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“Miocardite vacinal numa hora dessas?!” pensa Jorge. Seu último pensamento satírico.
“Miocardite vacinal numa hora dessas?!” pensa Jorge. Seu último pensamento satírico.| Foto: Bigstock

Para escrever este texto sendo fiel ao título, vou precisar criar um personagem. Vou chamá-lo de Jorge – só para irritar meu amigo Giorgio. Esse personagem é, por acaso, um satirista. Isto é, ele vive de elevar o que há de mais ridículo no mundo à condição de caricatura. E, aqui e ali, Jorge ganha uns trocados por seu trabalho. Ah, não posso me esquecer: ao final deste texto, e apenas para fins cronísticos, Jorge vai morrer.

Vai morrer de desgosto. Porque seu (dele) ofício há muito foi suplantado pela realidade. Quem diria, hein, Jorge? Você que há alguns anos reclamava que as pessoas não sabiam distinguir uma sátira de uma distopia e que fumava um cigarro atrás do outro esbravejando que desse jeito não dá mais para escrever sátiras! Esse Orwell comunista acabou com o meu trabalho!

Pois é. Agora Jorge (se não tivesse morrido) e os poucos satiristas (reais ou não) que ainda restam têm de lidar com uma ameaça muito maior. Porque definitivamente os limites entre a sátira e a realidade foram quebrados e não há oração a São Swift que dê jeito. Não se passa um só dia sem que um leitor atento se depare com uma transrealidade que simplesmente decidiu fluir e se identificar como sátira. Só de sacanagem.

Basta abrir os jornais. No caso, a Gazeta do Povo – que eu não sou nem louco de recomendar a concorrência. Está lá o presidente Jair Bolsonaro baixando a cabeça para o STF e obedientemente apresentando exame de PCR para poder participar da posse de André Mendonça – exatamente como Jorge descreveu no estrondoso sucesso satírico “El Bravatero Tchá Tchá Tchá”. Artistas militantes reclamam de “censura” na OEA – igualzinho ao que se lê no best-seller “Caê & Seus Amigos Amestrados ou Adestrados”. Sem falar no trans desafinado que sai por aí a falar de política, elogiando terroristas rurais e, claro, enaltecendo Lula – numa reprodução quase fiel do enredo de “Elu, uma disforia muito loka”.

Héterodenominação (sic) patriarcal

Jorge, que não é de hoje vem tendo dificuldades para cumprir os prazos acordados com a editora, desta vez pensou em escrever uma sátira protagonizada por uma filósofa, ou melhor, uma bacharela em filosofia que se diz perseguida política e vive em Paris, de onde dissemina sandices como o uma estrovenga ideológica que ela chama de tecnoturbomachofascismo. Só esse termo improvável já deve render uma ou outra risada, pensa Jorge, nosso satirista-que-vai-morrer.

Assim Jorge vai compondo esse ser tão tão tão risível, com ideias tão absurdas, que só pode existir mesmo na mente doentia de um ficcionista. Ele dá a ela uns olhos que aqui e ali se esbugalham, um tom de voz necessariamente arrogante e um ego jupiteriano. E passa dias criando os termos acadêmicos mais estrupicientos e vazios possíveis, de modo que a filósofa fale um idioma só seu. Guardadas as devidas proporções (num esconderijo secreto), é algo assim quase roseano.

No último capítulo da sátira, Jorge resolve tecnoturbomachofascistar o exagero. Numa cena fundamental para a história, ele coloca a filósofa num café da Cidade Luz e diante do iPhone novinho em folha para compor o absurdo dos absurdos. Ou melhor, o ridículo dos ridículos: apenas uma frase capaz de, na falta de expressão melhor, encapsular o espírito do tempo. “Vai ser minha obra-prima”, pensa ele, porque é o que todos os escritores do tipo pensam ou esperam que suas obras sejam.

Depois de apenas três parágrafos de desenvolvimento de toda uma história, Jorge está contente com o que criou. Ele se sente um Michelângelo dando vida ao mármore. Só não se sente Deus moldando Adão com o barro da imaginação porque Jorge tem semancol.

Mas aí de repente (são sempre repentinas essas coisas) Jorge, prestes a enviar a sátira ao editor, se depara com Márcia Tiburi. Que aqui entre nós, na vida real (tanto quanto as redes sociais podem ser consideradas “vida real”), recentemente escreveu que se recusa a chamar a América Latina de América Latina. Para ela, o “correto” é usar o termo Abya Yala. Por quê? Licença, Jorge, que é a própria Márcia quem vai explicar: “[é] como preferimos nós, avessos a essa héterodenominações [sic] patriarcais europeias e capitalistas”.

É a proverbial & clichezenta gota d'água. Jorge, que já andava frustrado porque, nas palavras dele, “é impossível competir com ministro do STF falando em proteger a democracia ao mesmo tempo em que usurpa o poder do Executivo, com nadador ganhando competição feminina e com nerd tomado por cientista”, joga o computador contra a parede.

E cai para trás, segurando o braço esquerdo e reconhecendo nisso o sintoma inequívoco de um infarto que, sinto informar aos que até aqui se afeiçoaram a Jorge, será fatal. “Miocardite numa hora dessas?!” pensa ele. Seu último pensamento satírico.

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