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IPCA fechou 2020 em 4,52%
IPCA fechou 2020 em 4,52%| Foto: Pixabay

Meu último texto de 2020 defende um retorno aos assuntos chatos, aqueles que realmente podem mudar o Brasil. Vejam vocês a coincidência: na terça-feira, dia 12, o IBGE divulgou os dados finais da inflação oficial (IPCA) em 2020 – informação tão entediante quanto importante. Não consigo resistir à tentação.

A imprensa cobriu mal o tema, como é de costume. Ninguém liga muito pra essas chatices – só os economistas, que são chatos. Mas vamos lá.

Vejamos, por exemplo, a manchete recém-publicada pelo G1: “Inflação oficial fecha 2020 em 4,52%, maior alta desde 2016”. O subtítulo ressalta que a inflação “ficou acima do centro da meta pelo segundo ano seguido”. O que de fato aconteceu pelo segundo ano seguido foi o mesmo erro conceitual e a mesma análise nonsense que o G1 já tinha publicado na notícia sobre o IPCA de 2019.

O erro conceitual, no caso, consiste em tratar a meta de inflação como um intervalo que tem teto, centro e piso. Na verdade, a meta é aquilo que G1 e muitos veículos chamam de “centro da meta”. A meta é um valor único e pontual – igual a 4% em 2020. Não existe teto, nem piso. A fonte não sou eu, mas o próprio Banco Central. Clicando nesta frase, o leitor pode acessar a página do site do BC que explica as metas de inflação. Clicando nesta outra frase, o leitor acessará a página que resume o histórico do regime de metas. Não há qualquer menção à meta como um intervalo, nem a pisos e tetos.

A partir do conceito correto, não faz sentido ressaltar que a inflação “ficou acima do centro da meta (sic) pelo segundo ano seguido”. Quando a meta é pontual, ao invés de intervalar, nota-se que o objetivo do Banco Central não é acertar exatamente a meta, mas se aproximar dela. Nesta perspectiva, o que deveria ser destacado em 2019 e 2020 não é a pequena e natural diferença entre inflação e meta, e sim a proximidade entre os dois números.

O caso de 2019 é ilustrativo. A inflação fechou em 4,31% num ano com meta de 4,25%. A distância em relação à meta foi mínima, apenas 0,06 pontos percentuais – a segunda menor distância desde 1999, quando o Banco Central passou o operar sob este regime. Em 2020, a distância foi de 0,52 pontos percentuais, quinta menor desde 1999. Por sinal, 2018 teve uma inflação 0,75 pontos percentuais abaixo da meta, a sexta menor da história. É muito provável que 2018-20 tenha sido o triênio com maior previsibilidade de preços na história do Brasil. O G1, com seu estranho critério, prefere destacar que 4,31% é diferente de 4,25%.

Se o teto e o piso não fazem parte da meta, o que esses números significam? É simples: caso a inflação fique acima do teto ou abaixo do piso, o presidente do Banco Central precisa enviar uma carta ao Congresso explicando o que ocorreu. Esse intervalo é conhecido como “bandas de tolerância”. Analisar este ponto é interessante porque revela a origem histórica do erro do G1 e um curioso duplo padrão na comparação com as manchetes dos tempos de PT. Porém, ter uma inflação dentro das bandas não significa que o regime de metas está sendo cumprido.

Nos cinco anos entre 2010 e 2014, a inflação variou entre 5,81% e 6,5%. Bem acima da meta de 4,5%, que se manteve inalterada durante o período. Era evidente a qualquer analista: governo e Banco Central mudaram a meta de inflação ao redor de 6%, mas não quis contar pra ninguém.

Restou o caminho da distorção conceitual. Para defender o próprio viés inflacionário, Dilma e equipe transformaram o teto da banda de tolerância em teto da meta. A propaganda governista transformou ponto em intervalo. E o que fez a imprensa profissional, aquela que supostamente se diferencia por diferenciar informação e propaganda? Endossou a propaganda governista sem qualquer senso crítico.

É isto mesmo, caro leitor. Numa pesquisa pela cobertura do G1 sobre o IPCA, descobri que o erro conceitual acima destrinchado não aparece na notícia sobre o IPCA de 2010. O destaque para a inflação abaixo do teto da meta começa na manchete sobre o IPCA de 2011: “Inflação fecha 2011 em 6,50%, no teto da meta do BC”.

Ao noticiar o IPCA de 2013, o G1 destacou uma inflação de 5,91% como “dentro do teto da meta do Banco Central” – o significado obscuro de “dentro do teto da meta” evidencia certa falta de intimidade entre jornalista e pauta . A notícia do IPCA de 2014 repetiu a dose com a seguinte manchete: “Inflação fecha 2014 em 6,41%, abaixo do teto da meta”. Qual teria sido o destino do país se o suposto jornalismo profissional tivesse combatido a desinformação do governo Dilma sobre as metas de inflação, ao invés de endossar?

Cabem outras perguntas: por que as taxas de inflação de 2019 e 2020, excepcionalmente próximas da meta, são destaques por estarem acima do “centro da meta”, enquanto o persistente viés inflacionário sistemático era descrito como “dentro da meta” e “abaixo do teto”?

O duplo padrão é evidente. Há aí alguma má vontade com o governo Bolsonaro, mas destacaria outros elementos, como puro e simples despreparo. Desconfio também que Dilma desmoralizou o termo “teto da meta”, e por isso a referência mudou para o centro. A expressão mudou, mas as ideias erradas seguiram no pano de fundo.

Uma das consequências indesejáveis desse amadorismo são os debates que deixam de ocorrer. O regime de metas de inflação nunca funcionou tão bem no Brasil quanto nos últimos 2 ou 3 anos. A inflação próxima da meta se soma à taxa de nominal de juros em seu menor valor histórico. Tudo isso em anos marcados por pandemia, déficit primário recorde e outros choques.

Um debate mais profundo revelaria muitas das pouco comentadas virtudes do teto de gastos. Confio que esse aprofundamento do debate virá algum dia, no futuro. Até lá, me resta escrever colunas como esta, sempre em defesa de causas tão chatas quanto o caráter pontual das metas de inflação.

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