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– Eu queeeeeero, eu quero, eu quero, eu quero! – a criança se esgoela, com a cara já lavada de lágrimas, e fios de cabelo suados colados na testa... e ninguém sabe o que fazer. Alguns julgam os pais por não estarem sendo repressores o suficiente (“Se fosse comigo, eu fazia assim. Se fosse filho meu, já tinha levado uns tapas... Porque quando os meus eram pequenos, ah, meu bem...”), outros ficam com piedade da criança (“Ele só quer o biscoito... Coitada, ela é pequena!”), há os que acorrem para ajudar com teorias (“É que ele está com sono, é que ela está com fome, é que ele entendeu errado, é que ele pensou que seria assim, é que, é que, é que...), e outros ainda – os próprios papais e mamães – ficam completamente aturdidos, como reféns da situação.
Bem, não seria temerário afirmar que existem alguns sofrimentos da infância que os adultos aprenderam a banalizar. E entre eles talvez nenhum seja tão comum, e tão mal compreendido, quanto a birra. A cena é conhecida por todos: a criança chora no mercado porque não ganhou um chocolate, grita no parquinho porque não quer ir embora, joga-se no chão porque lhe pediram que desligasse a televisão, esperneia porque perdeu um jogo, morde o irmão porque desejava um brinquedo, ou se escandaliza inteiramente diante de um simples “não”.
A repetição dessas situações já fez surgir, na cultura, uma espécie de resignação coletiva. “É fase”, costuma-se dizer; ou “toda criança faz birra”, “isso é normal”. E de fato, toda criança faz. O problema só começa quando essa constatação, que deveria trazer serenidade, passa a justificar uma perigosa passividade. Afinal, se a birra é apenas uma etapa inevitável do desenvolvimento, basta esperar que o tempo resolva tudo sozinho! Certo? Errado. Quero trazer algumas luzes sobre essa situação, para deslindar alguns entendimentos muito úteis – a todos, mas muito especialmente às mães e pais.
Talvez a primeira coisa que seja necessário compreender é que a birra não é, em si mesma, o problema: ela é o sintoma de um problema. E tratar apenas o sintoma raramente conduz a uma solução verdadeira. A tendência humana diante do desconforto é querer silenciar aquilo que incomoda. Quando a criança grita, os adultos sentem necessidade imediata de fazê-la parar. Querem que cesse o choro, que desapareça o escândalo, que a calma volte ao ambiente. Muitas vezes, toda a energia da família se concentra em “abafar” uma birra. Mas esse comportamento equivale ao de quem tentasse combater uma febre sem investigar sua causa. E a febre pode ter origens completamente distintas: uma virose, uma infecção bacteriana, um processo inflamatório grave... Diminuir a temperatura do corpo não significa necessariamente curar a doença. Da mesma forma, fazer a criança se calar não significa compreender o que está por trás daquela reação desorganizada.
A birra é uma linguagem imperfeita da infância. Ela surge quando a criança ainda não possui maturidade suficiente para lidar com certas tensões internas
Ora, a birra é uma linguagem imperfeita da infância. Ela surge quando a criança ainda não possui maturidade suficiente para lidar com certas tensões internas: a frustração, o cansaço, a fome, o excesso de estímulos, a dificuldade de transição entre as atividades, a incapacidade de expressar desejos ou limites, a sensação de impotência diante das próprias limitações etc. O que aparece externamente como uma desobediência é, muitas vezes, uma incapacidade de autorregulação.
A criança pequena ainda não governa plenamente a si mesma. Por isso, diante de situações relativamente simples para um adulto, ela pode experimentar verdadeiros colapsos emocionais. Quando um menino bate com a mão para destruir o jogo que ele perdeu, dizemos que ele “não sabe perder”; pois exatamente: ele ainda não sabe perder e, com esse gesto, está tentando lidar, de forma ainda rudimentar, com a experiência da derrota. A criança que se irrita porque não consegue encaixar uma peça de Lego enfrenta, naquele instante, o choque entre o desejo e a limitação das próprias habilidades. Aquela que se desespera ao sair do parquinho não sofre apenas por capricho, mas pela dificuldade real de interromper uma atividade prazerosa e aceitar a passagem para outra situação. É preciso lembrar que as crianças não nascem maduras.
