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Morreu Juarez Machado. Enquanto você se pergunta “Quem?!”, luto para vencer a corrida contra o Google e me adianto: lembro de tê-lo entrevistado lá por 2001 ou 2002. Uma lembrança dispersa, que desconfio ser apenas imaginação, mas tomara que não seja. O assunto era um painel que Juarez Machado tinha pintado no quartel onde prestou serviço militar. O problema é que o quartel virou shopping e a parede que abrigava o painel virou um restaurante cujo dono não estava nem aí para a obra ou o artista. Ele só queria pintar a parede de alaranjado porque a psicologia das cores diz que estimula o apetite. Então tá.
Me lembro (ou imagino) de fazer um DDI para Paris. Tive que pedir autorização da chefia e tudo. Mil números. Caríssimo. O jornalista novinho morrendo de medo, se perguntando se falava “alô” ou “allô”. Lembro também que toda a minha revolta com o dono do restaurante se dissipou depois que Juarez Machado disse que não gostava do painel ou das lembranças do painel. E que não se importava que o cobrissem com uma Suvinil qualquer. Por fim, me lembro de deslocar um fotógrafo para registrar o painel e da espera por um desfecho para a oh-polêmica. Queria ser o jornalista que salvou o painel que nem o artista fazia questão de salvar. Também já fui jovem.
“Juarez é assim mesmo”
Juarez Machado que saiu de Joinville para vir estudar em Curitiba – o suficiente para atiçar o ufanismo leite-quente, do qual hoje compartilho. Depois traiu nosso delicioso e claustrofóbico provincianismo e se mudou para o Rio de Janeiro, onde fez fama. Você não vai se lembrar, mas seus pais ou avós vão: na década de 1970, ele tinha um quadro no Fantástico. Dizem que era divertido. Não sei, nunca vi. Depois se mudou para Paris. Na França, o diretor Jean-Pierre Jeunet, de “O Fabuloso Destino de Amélie Poulain”, se dizia inspirado pela estética de Juarez Machado. Pesquise aí. Faz sentido.
Ainda sobre o painel, o dono da galeria Simões de Assis me ligou ou eu liguei para ele. Jamais saberemos porque não vou pesquisar. Não adianta insistir! Ele estava revoltado com a atitude do dono do restaurante ignorantão, mas nem tanto com a postura do artista. “O Juarez é assim mesmo”, disse e se não disse invento. Depois me convidou para conhecer a galeria e me deu vários livros com o catálogo de Juarez Machado. Infelizmente não me deu nenhum quadro. E talvez por isso tive que aprender sozinho a contemplar aqueles personagens de uma palidez colorida, todos cabisbaixos, incapazes de se olharem. Todos tão alegres e ao mesmo tempo tão tristes. Anjos caídos solitários.

Paulo Polzonoff Jr. é jornalista e escritor, não necessariamente nessa ordem. Já foi também tradutor, mas agora não tem tempo. Na Gazeta do Povo, escreve sobre política, cultura, filosofia e assuntos da atualidade. **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



