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A seis dias da eleição, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) voltou a explorar a falsa associação do adversário Flávio Bolsonaro (PL) à retirada do título de padroeira do Brasil de Nossa Senhora Aparecida, visando gerar a repulsa de eleitores católicos contra uma suposta demanda de igrejas evangélicas. Mas a aposta pode se voltar contra Lula.
Mesmo após a retratação da GloboNews, uma das fontes de onde partiu o boato, a ofensiva de aliados do PT e do próprio presidente ganhou fôlego com a decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), de derrubar ordem da Justiça Eleitoral (TSE) de excluir postagens da mentira nas redes sociais.
No Canal Livre, exibido na TV Bandeirantes neste domingo (27), Lula foi alertado de que a história era falsa, mesmo assim respondeu: “Eu não sei se foi fake news”. Acrescentou: “O dado concreto é que isso está na rede social muito forte”. A difusão do boato foi apresentada como justificativa para insistir nele.
O episódio surgiu no perfil de rede social Dilma Bolada, pró-governo, e ganhou força após um comentário de Maria Cristina Fernandes na GloboNews, que também difundiu a mentira sem citar fontes. A emissora retificou a informação da jornalista e apresentou desculpas.
"Essa história é uma falsidade completa. Existiu no Brasil um projeto de lei no ano de 2007 para limitar a competência de padroeira de Nossa Senhora Aparecida para os católicos apostólicos romanos. Esse projeto de lei de 2007 não teve qualquer participação de Flávio Bolsonaro, que não integrava o Congresso Nacional e foi arquivado em 2008", afirmou à Gazeta do Povo o advogado Tracy Reinaldet, um dos coordenadores jurídicos da campanha de Flávio.
O mesmo projeto, do parlamentar Victório Galli (MDB) de 2007, já havia sido usado para atacar Jair Bolsonaro (PL) na campanha de 2018.
Na avaliação de analistas, o episódio exemplifica o uso de "artilharia pesada" na campanha eleitoral. A exploração de fake news se soma aos recentes anúncios populistas sobre aumento no valor do Bolsa Família, distribuição gratuita de canetas emagrecedoras e a medida que acaba com as Bets. O cenário revela o temor de Lula de que Flávio termine o primeiro turno à frente dele ou até já encerre a disputa.
Para o professor de ciências políticas do Ibmec-BH, Adriano Cerqueira, a polêmica deve produzir só oscilações na margem de erro das pesquisas. A estratégia de Lula, avalia, visa reduzir a abstenção de idosos e pobres, não alinhados ideologicamente e que são mais propensos a deixar de votar. “A cruzada religiosa tenta despertar indignação nesse eleitorado e motivá-lo a sair de casa para votar no domingo”, resume.
Leandro Gabiati, diretor da consultoria política Dominium, entende que a questão não é só se Lula ganha novos apoios dos católicos, mas se Flávio pode perder também votos nesse segmento: “Não há como saber. O único fato concreto é que o assunto ganhou muito espaço nas redes”.
Estratégia esquerdista de fake news pode ter efeito rebote
A iniciativa de difundir a mentira nas redes e sua corroboração por Lula alimentam a percepção de incoerência. Para críticos e opositores, o presidente recorre ao uso político da desinformação contra adversários, embora seu governo e o STF defendam o combate às fake news e a regulação das redes sociais.
Segundo especialistas ouvidos pela reportagem, a estratégia de Lula para desgastar Flávio entre católicos pode ter efeito rebote. De um lado, ao serem alertados de que a notícia é falsa, católicos podem ter a percepção de que Lula tentou enganá-los. Por outro lado, a fala de Lula também soa como ataque aos evangélicos.
Lula disse na TV Bandeirantes: "Já teve gente da religião evangélica que um dia chutou Nossa Senhora Aparecida". Ele se referia a um episódio ocorrido em 1995 quando o suposto bispo Sérgio Von Helde, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um programa de televisão de madrugada. Ele estava criticando a devoção de brasileiros a imagens.
Além de acirrar a polarização, a investida pode mobilizar eleitores conservadores e reforçar a união entre católicos e evangélicos em torno de Flávio.
Por outro lado, no fim de semana, Flávio acusou membros da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) de participarem do processo da notícia falsa. Para analistas, isso pode gerar um efeito negativo para ele entre os católicos.
Dino libera fake news e campanha questiona intervenção sobre o TSE
No domingo (27), o ministro Flávio Dino derrubou ordem do ministro André Mendonça, do TSE, que havia excluído das redes sociais uma das publicações feitas por ativistas da esquerda sobre a notícia falsa em relação a Nossa Senhora. Ela havia sido feita pelo humorista Antonio Tabet e o conteúdo foi restabelecido. A intervenção do ex-ministro de Lula acirrou o conflito judicial e político sobre a desinformação contra o candidato da direita.
Dino acolheu pedido apresentado em antigo processo, relativo a uma publicação no Paraná, e estendeu os seus efeitos ao caso. Invocou as liberdades de expressão e religiosa e observou que Tabet não citara Flávio nominalmente. Para ele, eventuais abusos devem ter correção preferencial por outras vias.
A defesa do PL reagiu com perplexidade e denunciou a escolha direcionada do relator, sem novo sorteio, em processo de objeto distinto. Ou seja, a defesa de Flávio está denunciando a manipulação que aliados de Lula estão fazendo para burlar o sistema de distribuição de ações do STF para enviá-las ao ministro Flávio Dino, que foi indicado por Lula e o defende em todas as pautas que chegam ao STF.
Flávio Bolsonaro também pediu a prisão preventiva de George Marques, coordenador da Secretaria de Comunicação (Secom) do governo federal, por compartilhar a difusão do boato. A defesa do candidato acusa uso da máquina pública. O governo alega que a publicação de George Marques foi algo pessoal e fora do expediente.
Aliados de Flávio Bolsonaro reagem rápido e apontam desespero de Lula
O tema tomou as redes sociais. O think tank Democracia em Xeque, que monitora e analisa tendências em redes sociais sob perspectiva esquerdista, registrou 977,6 mil menções em 55 horas e 8,5 milhões de interações. A ONG disse que foi a terceira maior polêmica política do ano no levantamento, que mede repercussão digital, sem apontar mudança de voto. A esquerda gerou 70% das interações.
O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) reagiu à falsa associação de Flávio ao ataque à padroeira do Brasil. Na reação da direita, reapareceu a consagração do país a Nossa Senhora no governo de Bolsonaro. O Centro Dom Bosco, grupo religioso, acusou Lula de tirar do portal oficial o texto desse evento de 2022.
Flávio negou plano contra a padroeira e atribuiu o episódio ao desespero adversário. O título religioso foi concedido por Pio XI em 1930; o projeto engavetado só alterava a lei civil. A campanha do PL chegou a cogitar designar um padre para publicar um direito de resposta sobre o boato do PT.
O episódio pode desgastar Flávio entre católicos, mas ainda pode mobilizar a direita contra o PT pela exploração da fé. A tentativa de dividir católicos e evangélicos leva a disputa eleitoral para a intimidade das famílias.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