As birras, portanto, não possuem todas uma única causa. Não se trata de um problema único e geral de “comportamento”, uma questão genérica de “obediência”. Esse talvez seja um dos maiores erros cometidos pelos adultos: tratar todas as birras da mesma forma, como se fossem manifestações idênticas de um mesmo defeito moral. E quantas vezes o conflito familiar inteiro nasce de um diagnóstico equivocado? Os pais pedem que a criança tome banho, e ela entra em colapso. Concluem imediatamente: “Ela não quer obedecer”. Mas talvez o problema real não seja o banho. Talvez seja o sono. A criança que não consegue guardar os brinquedos antes do almoço pode não estar desafiando a autoridade dos pais: talvez esteja simplesmente faminta. Exigir dela, naquele instante, uma capacidade de autocontrole que o próprio organismo debilitado não sustenta é preparar o terreno para uma escalada inevitável de tensão. Nesses casos, a sabedoria educativa não consiste em abandonar a rotina, mas em reformá-la adequadamente, compreendendo a realidade concreta da criança. Primeiro ela come; depois, mais tranquila, guarda os brinquedos. E esses elementos básicos da vida cotidiana costumam ter sua influência sobre o comportamento infantil subestimada. Sono, alimentação, higiene e ordem formam uma espécie de alicerce invisível da estabilidade emocional da criança. E muita gente às vezes procura soluções sofisticadas para problemas que começaram na desordem das coisas simples.
Pais, mães, a birra não é um inimigo a ser esmagado; ela é um sinal a ser interpretado. Ela não é, em si mesma, um crime ou um pecado, uma falha odiosa que mostra que a criança precisa ser “disciplinada”, como concepções estreitas da educação podem afirmar. E também não é um expediente, como outras concepções igualmente estreitas afirmam, que deve ser apenas tolerado: “é normal, deixe a criança se expressar, ela está lidando”. A criança precisa, sim, ser educada, mas essa educação é uma interpretação da sua situação concreta e uma condução. Quando os pais conseguem enxergar para além do escândalo imediato que é uma birra, deixam de lutar apenas contra o comportamento exterior e começam a compreender o coração da criança. E talvez seja justamente aí que a educação verdadeira tenha início: não no desejo ansioso de silenciar sintomas, mas na disposição paciente de compreender as causas.
Uma das ilusões mais comuns da vida moderna consiste em imaginar que a criança cresce melhor quando vive sem muitas estruturas. Muitos adultos passaram a associar rotina à rigidez, ordem à opressão, previsibilidade à falta de espontaneidade. No entanto, basta observar atentamente uma criança pequena para perceber o contrário: poucas coisas a tranquilizam tanto quanto saber onde está, o que vem depois e o que se espera dela. A infância necessita profundamente de ordem. Isso não por um capricho pedagógico dos adultos, mas porque a criança ainda está aprendendo a habitar o mundo. Aquilo que para um adulto parece óbvio – a passagem do tempo, a sequência das atividades, a função dos espaços, a relação entre causa e consequência – ainda é, para ela, um território em formação. Por isso, a desordem não produz liberdade interior; frequentemente produz ansiedade. Deve existir, antes de tudo, uma ordem material. A criança precisa saber onde as coisas acontecem: onde se dorme, onde se come, onde se brinca, onde os brinquedos ficam guardados, onde se toma banho. Parece banal, mas não é. Quando tudo muda continuamente – ora a refeição é no colo da mãe, ora diante da televisão, ora no carrinho; ora a criança dorme na cama, ora no sofá, ora no chão –, o mundo torna-se confuso para ela.
