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Toda criança precisa, em algum momento, de atenção individual. Precisa de uma conversa a sós, bastante tranquila; precisa sentir-se ouvida, precisa do tempo suficiente para conseguir organizar seus pensamentos, tentar expressar-se, sentir a segurança de que pode fazê-lo. Precisa de espaço para fazer uma confidência. – Isto é verdade? Ah, sim, sem dúvida. E por isso, segundo algumas pessoas – refiro-me a pessoas que se dedicam a pensar o relacionamento familiar, a psicologia infantil etc. –, seria importante reservar um dia ou um momento especial para estar a sós com cada filho. A ideia se popularizou, algum tempo atrás, sob o nome de “dia do filho único” – querendo dizer, mesmo que você tenha dois, três, muitos filhos, organize a sua agenda de modo a que seja possível ter um dia com cada um dos seus filhos como se ele fosse “o único”, para que ele sinta tudo aquilo que precisa sentir e viva aquela situação suficiente e necessária para que ele se expressa, se sinta amado, e assim por diante.
É uma orientação bem-intencionada e, em si mesma, muito bonita. Algumas mães de muitos filhos, inclusive, consideraram que esse cuidado seria especialmente necessário para elas, justamente porque, com vários filhos, existe o risco de algum deles sentir que recebe menos atenção no meio de uma rotina tão cheia e às vezes tão corrida. Poderíamos, quem sabe, estar negligenciando a atenção necessária a um dos pequenos sem nos darmos conta disso, iludidas pelo corre-corre.
Logo, não quero fazer uma crítica a essa ideia, mas sim tentar tatear o seu sentido, a sua essência, e propor uma reflexão sobre como ela pode ser vivida no cotidiano. Gostaria de pensar, sobretudo, sobre o risco de transformarmos um recurso importante em uma espécie de regra, como se esse encontro individual, realizado de tempos em tempos, fosse suficiente para garantir a proximidade entre pais e filhos.
É que nós, seres humanos, temos em nós essa tendência de substituir com uma regra, um protocolo, um símbolo, algo que nos custa, na verdade, um esforço renovado e sempre atento. É uma espécie de “idolatria”, pequena, sim, mas que tem esse mesmo princípio: colocar a imagem no lugar da presença verdadeira. É um jeitinho, quase inconsciente, se não prestamos atenção, de “trapacear” com a vida.
É no dia a dia que a vida acontece! É depois da escola, na hora do banho, durante o jantar, enquanto se faz o dever de casa, antes de dormir, na história que se conta à noite
Podemos fazer um paralelo com a vida matrimonial. É muito comum ouvirmos que marido e mulher precisam reservar um momento para si, sair juntos, conversar, trocar ideias, não falar dos filhos nem dos problemas da casa, mas simplesmente um do outro. É uma boa orientação. O problema é que nem sempre ela é possível. E então? O casamento dependia daquilo, e não sobrevive sem?
Quando os filhos são pequenos, sair juntos pode requerer encontrar alguém da família que fique com as crianças, conseguir pagar uma pessoa de confiança, organizar os horários... No começo da vida familiar, muitas vezes isso é difícil. Mais tarde, quando os filhos crescem e estão já na idade escolar, as coisas podem ficar um pouco mais fáceis: talvez seja possível almoçar juntos durante o dia, em vez de esperar por uma saída à noite. Mas nem sempre será possível fazer esse programa uma vez por semana ou mesmo a cada 15 dias.
E há um risco ainda maior: se o casal passa a considerar o encontro como algo que precisa acontecer apenas naquele momento especial, pode acabar esquecendo aquilo que sustenta verdadeiramente a relação – e aqui está o meu tema de hoje –, o encontro diário.
Afinal, quando marcamos uma conversa para falar sobre a vida, nem sempre conseguimos lembrar de tudo o que gostaríamos de dizer. Há coisas que surgem justamente no momento mesmo em que acontecem: uma necessidade de carinho, uma preocupação, ou então algo que nos incomodou, uma dúvida, um desejo de atenção. A vida cotidiana não pode ser simplesmente suspensa até chegar o dia reservado para a conversa. Existe a agenda, mas sob ela corre ainda o fluxo da vida, que não pode ser exatamente controlado; ele deve ser vivido, isto é, organizado na medida do possível, cultivado, ou conduzido – interpretado, se se quiser. É no bom e velho cotidiano que marido e mulher continuam a se encontrar.
