Brasil, Literatura, Filosofia e Zoologia. A partir desse momento, por força de sua verdadeira vocação, abandona a medicina para tornar-se, integralmente e no sentido pleno do termo, educador (falaremos disso abaixo).

No Ginásio Baiano, Ernesto Carneiro Ribeiro leciona para algumas das maiores mentes que esse país já teve. Ele foi professor de ninguém menos que Rui Barbosa, Clóvis Bevilacqua, Rodrigues Lima e Castro Alves

Em 1873, funda, com o cônego Emílio Lopes Freire Lobo, o Colégio Bahia. Pois bem! Veja, atento leitor: nosso nobre educador, além de lecionar no Liceu Provincial, no Ginásio Baiano e em outras escolas, decide fundar sua própria escola. Há um comentário interessante sobre a atividade de Ernesto Carneiro Ribeiro no Colégio Bahia, feito por um membro da Academia Brasileira de Letras – o jornalista e ensaísta Constâncio Alves –, que vale a pena mencionar:

“Às obrigações de mestre sacrificava tudo, e, como mestre, nenhum foi mais conceituado. Nada lhe faltou para ser o mestre como deve ser: o interesse pela inteligência e pelo moral da sociedade, o amor ao estudo e o vigor físico com que resistiu por mais de meio século aos encargos de uma profissão das mais fatigantes. De estatura acima da média, cheio de corpo, largo de ombros, frontal majestoso, rosto moreno e de belas feições, enquadrado em barbas espessas e bem negras, voz forte e de excelente timbre. Era um raro tipo de homem robusto e uma respeitável figura de mestre, capaz de brandura e de benevolência. Era o respeito o que mais inspirava aos seus alunos, e foi por ele que conquistou o prestígio para o seu colégio. Prestígio sustentado pela seriedade de seus atestados, que, perante as mesas de exame, eram recomendações e equivaliam a provações antecipadas”.

Em 1874, 11 anos após fundar o Colégio Bahia com o cônego Emílio Lopes Lobo, decide fundar o seu próprio colégio, sozinho. Nasce, então, o Ginásio Carneiro Ribeiro (detalhe: ele ainda não deixa o colégio de Abílio César Borges). É em seu próprio liceu que o mestre lecionará pelo resto de sua vida, até o dia de sua morte, em 13 de novembro de 1920, aos 81 anos. Ernesto Carneiro Ribeiro deu aulas por 63 anos ininterruptos. Impressionante, não?! E ainda escreveu, muito.

Em 1890 publica uma das mais importantes gramáticas da língua portuguesa, os Serões Gramaticais. Trata-se de uma gramática de cunho mais filosófico, mas um grande marco da linguística e da gramática brasileiras. Está esgotada, infelizmente, mas é possível encontrá-la em sebos.

Em 1902, quando tinha 63 anos, foi convidado, por José Joaquim Seabra (seu ex-aluno), então presidente da Comissão do Código Civil na Câmara dos Deputados, para revisar o Código Civil que tinha sido redigido por outro de seus ex-alunos, Clóvis Bevilacqua. Na época ele estava em férias, viajando com sua família na Ilha de Itaparica; mas Joaquim Seabra vai até ele e implora para que aceite o trabalho. O nobre linguista tenta se desvencilhar e recusar, pois o prazo era de apenas quatro dias! Isso dava – quem diz é Rui Barbosa – um minuto e 26 segundos para cada artigo (muitos deles com mais de uma página). Um trabalho impossível para uma pessoa normal, mas não para alguém da estatura intelectual de Carneiro Ribeiro. Ele acaba por aceitar o desafio.

Publicados, o Código e as considerações da revisão de Carneiro Ribeiro, seu discípulo Rui Barbosa – para total espanto do mestre –, escolhido pelo Senado para emitir um parecer, investiu duramente contra os dois. Seu texto é publicado em 27 de julho de 1902 no Diário do Congresso, em que faz críticas pesadíssimas tanto ao Código quanto à revisão. Dizem os comentaristas que sua atitude foi fruto de inveja, pois talvez quisesse ter feito a revisão ou mesmo escrito o código; ou, ainda, porque não gostava de Joaquim Seabra. O fato é que nunca saberemos as reais motivações de Rui Barbosa, cuja estima por Carneiro Ribeiro era real e recíproca. Mas o mestre decide responder. Escreve as Ligeiras observações sobre as emendas do Dr. Rui Barbosa feitas à redação do projeto do Código Civil, em que diz, dentre outras coisas, que “das emendas do ilustrado senador, umas há que são justas; outras, injustas e infundadas; algumas erradas”.

