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Soldados patrulham rua de Washington após protesto racial em 1968.
Soldados patrulham rua de Washington após protesto racial em 1968.| Foto: Warren K. Leffler/Library of Congress/Domínio público

E o mísero sofria, porque era escravo, e a escravidão não lhe embrutecera a alma; porque os sentimentos generosos que Deus lhe implantou no coração, permaneciam intactos e puros como a sua alma. Era infeliz, mas era virtuoso. (Maria Firmina dos Reis, Úrsula)

No dia 5 de abril de 1968, uma dia após a trágica morte de Martin Luther King Jr., o poeta e monge trapista Thomas Merton – já citado por mim aqui, nesta Gazeta do Povo – enviou uma carta de condolências à viúva Coretta Scott King, dizendo, dentre outras coisas: “Imitando o seu Mestre, ele dedicou sua vida a seus amigos e inimigos. Ele sabia que a nação estava sob julgamento e fez de tudo para permanecer nas mãos de Deus e dos homens”. Isso demonstra uma visão que tenho procurado defender do envolvimento de cristãos na chamada luta antirracista no Brasil.

Apesar de nunca terem se encontrado, Merton admirava King e sempre falava dele e de sua opção pela não violência na luta contra as injustiças sofridas pelos negros norte-americanos. Era um religioso bastante próximo dos problemas sociais urgentes de seu tempo e, particularmente, da luta pelos direitos civis. Ansiava, inclusive, fazer um retiro espiritual com King. Apesar de se mostrar apreensivo em relação aos possíveis descaminhos das genuínas reivindicações, acreditava, como disse em 1963 numa carta ao casal de ativistas Jean e Hildegard Goss-Mayr, que a “grandiosidade de homens como Martin Luther King era algo para se ter esperança e confiar”, e que Deus poderia usar aqueles homens para fazer milagres, e que, na verdade, já estava fazendo.

Thomas Merton admirava Martin Luther King e sempre falava dele e de sua opção pela não violência na luta contra as injustiças sofridas pelos negros norte-americanos

No entanto, anos depois, Merton expôs suas inquietações a respeito dos problemas sociais numa obra interessantíssima – infelizmente ainda não traduzida para o português –, Faith and Violence – Christian teaching and christian practice, escrita e publicada no calor dos acontecimentos e pouco tempo antes de sua morte, também em 1968. Um ensaio, em especial, chamou a minha atenção: “From non-violence to Black Power”, em que ele analisa o novo fenômeno que surgia diante da insuficiência prática da Lei dos Direitos Civis, assinada em 1964. Merton inicia dizendo: “A luta não violenta pelos direitos civis venceu nos livros da lei, mas perdeu de fato. A integração é mais um mito do que uma possibilidade. O resultado tem sido que a não violência, tanto como tática quanto como mística, está sendo largamente rejeitada pelos negros americanos”. Após a morte de Malcolm X, em fevereiro de 1965, e dos violentos protestos que ocorreram na ocasião, parte dos ativistas assumiu de vez a crítica que o próprio Malcolm fazia a Martin Luther King: de que o caminho da não violência – ainda que King defendesse que não se tratava, absolutamente, de passividade – não resolveria os problemas dos negros americanos. E, ainda que o próprio Malcolm X nunca tivesse pregado a violência ativa, mas uma reação, “por qualquer meio necessário”, à violência explícita que negros sofriam na América, o recurso à violência se tornou, definitivamente, uma realidade.

A ambiguidade do recurso à não violência, apesar de sua contundência diante da violência extrema perpetrada pelos agentes do Estado – como, por exemplo, nas marchas de Selma a Montgomery, retratadas no filme Selma – e também pela população branca racista, parecia fazer, na prática, os negros parecerem subservientes e vulneráveis, incapazes de reagir às injustiças que sofriam. Como diz Merton: “Se ele [o negro] escolheu ser espancado com dignidade cristã e heroica, tais motivações autossacrificiais são recebidas com suprema indiferença por pessoas brancas como Bull Connor” [violentíssimo comissário de polícia do Alabama, ferrenho opositor da causa pelos direitos civis]. Ou seja, o efeito parecia ser contrário ao que se esperava, apesar de ter, de fato, levado à assinatura das leis. O movimento Black Power emergia, então, como uma resposta enérgica a essa ambiguidade, com o surgimento de entidades como o Partido dos Panteras Negras, de forte caráter marxista e revolucionário. Isso chamou a atenção de todos, especialmente da mídia, como diz Merton:

A América sentou-se e começou a prestar muita atenção. O “Black Power” tornou-se um tema explosivo e inesgotável na mídia branca. Acabou sendo mais rentável do que a não violência (na verdade, descobriu-se que a não violência interessava ao público americano só na medida em que pudesse ser vista como uma forma obscura e perversa de violência – uma violência desonesta e, por assim dizer, “invertida” –, daí as persistentes alusões maliciosas que tentam ligar a não violência à passividade e homossexualidade. O Black Power era claramente uma mensagem que, de alguma forma, a América branca queria ouvir.

E acrescentou: “Não que a América branca, obviamente, não estivesse com medo, ela temia deliciosamente. E agradecia. Pois agora as coisas tinham se tornado mais simples. Tinham razões  perfeitamente boas para chamarem a polícia e a Guarda Nacional”.