E penso que algo semelhante acontece na relação com os filhos.
Não podemos deixar para o “dia do filho único” a expectativa de que a criança finalmente abrirá o coração e contará todos os seus medos, suas dúvidas, seus interesses, suas virtudes e suas fragilidades. Um momento assim pode, sem dúvida, tornar-se uma lembrança afetiva preciosa: aquele belo sorvete que tomaram juntos, a ida à feira, o almoço só entre mãe e filho ou entre pai e filho, um cinema, um parque... São experiências que ficam na memória.
Mas é difícil imaginar que uma criança consiga, justamente naquele momento, organizar tudo o que existe dentro dela e transformar em palavras para apresentar aos pais quem ela é. Estamos sujeitos às contingências do corpo e do clima – estar com sono, ou meio emburrado, ou isto ou aquilo. Muitas vezes, nem ela sabe muito bem o que está acontecendo consigo mesma. Ainda não sabe nomear sentimentos, distinguir preocupações, compreender as próprias reações. É no dia a dia que essa descoberta acontece.
É no dia a dia que a vida acontece! É depois da escola, na hora do banho, durante o jantar, enquanto se faz o dever de casa, antes de dormir, na história que se conta à noite. É quando estamos varrendo os cacos de um copo que deixamos cair... É nesses momentos aparentemente banais que uma criança vai se revelando.
E os momentos de leitura compartilhada, então? Quando retomamos o que lemos juntos para iluminar uma situação concreta. É uma maneira muito delicada de educar. Não é preciso transformar tudo em uma advertência dirigida diretamente ao filho. Muitas vezes, enquanto conversamos sobre um personagem, podemos falar sobre determinada atitude, sobre uma escolha certa ou errada, sobre uma virtude ou uma fraqueza. A criança escuta sem sentir que está sendo repreendida. Estamos em um momento agradável, falando de uma história, e ainda assim uma orientação pode encontrar seu lugar.
É no cotidiano que aprendemos a conhecer quem está diante de nós – e é no cotidiano que nossos filhos aprendem, pouco a pouco, que podem ser conhecidos por nós
Com os adolescentes, algo semelhante acontece, embora os momentos sejam outros. Talvez seja na volta de um passeio, quando eles chegam mais tarde. Talvez estejam estudando até uma hora avançada. Em vez de aproveitar apenas a ocasião para perguntar se fizeram tudo o que deveriam, podemos simplesmente nos colocar à disposição. Sentar ao lado deles, contar alguma coisa nossa. “Você não sabe o que aconteceu comigo hoje...” ou “Sabe, filho? Ando um pouco preocupada com uma coisa...”
Não se trata de colocar sobre os filhos preocupações que eles não têm condições de resolver, mas de compartilhar alguma coisa pequena, abrir uma fresta para a conversa. E, muitas vezes, é por essa fresta que eles também começam a falar. É nesses momentos que descobrimos uma coisa e outra. É nesses intervalos aparentemente sem importância que um filho conta algo que não contaríamos se estivéssemos diante dele, com a cara sisuda, com a pergunta solene: “Pois então, meu filho, há alguma coisa que você queira me dizer?” A intimidade raramente obedece a uma agenda.
Por isso, mais do que garantir um “dia do filho único”, penso que precisamos penetrar o sentido da sua intenção e derramá-lo sobra toda a nossa vida – como quem estoura a gema mole de ovo! Devemos, sem pequenas trapaças protocolares, cultivar a presença cotidiana. O encontro individual, especial, pode ser muito bom e pode produzir memórias afetivas maravilhosas. Mas ele não substitui o convívio. Não substitui a história contada antes de dormir, a conversa durante o jantar, a pergunta feita na volta da escola, a brincadeira, o comentário inesperado, a disponibilidade para fazer companhia ao lado de um adolescente que chegou tarde e que precisa de um lanche...