É curioso que tenhamos escolhido Paulo Freire como Patrono da Educação, e sua Pedagogia do oprimido como o grande referencial educacional no Brasil, e nem sequer conheçamos Ernesto Carneiro Ribeiro

Rui Barbosa, conhecido por seu orgulho, não se dá por satisfeito e publica, em 1903, a Réplica às defesas da redação do projeto da Câmara dos Deputados. A crítica é ainda mais mordaz, apesar de ater-se somente às questões da gramática normativa – Rui não era filólogo, como seu mestre. Carneiro Ribeiro, ao ler a crítica, se entristece deveras; no entanto, decide responder. Sua esposa tenta demovê-lo, pois já era um homem avançado em idade. Mas ele insiste, dizendo: “Vou responder ao Rui embora isso me custe a vida”. A resposta demora um ano e dois meses para ser escrita e publicada. É uma obra que vai sendo gestada aos poucos, e ele responde às críticas ponto por ponto, num volume de mais de 900 páginas. Sobre o imenso trabalho para a elaboração dessa resposta definitiva, seu neto-biógrafo produz uma página muito tocante:

“Já avançado em anos, trabalhara noites a fio na monumental obra. De dia, ei-lo preocupado com os assuntos colegiais, não descansando e não alterando seu horário. Das cinco da manhã às dez da noite dedicava-se por inteiro ao mister de professor. À noite, na calada das horas, trabalhava na sua resposta, às vezes até as três horas ou mais. Outras vezes levantava-se às duas da manhã e, pronto como quem vai sair, dirige-se à biblioteca da casa residencial e escreve até as cinco da manhã. Emenda pouco do que escreve. Sereno e impávido, vai operando o milagre da contradita. A mesa em que trabalha está cheia de livros. Destaca-se daquela mistura de tratados glotológicos, de clássicos, de medicina legal e de direito, o Corpus Juris Civilis. Enganavam-se os que pensaram que para a réplica não houvesse resposta. Aquele ano e dois meses, Carneiro Ribeiro passou a elaborar a redação do projeto do Código Civil e a réplica do Doutor Ruy Barbosa”.

Em 1905, sua tréplica é publicada, com o título A redação do Projeto de Código Civil e a réplica do Dr. Ruy Barbosa. Num trabalho extremamente minucioso, o mestre coloca o pupilo em seu devido lugar. Trata-se de um dos grandes monumentos da língua portuguesa, um verdadeiro tratado linguístico, filológico e filosófico, uma obra de referência ainda hoje.

Depois de alguns anos, mestre e discípulo se reencontram; e o que poderia ser um encontro de rusgas, discussões e ressentimentos transforma-se na reunião de dois grandes espíritos, que se amam e se admiram. Eles se enlaçam num abraço apertado e Rui diz: “Meu velho mestre”; ao que Carneiro Ribeiro responde: “Meu caro Rui”; um abraço prolongado e afetuoso de reconciliação.

Por fim, caríssimo leitor, tratemos brevemente dos motivos pelos quais considero que Ernesto Carneiro Ribeiro deveria ser o verdadeiro patrono da educação brasileira. É curioso que tenhamos escolhido Paulo Freire para tal posto, e sua Pedagogia do oprimido como o grande referencial educacional no Brasil, e nem sequer conheçamos Ernesto Carneiro Ribeiro. O fato é que o mestre baiano pode confrontar o discurso político-partidário de Paulo Freire – que muitas vezes relega a educação a um segundo plano para tratar de questões sociais. A pedagogia de Carneiro Ribeiro, o seu modo de pensar a educação, está, sobretudo, num ensaio sublime – na verdade, uma conferência – chamada A educação e as suas relações com a moral. Trata-se uma conferência que ele deu em 21 de abril de 1915, no Instituto Histórico e Geográfico da Bahia, em que nos apresenta, de modo cristalino, sua compreensão do que é ser professor e do que é ser educador.

Para Carneiro Ribeiro, o professor é alguém preocupado com a mera instrução, com as disciplinas em seu aspecto técnico. Já o educador é modelo exemplar, educa pela e para a moralidade. Carneiro Ribeiro defende que a escola deve complementar a educação que os pais dão em casa. Entretanto, para isso, o professor deve ser um exemplo de retidão moral. Não se trata daquilo que hoje conhecemos como doutrinação, em que o professor incute nas crianças e adolescentes teorias que vão de encontro ao que aprendem no ambiente familiar. Mas de ser um modelo de virtude moral, respeitável e inspirador. O professor deve ser alguém em quem os alunos se inspiram. Ele explica: “O professor encaminha o aluno para os princípios científicos, o educador conduz aos princípios do dever”. Carneiro Ribeiro tem a preocupação integral, de que, juntas, escola e família formarão um ser humano responsável; mas não de uma responsabilidade superficial ou coletivista, mas de um profundo senso de civismo e virtudes fundamentais. O mestre afirma, categoricamente:

“Separar, assim, as faculdades ou capacidades naturais do espírito, cujo desenvolvimento na vida normal do homem se não pode conceber insuladamente, segundo o atesta a observação e o confirma a filosofia, é ou considerar a educação falha e incompleta, sem as irradiações das ideias que tanta luz projetam nas determinações da vontade, nos hábitos e na formação do caráter, nos costumes e em todos os atos da atividade livre, ou privar a inteligência e os seus produtos daquela feição moral que, como o óleo purificador, se infiltra em todas as regiões e recessos do intelecto, abrandando, dulcificando, suavizando a vida do agente moral em todas as suas relações da sociedade de que é membro”.

O mestre baiano pode confrontar o discurso político-partidário de Paulo Freire – que muitas vezes relega a educação para um segundo plano para tratar de questões sociais

Ou seja, não se deve privar a educação desse componente moral que pode abrandar, dulcificar e suavizar o intelecto, de modo que a pessoa não só aprenda um conteúdo científico das disciplinas, mas também aprenda o conteúdo moral daquele ensino ou da própria educação. É, no sentido profundo do termo – não nas fabulações ideológicas que circulam por aí –, educar para a verdadeira cidadania. Fazer o aluno compreender que ele é responsável pelo lugar onde vive, que o mundo já existia antes de ele nascer, e que deve continuar existindo depois que ele morrer. Não se deve destruir esse legado histórico. A insistência de Carneiro Ribeiro, de que o professor seja, ele próprio, na sua vida, um símbolo de retidão moral tem como objetivo despertar isso nos alunos. Nesse sentido, retirar a moral da educação é diminui-la. Ele, inclusive, acusa a modernidade de agir assim:

“A ascendência que, nas sociedades modernas, habitualmente, se dá às faculdades intelectuais em relação à vontade, aos sentimentos e a todos os atos donde depende o caráter e a moralidade, é de efeito dissolvente e desastroso na vida da coletividade. Essa subordinação absoluta da vontade à inteligência, da virtude e dos bons costumes ao talento e ao saber, enerva e atrofia os sentimentos mais generosos da natureza humana: o heroísmo, o desinteresse, a abnegação, o altruísmo, o sacrifício ao dever e ao bem. A benevolência, a beneficência, a filantropia, a simpatia, a compaixão, a piedade, as expressões afetuosas e de carinho para com os náufragos e os vencidos na sorte, a amizade, o amor, o patriotismo, a nobreza, a grandeza de alma, a beleza moral, tudo, tudo foge, desaparece e morre diante de um absorvente egoísmo, que revigora a inteligência e o talento, mas sufoca e mata todos os germes da grandeza moral, do coração e da virtude”.

A insistência de Carneiro Ribeiro, de que o professor seja, ele próprio, na sua vida, um símbolo de retidão moral tem como objetivo despertar isso nos alunos. Nesse sentido, retirar a moral da educação é diminui-la

Quando vemos o jovem de hoje, por exemplo, totalmente desligado do mundo no qual está inserido, como um átomo solto, como alguém que não se importa com nada, segundo Carneiro Ribeiro é justamente por ter se desatrelado o conhecimento, digamos, científico, do conhecimento moral. C.S. Lewis, em A abolição do homem, dirá exatamente isso dos “homens sem peito”, cuja mente e vísceras deixaram de ser mediadas pelo coração. E, para recuperar a retidão e ensinar as virtudes – a magnanimidade, como diz Lewis –, é necessário que o professor saiba exatamente quem é, que se examine enquanto modelo moral. Diz o mestre baiano:

“A educação, pois, é obra dificílima, de paciência, de perseverança, de sagacidade, de amor e de dever. Para compreender a santa missão de educar, deve o educador, antes de mais nada, mirar-se no límpido espelho, onde se retifica sua própria pessoa, com todos os seus atributos bons ou maus. À sua mente deve incessantemente ocorrer o nosce te ipsum [conhece-te a ti mesmo] da sabedoria antiga, numa espécie de exame de consciência ele perlustrará e inquirirá todas as regiões de sua mente; falará esse mestre interior, magister luminum, sempre verdadeiro e fiel, para medir a capacidade e largueza de suas energias a fim de não arriscar a obra do futuro nacional. De feito, antes de conhecer nas aptidões do menino, seus caprichos, suas faculdades, suas inclinações naturais, seus hábitos, a fisionomia especial de toda natureza mental, os desvios que fatores lhe tenham imprimido nos primeiros passos da educação no intuito de emendá-los, de corrigi-los, em harmonia com as boas normas do bom senso e da razão, deve o bom mestre fazer um refletido estudo de autopsicologia, analisando com aturado afinco, ciente e conscientemente, a natureza de suas próprias faculdades, seus instintos, seus apetites, suas impulsões naturais, seus assomos de cólera, o desabrido de suas paixões, suas simpatias e antipatias infundadas, seu azedume e irritabilidade descabida e injusta, tudo medindo, tudo aquilatando e ponderando”.

Com essa citação de extraordinária honestidade intelectual e moral, quero encerrar esse artigo, que já se alonga, propondo – embora tenha pouca esperança que isso ocorra – que substituamos Paulo Freire e sua pedagogia revolucionária e libertadora (no sentido estritamente social do termo) por Ernesto Carneiro Ribeiro, homem negro, genial e impoluto, cujos frutos podem ser vistos, ainda hoje, não só nas mentes brilhantes que formou, mas na imortal obra que produziu, capaz de erigir uma sociedade fundamentada na educação enquanto exercício da retidão moral e das virtudes. Uma educação, por assim dizer, civilizadora.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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