Com relação à previsibilidade espacial, nós, adultos, experimentamos algo semelhante quando chegamos a uma cidade desconhecida – o que acaba de me ocorrer. Até compreendermos o funcionamento do lugar, sentimo-nos deslocados, inseguros, desorientados. E então fixamos pontos de referência, padrões, relações. Começamos a nos situar. A criança vive algo parecido quando o ambiente ao seu redor não possui estabilidade suficiente para que ela consiga se localizar. Mas talvez ainda mais importante seja a ordem temporal. Ora, a criança pequena possui enorme dificuldade de compreender a passagem do tempo. O adulto diz naturalmente: “Daqui a dez minutos a vovó chega”, sem perceber que “dez minutos” é uma abstração quase incompreensível para uma criança pequena. Ela não sabe medir a duração das coisas. Não compreende plenamente o que significa “amanhã”, “mais tarde”, “daqui a pouco”. Muitas vezes, ela quer a vovó agora – e a espera torna-se uma fonte real de angústia. É por isso que a rotina possui um valor tão profundo na infância.
A rotina não é uma prisão mecânica de horários: ela é uma linguagem temporal, ou uma “interpretação” do tempo. Ela ajuda a criança a compreender que uma coisa vem depois da outra – acordar, comer, brincar, tomar banho, dormir – num ritmo constante, e essa sequência repetida cria um mapa interior. Quando a criança consegue antecipar minimamente o que acontecerá em seguida, ela relaxa. O mundo deixa de ser um lugar imprevisível, e a previsibilidade produz paz (e, em paz, não se faz birra). E por isso as crianças sem qualquer estrutura de rotina frequentemente se tornam mais irritadiças, e também dependentes dos adultos. Como não sabem o que esperar, precisam constantemente perguntar: “E agora?”, e tornam-se emocionalmente desorientadas. Já a criança que possui certa estabilidade temporal consegue atravessar o dia com mais segurança, inclusive quando os pais não estão presentes. Reparem no ponto principal: a rotina não serve apenas para organizar a vida dos adultos, de maneira prática, ainda que isso seja fundamental, e também tenha consequências psicológicas e emocionais importantes. Ela serve sobretudo para organizar interiormente a criança.
Existe, ademais, um outro aspecto que precisa ser levado em conta, e que consiste de uma grande dificuldade própria da infância, talvez ainda mais profunda: a criança é naturalmente guiada pelo prazer imediato. Isso não é errado, nem problemático; é um mecanismo natural, biológico, de sobrevivência e manutenção corporal: o bebê mama porque sente fome; dorme porque está cansado; busca colo porque isso lhe dá conforto e segurança. E, conforme cresce, continua funcionando da mesma maneira: quer prolongar indefinidamente aquilo que lhe é agradável. Se a brincadeira está divertida, deseja brincar para sempre. Se o desenho é prazeroso, não quer desligar a televisão. Se o sorvete é delicioso, quer mais um... Repito, nem então trata-se de defeito moral, é uma imaturidade natural. E, se fossem filhotes de cavalo ou de cachorro, de macaco ou de baleia, estaria tudo muito bem! A dificuldade surge porque a vida humana não pode ser conduzida apenas pelos impulsos do momento.
A criança pequena possui enorme dificuldade de compreender a passagem do tempo. Ela não sabe medir a duração das coisas
Existe uma hierarquia de bens, e o ser humano, diferentemente dos animais, habita reinos mais elevados que o do corpo, e é chamado a apreciar bens mais elevados. Por isso, para a criança que cresce, há momentos de brincar, de comer, de descansar, de estudar, de conviver. E amadurecer significa justamente aprender a interromper um prazer imediato em função de um bem maior ou de um dever necessário. Essa transição é extremamente difícil para a criança – e, na verdade, continua sendo difícil até para muitos adultos, ou não? Quantas pessoas sabem o que precisam fazer, mas não conseguem sair daquilo que lhes dá prazer imediato? Quantos não permanecem indefinidamente diante das telas, adiando responsabilidades importantes? Quantos vivem aprisionados pela incapacidade de trocar o agradável pelo necessário? É aí que começa a educação da vontade.
Quando os pais ajudam a criança a sair da brincadeira para jantar, a interromper a televisão para dormir, a guardar os brinquedos antes de iniciar outra atividade, não estão apenas impondo regras externas. Estão formando lentamente uma capacidade interior: a de escolher o bem adequado ao momento.