Há algo ainda mais interessante – e aqui comecei a ver como essa análise pode ser útil a nós, brasileiros: ele percebe que há um setor da sociedade particularmente chocada com o movimento Black Power: os progressistas brancos; ou seja, os brancos de esquerda que aderiram à luta negra – desde que fossem seus tutores. Como Malcolm X havia dito várias vezes e repetido, em 1963, numa entrevista emblemática, ao ser perguntado sobre possíveis líderes negros que traíram a causa: “Eles não são líderes negros! São fantoches colocados à frente da comunidade por progressistas brancos. São papagaios que foram colocados à frente da comunidade negra por progressistas brancos. Você não consegue me dizer um nome de líder negro, que traiu os negros, que não tenha sido endossado, sancionado, subsidiado e apoiado pelos progressistas brancos”. Essa é uma realidade que os líderes negros brasileiros da atualidade, em grande medida seduzidos pelo “progressismo” branco, parecem ainda não ter percebido. Merton observa que a preocupação dos esquerdistas brancos é absolutamente justificável, pois é contra eles: “É uma rejeição contra suas consciências ternas e ambíguas, sua inclinação à transigência, seu desejo de comer a torta de cereja da mamãe e ainda comê-la, sua tendência semiconsciente de usar o negro para seus próprios fins sentimentais e autojustificantes. O negro definitivamente percebeu e rejeitou sumariamente o progressista branco”. O movimento Black Power era, sobretudo, um clamor por independência.

Entretanto, outro aspecto que Thomas Merton nota muito bem – e sua prudência cristã começa a falar mais alto – é a natureza revolucionária de tal movimento. Mais do que isso, é sua falta de objetividade. Ele afirma: “Mas o problema é que a natureza da revolução não é nada clara, e o futuro não é garantido em conformidade com o cenário planejado por este ou aquele líder negro. Não há qualquer indicação de que mesmo o mais influente dos novos líderes radicais tenha algum controle real sobre o curso dos acontecimentos nas cidades, que estão sempre prontas para explodir em violência”. Ou seja, apesar de considerar o movimento Black Power e seu desejo por independência como algo legítimo, temia pela natureza difusa de suas pautas, que poderiam facilmente se converter em violência incontrolável:

Embora o verdadeiro impulso do movimento Black Power seja em direção à aquisição de um poder político que garanta real influência (que o negro nunca teve), e uma séria capacidade de participar da vida econômica do país em igualdade de condições com os brancos, esse objetivo, perfeitamente legítimo e justo, se perde na antecipação da violência caótica e sem sentido suscitada tanto pelo medo dos brancos quanto pela retórica negra.

Apesar de considerar o movimento Black Power e seu desejo por independência como algo legítimo, Merton temia pela natureza difusa de suas pautas, que poderiam facilmente se converter em violência incontrolável

Mas Merton vai ainda mais longe – e nisso ele é verdadeiramente assertivo e profético: “O Black Power é um movimento marxista? Não. Pelo menos ainda não [atualmente, em 2020, movimentos como o Black Lives Matter são]. Na verdade, o perigo de os líderes serem tragados para o establishment marxista é tão grande quanto o de serem absorvidos pelo establishment americano. Em ambos os casos, o Black Power se tornará um movimento branco novamente – dominado por ideologias brancas, conectado a uma tradição branca. Nesse caso, será neutralizado de uma maneira diferente”. É curioso ver reverberar, nas palavras de um intelectual tão admirável e piedoso como Thomas Merton, algumas de minhas críticas aos movimentos atuais.

O marxismo não é só uma teoria econômica; tem uma visão de mundo própria – em muito conflitante com a espiritualidade sempre presente nos povos africanos e afrodescendentes; e o discurso da luta de classes, que submete a transcendência a seus caprichos materialistas, não atende integralmente às necessidades dos negros, que têm de lidar com o racismo, o preconceito e a discriminação por sua cor, males anteriores e mais profundos que a exploração capitalista. Como diz o próprio Merton, em sua autobiografia A montanha dos sete patamares – livro que mudou a minha vida –, o mal das convicções comunistas (que enfeitiçaram muitos líderes negros daquele tempo e ainda hoje) é que se constituem, em sua maioria, “estranhos e obstinados preconceitos martelados em suas mentes pelo sortilégio de estatísticas e sem nenhum fundamento intelectual sólido. E, estando convencidos de que Deus é uma invenção das classes dirigentes, e portanto excluindo-O, tentavam estabelecer uma espécie de sistema moral abolindo toda moralidade em sua própria fonte [...]. Queriam fazer tudo certo, mas negavam todos os critérios que nos são dados para a distinção entre o certo e o errado”.

Por fim, Merton levanta a questão do posicionamento cristão frente ao movimento Black Power. Ele diz que nenhum cristão sério – portanto, radical – teria o dever moral de fabricar coquetéis molotov e lançá-los nos bairros da periferia; tampouco pensava que o movimento Black Power deveria voltar à não violência. Ele cria na urgência da mensagem que esse movimento radical tinha a passar. No entanto, observa que “os cristãos são obrigados, por seu compromisso com Cristo, a buscar maneiras efetivas e autênticas de promover a paz em meio à violência. Mas simplesmente exigir apoio e obediência a uma desordem estabelecida que é essencialmente violenta não se qualificará como ‘promover a paz’”. O trabalho do cristão, nesse sentido, é “analisar e criticar, cumprir uma função profética de procurar e identificar as injustiças que são a causa de todas as violências, brancas e negras, que são, ambas, a raiz de toda guerra e da ganância que mantém a guerra para que alguns lucrem com ela”. E termina dizendo que os cristãos devem identificar essa ganância e esse mal com “ordem cristã”. Ou seja, não aderir de forma cega, mas criticamente. E termina dizendo: “Confesso que não tenho o direito de atrapalhar o seu [do movimento Black Power] caminho, e que, como cristão, devo-lhe apoio, não da sua maneira, mas da minha, em meio a brancos que se recusam a confiar nele ou a ouvi-lo, e os que querem destrui-lo”.

Como cristão, desejo que o equilíbrio de Thomas Merton seja o meu. E você?

Conteúdo editado por:Marcio Antonio Campos
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