É no cotidiano que aprendemos a conhecer quem está diante de nós – e é no cotidiano que nossos filhos aprendem, pouco a pouco, que podem ser conhecidos por nós. É numa briga entre irmãos, por exemplo, que percebemos como cada um enxerga uma mesma situação, como reage diante de um conflito e como tenta resolvê-lo. É ali que podemos perceber sua relação com a verdade, sua coragem, ou falta dela, para dizer determinadas coisas, sua capacidade de reconhecer um erro. Quando ajudamos um filho com o dever de casa, também aprendemos muito sobre ele. Percebemos como encara uma obrigação, se procura fazer as coisas bem-feitas, se está realmente compreendendo aquilo que está estudando. Uma simples interpretação de texto pode revelar dificuldades que não apareceriam em uma conversa especialmente preparada para esse fim! E até à mesa, durante uma refeição em família, há muito a observar. Um consegue deixar o outro falar? Algum se considera mais importante que os demais? Alguém pega justamente o pedaço mais apetitoso sem perceber que os outros ainda nem terminaram de comer? São pequenos acontecimentos, mas são também pequenas revelações.
É assim que vamos conhecendo nossos filhos de verdade.
Ademais, é preciso ter bem claro que momentos especiais e privilegiados não têm o poder mágico de solucionar ou remediar suficientemente algumas atitudes equivocadas ou caminhos incorretos que estejamos tomando no dia a dia. Por exemplo, a comparação entre os filhos. De nada adianta termos um “dia único” e exclusivo com aquele nosso filho, e depois com outro e com o outro, se, no dia a dia, nós os tratamos como uma espécie de candidatos numa competição de virtude, ou como soldados que devem se amoldar a um mesmo comportamento ideal adequado. Essa comparação entre irmãos é muito comum nas famílias e é quase sempre muito prejudicial. Os pais não fazem isso necessariamente por mal. Muitas vezes acontece de maneira automática, emocionada, e dizem: “Repara como seu irmão se comporta bem...”; “Veja como sua irmã é organizada!”; “Por que você não faz como ele?” Até os professores podem cair nessa armadilha. Mas a comparação prejudica os dois lados, não somente o do que deveria imitar o outro (que pode se sentir inferior, rebaixado, incapaz), mas também aquele que é colocado como exemplo para os outros e tem esses olhos voltados para si (que pode se sentir superior, ou, reversamente, que pode se sentir muito mal quando vier a errar, maculando aquela bela imagem que os outros faziam de si). A humildade que queremos para eles não está em nenhuma dessas duas coisas.
Enfim, não adianta organizar encontros especiais com nossos filhos – “vamos sair toda segunda-feira” – se, no restante da semana, passamos o tempo todo colocando um contra o outro. A comparação também nos impede de conhecê-los, porque deixamos de olhar para cada filho por aquilo que ele é e passamos a enxergá-lo sempre em relação ao irmão. Precisamos olhar para cada um em relação a si mesmo. Um filho pode estar avançando em determinada área; outro, em outra. Um pode ter mais facilidade para alguma coisa, enquanto o outro precisa de mais tempo. Não precisamos transformar nenhum deles em exemplo ou contraexemplo.
Há ainda outro cuidado muito importante: não corrigir nossos filhos diante de todo mundo. Se um filho mentiu, gritou ou fez alguma coisa errada, podemos chamá-lo para conversar em particular. Não precisamos expô-lo diante dos irmãos, dos amigos ou de outras pessoas. Essa atitude simples transmite uma mensagem muito importante: eu estou vendo você como uma pessoa, e não quero humilhá-lo diante dos outros. A exposição faz surgir uma espécie de revolta, uma resistência à correção. Quando somos chamados de lado, porém, podemos ouvir com mais tranquilidade, reconhecer o que fizemos e retificar.
Por isso não adianta reservar um encontro especial e esperar que, naquele momento, o filho finalmente se abra conosco se, no restante do tempo, ele não encontra essa abertura. A abertura precisa ser construída diariamente! É a postura de compreensão, de escuta e de interesse que faz com que nossos filhos queiram se abrir, para inclusive confessar suas más ações, mostrar seus medos, suas falhas, dificuldades, vergonhas. Mas, para que uma criança conte essas coisas, ela precisa saber que será ouvida.