Esse aprendizado não acontece espontaneamente. A criança não desenvolve sozinha, apenas com o tempo, a capacidade de hierarquizar os bens. Ela precisa de auxílio. Precisa de adultos que funcionem, por algum tempo, como uma espécie de vontade auxiliar (termo já constante em meu ensinamento). A criança pequena ainda não consegue perceber plenamente aquilo que lhe faz bem no longo prazo. Não entende por que precisa dormir quando quer continuar brincando. Não compreende por que deve comer antes que a fome se torne insuportável. Não percebe a importância de interromper uma atividade prazerosa para cumprir outra necessidade da vida. Então os pais emprestam, por assim dizer, sua vontade amadurecida à vontade ainda imatura do filho.
Serão eles a interpretar aquela situação para a criança, distinguir a hierarquia dos bens, e afirmá-la, dizendo: “Eu sei que você quer continuar brincando, mas agora é hora de descansar”. Não por arbitrariedade, mas porque conseguem enxergar aquilo que a criança ainda não vê. Cada pequena passagem bem conduzida – sair da brincadeira para comer, terminar uma tarefa, esperar a própria vez, suportar pequenas frustrações – cria na criança um hábito interior, uma espécie de sulco invisível da alma. Ela aprende, pouco a pouco, que é capaz de fazer aquilo que precisa ser feito, mesmo quando não sente vontade imediata. Mas esse processo é contínuo, liso, fácil? É claro que não. Ele se dá por repetidas tentativas de conduzir a criança dentro de um conflito, e os conflitos, bem sabemos, às vezes geram barulho. Por isso a birra é, muitas vezes, o ruído emocional do amadurecimento. A criança quer permanecer onde está; o adulto a conduz para outra direção necessária. Entre esses dois movimentos surge o conflito.
O problema é que muitos pais, receosos de frustrar os filhos, abandonam completamente essa função educativa. Passam a permitir que a criança viva apenas segundo seus impulsos momentâneos. O resultado disso não será liberdade, mas escravidão interior. A criança que nunca aprende a interromper o prazer imediato tende a tornar-se incapaz de sustentar responsabilidades mais tarde. Cresce habituada a seguir apenas aquilo que deseja no instante presente. E então aparecem adolescentes e adultos profundamente frágeis diante das exigências da realidade.
Portanto, uma birra, por mais desagradável que seja – e por mais doloroso e indesejável que seja, para nós, psicológica e emocionalmente, se ver metido numa situação de conflito e de escarcéu –, é uma ocasião educativa! É uma oportunidade de amarmos e educarmos melhor. Devemos proteger nossos filhos dos indevidos olhares alheios, é claro, então muitas vezes o primeiro gesto pode ser tirá-la da situação de exposição. Mas, entre nós e elas, aquela birra deve ser oportunidade pedagógica. Primeiro de tudo, questionando a nós próprios, perguntando-nos: Estou faltando com algo? Estou falhando em fornecer ao meu filho alguma necessidade básica, de sono, alimentação, higiene ou ordem? Estou falhando ao orientá-la no espaço ou, principalmente, no tempo? Esse checklist básico, daquilo que precisa estar ordenado e suprido na vida rotineira das crianças, pode ser a chave de compreensão para muitos comportamentos estressados, muitas birras.
Para além disso, a segunda série de questionamentos deve girar em torno de: Qual dificuldade meu filho ou filha está expressando com essa birra? Há algum desejo imaturo que precise ser conduzido? De acordo com as tendências e temperamentos dele, dentro do contexto de suas preferências, referências e linguagem, qual seria o melhor modo de ser, para ele, essa vontade auxiliar, que ampara seu amadurecimento? Dessa segunda reflexão surge o caminho aberto para a criatividade, para a arte de educar, que é sempre um contato único e pessoal, quer dizer, entre pessoas que são únicas e irrepetíveis...
Essa situação da birra ainda suscita muitos outros pensamentos, e pode servir como um feixe de reflexões para elucidar a essência e os desafios da verdadeira educação. Quem sabe, em outras oportunidades, não poderíamos seguir nessa marcha? (Se tiver interesse nisso, sinalize por meio dos comentários.)
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos








