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Cena de “Riders of Justice”, de Anders Thomas Jensen.
Cena de “Riders of Justice”, de Anders Thomas Jensen.| Foto: Divulgação

“Um lance de dados jamais abolirá o acaso.” (Stéphane Mallarmé)

Imagine uma espécie de comédia de erros. Acresça a isso uma boa dose de drama, niilismo e espiritualidade kierkegaardiana; derrame doses cavalares de sarcasmo e violência. Por fim, amarre tudo com uma tragédia familiar que une personagens bizarras e de certa ingenuidade inconsequente, em vingança... e amor. Pois essa é a fórmula de Riders of Justice – que, como de costume, no Brasil ganhou um título hediondo: Loucos por Justiça – de Anders Thomas Jensen.

O filme – que está com cinco estrelas (96% de aprovação) no Rotten Tomatoes –, estrelado pelo genial Mads Mikkelsen (de A Caça, Druk e da série Hannibal), é um desses filmes que só poderiam ter saído da mente cáustica de um diretor dinamarquês. Anders Thomas Jensen – sobre quem já falei aqui – é mais conhecido como roteirista, sobretudo por sua prolífica e excepcional parceria com a conterrânea Susanne Bier (em filmes espetaculares como Corações Livres, Irmãos, Depois do Casamento e Em um mundo melhor), mas também se revela um excelente diretor. É uma pena que o seu As maçãs de Adam, um filme muito, muito bom, seja tão pouco conhecido. Jensen é um exímio contador de histórias, que consegue nos conduzir, por meio de situações que beiram o nonsense, a profundas reflexões sobre a vida, a morte, o amor, o luto, os vícios etc. Seus personagens, tão marcantes quanto as mais emblemáticas figuras de David Lynch e dos Irmãos Coen, e marcados por traumas, são um verdadeiro exemplo daquela força que se aperfeiçoa na fraqueza.

(Contém spoilers)

Riders of Justice conta a história de Markus (Mads Mikkelsen), sua filha Mathilde (Andrea Heick Gadeberg) e a tragédia que os une aos nerds carismáticos – e atrapalhados – Otto (Nikolaj Lie Kaas), Lennard (Lars Brygmann) e Emmenthaler (Nicolas Bro). Após a morte da esposa em um trágico acidente de trem, Markus, um oficial do exército dinamarquês que está em missão no Oriente Médio, retorna para cuidar da filha e tem de lidar não só com o luto, mas com o fato de ter permanecido muito tempo longe da família.

Anders Jensen é um exímio contador de histórias, que consegue nos conduzir, por meio de situações que beiram o nonsense, a profundas reflexões sobre a vida, a morte, o amor, o luto, os vícios

Otto, além de um malsucedido estatístico, é sobrevivente do mesmo acidente de trem, assim como Mathilde. Por uma série de inferências que constrói a partir da notícia de que um ex-membro de um famigerado grupo de motoqueiros, os Riders of Justice (estilo Sons of Anarchy), estava no trem com seu advogado e testemunharia contra o grupo, Otto vai à polícia expor sua desconfiança de que não se tratava de um acidente. Ao ser ignorado, procura Markus e conta a ele sua tese. Markus decide se vingar. Para isso, precisa encontrar o assassino e pede a ajuda de Otto, que recorre a seus amigos hackers Lennard e Emmenthaler.

Pois é o que temos, então: uma adolescente de luto; seu pai militar que, além do luto, agora está cheio de ódio; e três nerds pernósticos. Um sexto personagem, absolutamente singular, soma-se ao grupo posteriormente. A combinação não poderia ser mais esdrúxula – e explosiva. De testemunhas a cúmplices, de cúmplices a parceiros, de parceiros a amigos, o grupo se embrenha numa perseguição ao grupo de motoqueiros, enquanto, às apalpadelas, o amor vai curando feridas.

O filme une, como eu disse, vários gêneros e elementos distintos que dificilmente casariam num filme; mas, com o característico sarcasmo nórdico, vai muitíssimo bem. Anders Thomas Jensen nos toma pela mão de uma maneira tão cativante que nem nos damos conta dos eventuais “furos” na trama. Tudo faz sentido porque nada faz; seus filmes estão quase no domínio do mito, da fantasia. Por isso, como diz Chesterton, o que importa não são os “estatutos separados da terra dos elfos”, mas o “espírito total de sua lei”. A moralidade fundante importa, não como a descobrimos. De certo modo, ele repete a dose de As maçãs de Adam e Men and Chicken, que são filmes igualmente bizarros mas, ao mesmo tempo, muito envolventes, nos quais o mais cruel ceticismo caminha ao lado do milagre, e as mais estranhas perversões humanas são vistas do ponto de vista da graça divina.

O antideterminismo dos filmes de Jansen nos coloca diante não propriamente do acaso – como, muitas vezes, seus personagens querem nos fazer crer –, mas daquilo que o filósofo espanhol Ortega y Gasset chama de circunstância, e que está tão bem reproduzida em sua famosa máxima “eu sou eu e minha circunstância”. No caso de Riders of Justice, tudo o que acontece com os personagens nos leva à continuação da máxima, que diz: “se não salvo a ela, não me salvo a mim”. Ortega nos convida a olharmos aquilo que ultrapassa o nosso eu e nos coloca em contato com a realidade que nos circunda e que, mesmo exterior a nós, nos completa. Diz o filósofo:

“O homem rende o máximo de sua capacidade quando adquire plena consciência de suas circunstâncias. Por elas ele se comunica com o universo. A circunstância! Circum-Stantia! As coisas mudam em nosso próximo derredor! Muito perto, muito perto de nós, levantam suas tácitas fisionomias com um gesto de humildade e de anelo, como necessitadas de que aceitemos a sua oferenda e, ao mesmo tempo, envergonhadas pela simplicidade aparente do donativo. E andamos cegos entre elas, o olhar fixo em remotas empresas, projetados para a conquista de longínquas cidades esquemáticas”.

E completa sua máxima, dizendo: “Pois não há coisa no orbe por onde não passe algum nervo divino; a dificuldade estriba em chegar até ele e em fazer que se contraia”. Ortega evoca o imperativo do imponderável, daquilo que não podemos controlar e ao que devemos, digamos, não só nos “acomodar”, mas compreender como parte constitutiva de nossa vida. Eu acrescentaria à máxima de Ortega a afirmação paulina: “todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8,28).

A obstinação, muitas vezes, é uma armadilha de nosso orgulho, é negar as circunstâncias por uma revolta egofânica

No entanto, é exatamente isso que Markus renega, muito porque não crê que haja qualquer propósito na vida e na morte. É um niilista empedernido, que num diálogo com a filha – que lutava com a morte da mãe, tentando encontrar sua “circunstância” – demonstra total frieza diante de seu drama:

“Por que acha que a mãe morreu?”
“Não vale a pena falar sobre isso.”
“Realmente acha que foi uma coincidência?”
“Sim. Vou acompanhá-la até o seu quarto.”
“Mas e se não foi uma coincidência?”
“O que mais poderia ser?”
“Não sei. Deus?”
“Pare com isso. Esqueça o que disse a pregadora [no funeral]. Ela não entendeu metade de suas próprias besteiras. Tente fechar os olhos e durma, querida.”
“Vovô acreditava em Deus.”
“Claro, mas ele não era tão inteligente assim.”
“Mas você acreditava quando era criança?”
“Eu também acreditava no Papai Noel. Mas quando se cresce, é preciso ser capaz de distinguir entre realidade e fantasia.”
“A pregadora estava certa de que Deus tem uma razão para a morte da mamãe, e que apenas não compreendemos.”
“Ora essa, ouça o que está dizendo! É o tipo de coisa que pessoas malucas dizem.”

Ela ainda insiste um pouco, mas ele encerra de maneira ainda mais niilista:

“Sinto tanta falta dela. E eu não suporto a ideia de que ela está... sozinha.”
“Entendo. Mas ela não está sozinha. Ela agora não é nada. Ela se foi.”
“É tão injusto.”
“Sim. Quando as pessoas morrem, elas se vão de vez, querida. E é bom que você aprenda isso de uma vez por todas: a menos que também morra em tenra idade, acabará enterrando a maioria das pessoas que ama. E se continuar se atormentando, a cada vez, com falsas esperanças sobre almas e anjos pequenos nas nuvens, vai enlouquecer.”

Mas é no modo como as coisas vão se desenrolando no filme que a nós se escancara uma dura verdade – que, não raro, só aprendemos com os erros, como Markus: que a obstinação, muitas vezes, é uma armadilha de nosso orgulho, é negar as circunstâncias por uma revolta egofânica. O resultado pode ser catastrófico – como é, de fato, no filme. Markus só compreende isso pela dor, pela culpa e pelos frutos amargos de sua irresponsabilidade niilista – que, na verdade, era um esconderijo para sua própria fraqueza.

Entretanto, em meio aos escombros da catástrofe que se avolumara diante do grupo, a revolta de Markus é devidamente confrontada num diálogo muito comovente com Otto. E aquele que “tudo crê, tudo espera e tudo suporta” se mostra como é: mais poderoso que tudo – que a própria morte; e, em lampejos de enorme sensibilidade, une a todos sem fronteiras, sem preconceitos, sem exigências – e completamente inusitado.

Riders of Justice está disponível no NOW, da Net Claro.

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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