Não adianta reservar um encontro especial e esperar que, naquele momento, o filho finalmente se abra conosco se, no restante do tempo, ele não encontra essa abertura
E isso depende muito da nossa reação diante das pequenas coisas que acontecem todos os dias. Se cada erro provoca gritos, indignação e uma grande tempestade, a criança naturalmente aprenderá a esconder seus erros. Se, ao contrário, ela percebe que os pais conseguem manter a calma, fica mais fácil procurar ajuda. E isto não significa não corrigir, naturalmente. Significa corrigir sem transformar cada erro em uma tragédia. Há uma grande diferença entre ensinar uma criança a ter mais cuidado e fazer com que ela tenha medo de nos contar quando alguma coisa deu errado. E essa diferença se constrói não em um dia especial, mas em centenas de pequenos encontros ao longo da vida.
São gestos simples, mas dizem à criança: “Eu conheço você, eu me lembro de você, você é importante para mim”.
Se uma professora ou qualquer pessoa me perguntar “Como é o seu filho? O que você tem a me dizer sobre ele?”, eu gostaria de ser capaz de responder com clareza. Saber o que ele faz bem, onde precisa crescer, quais são suas dificuldades, quais são suas inclinações, o que está acontecendo naquele momento de sua vida. E gostaria também de conversar com os professores sem grandes surpresas. Não descobrir, de repente, na escola, uma faceta completamente desconhecida do meu filho. Não porque eu ache que conheço tudo o que ele faz ou pensa, mas porque estou constantemente procurando conhecê-lo.
Esse conhecimento exige um processo contínuo. E essa construção cotidiana tem uma consequência especialmente importante para a adolescência.
A relação que construímos na infância se torna uma espécie de caminho já conhecido quando chegam os anos mais difíceis. O adolescente sabe a quem procurar. Sabe que pode falar. Sabe que será ouvido. Sabe que não precisa esconder imediatamente aquilo que o assusta, envergonha ou preocupa. Essa confiança não começa na adolescência, será tarde demais. Ela foi construída muitos anos antes, em pequenas conversas, pequenas correções, abraços, histórias contadas, refeições compartilhadas, erros que foram corrigidos sem humilhação e momentos em que os pais simplesmente estavam disponíveis.
É por tudo isso que tenho tranquilidade para afirmar novamente, como no início: não nego o valor de um dia especial com cada filho. Esses momentos podem ser muito bonitos e podem gerar memórias afetivas importantes. Mas não podemos depositar neles uma responsabilidade que pertence ao conjunto da vida familiar. O mais importante é o dia a dia.
Se cada erro provoca gritos, indignação e uma grande tempestade, a criança naturalmente aprenderá a esconder seus erros
E não é uma questão de quantos filhos temos; é uma questão de abertura do coração. Você pode ter um filho e não conseguir enxergá-lo. Pode ter dez e ser capaz de prestar atenção em cada um deles. O que faz a diferença é a disposição de olhar para o outro como alguém que merece ser conhecido.
E essa disposição, quando cultivada dentro de casa, não fica restrita à relação com os filhos. Quem aprende a estar atento aos próprios filhos também pode tornar-se mais atento ao marido, aos amigos, aos familiares, às pessoas que encontra pelo caminho. Aprende a ouvir, a perceber, a orientar quando necessário: a preocupar-se com o outro. É como se o coração fosse se alargando...
Um coração capaz de fazer esforço para ouvir, de fazer esforço para estar presente, de tentar compreender antes de responder. Um coração que não está o tempo todo preocupado em falar de si mesmo, mas que consegue colocar-se à disposição de outra pessoa.
Talvez essa seja, afinal, a maior importância do encontro diário: não apenas fazer com que nossos filhos se sintam ouvidos, mas tornar-nos, nós mesmos, pessoas capazes de ouvir.
Conteúdo editado por: Marcio Antonio Campos

Samia Marsili é médica, palestrante, escritora, mãe de 8 filhos e esposa do Dr. Italo Marsili, um dos psiquiatras mais influentes do país. Deixou o consultório médico e a residência em Pediatria para se dedicar integralmente à pesquisa e à prática da criação de filhos, aconselhando milhares de famílias por meio de seus conteúdos digitais. **Os textos da colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.



