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É muito mais fácil ser petista. Sem falar na alegria de concordar com os absurdos cometidos para se privilegiar a doutrina do partido.
É muito mais fácil ser petista. Sem falar na alegria de concordar com os absurdos cometidos para se privilegiar a doutrina do partido.| Foto: Reprodução

Ela está lendo a Gazeta do Povo. Olha aqui o que o Constantino escreveu, me diz ela, mostrando o celular. Leio e devolvo o aparelho sem falar nada. Cinco minutos mais tarde, minha mulher me diz que não é possível. E conta outro absurdo, não sei se envolvendo o TSE ou STF. Que coisa, digo, sem muita exclamação. Não passa muito tempo e lá vem outra notícia. E de novo aquela mistura de revolta e impotência.

Ficamos nesse ritual por uns dez minutos, até que me viro para ela e, em nossa troca de olhares, percebo que chegamos a um entendimento sem nem abrirmos a boca. Ela meneia discretamente a cabeça e eu faço o mesmo. Se rio é porque sinto prazer naquela intimidade de pensamentos. O encanto se perde quando minha mulher pergunta se estou pensando o mesmo que ela. Estou: vamos virar petistas.

“É muito mais fácil!”, dizemos ao mesmo tempo. E começamos a elaborar. É muito mais fácil, por exemplo, repetir os slogans de sempre em vez de buscar alguma racionalidade nas exigências políticas. É muito mais fácil xingar os outros de fascistas sempre que discordam da gente. É muito mais fácil dizer que Lula é santo do que dizer que Bolsonaro não é vilão de filme do James Bond.

É mais fácil, ah, como é, defender a ciência-ciência-ciência e chamar os outros de negacionistas ou terraplanistas. É mais fácil aderir ao malthusianismo e falar em Gaia e pôr a culpa nos canudinhos de plástico. É mais fácil fechar os olhos para a realidade objetiva e dizer que se só estamos seguindo o coração e fazendo isso (“isso” pode significar qualquer coisa) por amor às minorias historicamente oprimidas. É mais fácil se fazer de vítima – e quem discordar estará me ofendendo!

É muito mais fácil se dizer ao lado de bandidos “de bom coração”. É muito mais fácil acreditar numa utopia irrealizável, sem ligar para a redundância, do que aceitar contemplar, pensar e transformar racional e prudentemente a realidade. É mais fácil escrever longas teses e encontrar culpados do que agir e perceber o pecado dentro de si. É muito mais fácil resolver todos os problemas do mundo diante de uma garrafa de Romanée-Conti.

E a felicidade, então? Ah, como deve ser bom assistir ao Jornal Nacional sentindo aquela indignação hipócrita incontestável dos petistas. E as decisões do STF? Deve ser deliciosa a sensação de que a justiça está sendo feita e a democracia está sendo protegida por Alexandre de Moraes. Petista, quando sai pesquisa eleitoral, fica feliz. Quando vê trans na novela, fica feliz. Quando vê outro petista no palco, fica feliz. Quando come um morango orgânico produzido em terras ocupadas pelo MST, fica feliz. Ou seja, petista é feliz. Desonestamente feliz, mas feliz.

Claro que há ao menos um grande empecilho: para virarmos petistas, teremos que passar por cima de todos os nossos princípios. Teremos de privilegiar a aceitação alheia. Teremos de buscar aplausos por nossas frases de efeito e nossos posicionamentos de lealdade ao Grande Timoneiro de Nove Dedos. Teremos de ignorar boa parte do conhecimento que acumulamos ao longo de quatro décadas - inclusive o conhecimento sobre os milhões de mortos pelo comunismo. Teremos de repetir mentiras que sabemos serem mentiras. Teremos de fechar os ouvidos para as verdades gritadas pela experiência.

Sem falar na parte prática da coisa. Porque ser petista é, antes de mais nada, um estilo de vida. Teríamos de contribuir com a saúde financeira do partido. Teríamos que trocar o carro por bicicletas – e minha mulher não sabe nem andar de bicicleta. Teríamos que prestigiar artistas como Anitta e Pabllo Vittar. Teríamos que passar pano (vermelho, de seda) para o Zé de Abreu. Teríamos que frequentar saraus e aplaudir poesias de protesto. Até a Catota teria que se sacrificar e trocar o conforto da areia higiênica (que contribui para as mudanças climáticas) por desconfortáveis pedacinhos biodegradáveis de madeira ianomami.

Com a barriga doendo de tanto rir, nos encaramos novamente. Como se despertássemos de um transe, percebemos o absurdo da nossa ilusão e nos apressamos em fazer o sinal-da-cruz. “Deus me livre!”, dizemos ao mesmo tempo. Uma vez vencida a repentina tentação, voltamos a nos entreter: ela com a Gazeta do Povo, eu com o Candy Crush.

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