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Os petistas históricos José Dirceu e Antonio Palocci tiveram destaque no primeiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e, até hoje, são considerados os ministros mais poderosos que passaram pelos três governos Lula. Vinte e três anos depois, selam destinos opostos: a festejada volta de Dirceu às urnas e o amargo ostracismo imposto a Palocci.
Na última semana, Lula pediu publicamente votos para Dirceu, candidato a deputado federal por São Paulo, e classificou a provável eleição como uma reparação de injustiça. O poderoso ex-chefe da Casa Civil, cassado no mensalão, preso anos depois e sempre influente, agora também puxa voto.
O retorno encerra longa fase. Dirceu foi condenado por liderar a compra de apoio parlamentar e por desvios apurados na Operação Lava Jato. Em 2024, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a prescrição da condenação, anulando atos do ex-juiz Sergio Moro e estendendo o benefício dado a Lula.
Palocci percorreu caminho inverso. Ministro da Fazenda de Lula e chefe da Casa Civil da ex-presidente Dilma Rousseff (PT), deixou o círculo partidário, foi preso na Lava Jato e tornou-se colaborador da Polícia Federal (PF). Hoje, atua como consultor empresarial em São Paulo, longe da militância e dos holofotes.
Delação premiada de Palocci na Lava Jato destruiu a sua amizade com Lula
O divisor de águas na vida política de Palocci foi a delação premiada. Em 23 capítulos, ele detalhou a engrenagem que, segundo sua versão, arrolava gestões petistas, campanhas eleitorais, bancos e empreiteiras. As acusações gravíssimas alcançaram Lula, Dilma, dirigentes do PT e grandes empresários.
Seu relato gravado em vídeo de 2017 foi sobretudo duro com Lula. Palocci disse que o ex-presidente firmou “pacto de sangue” com a Odebrecht, convertido em uma “conta corrente informal” de R$ 300 milhões para o PT, além de ligar a empreiteira ao sítio de Atibaia e ao terreno do Instituto Lula.
Em outro trecho, Palocci traçou interpretação sobre o nascimento do primeiro governo Lula. Disse que duas correntes, a “programática” e a “pragmática”, se enfrentavam e, segundo o maior delator das maquinações criminosas do presidente, Lula teria arbitrado a disputa em favor do segundo modelo.
As acusações resultaram só em ressentimento de Lula com o ex-prefeito de Ribeirão Preto (SP), a quem tratava de irmão e que salvou a economia com inesperado respeito a pilares dos antecessores. Relatos foram questionados e processos contra Lula, arquivados. Em 2025, o ministro Dias Toffoli, do STF, anulou atos da Lava Jato contra Palocci, mas preservou a delação dele.
Vídeo com depoimento de Palocci retrata episódios da corrupção no país
É no atual contexto eleitoral que permanece politicamente explosivo o vídeo do depoimento de Palocci. Nele, o antigo homem de confiança de Lula afirma que o petista teria recebido vantagens da Odebrecht e diz ter pessoalmente transportado dinheiro. O trecho integra o seu relato à PF.
Enquanto isso, a campanha de Dirceu para voltar à Câmara dos Deputados duas décadas depois continua produzindo situações consideradas insólitas há até poucos anos, como o vídeo do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), outrora crítico feroz, pedindo votos para o “grande líder da esquerda”.
Curiosamente, essa matéria-prima tem presença discreta na campanha atual. Flávio Bolsonaro (PL), rival de Lula, chegou a publicar, em abril, vídeo combinando declarações de Lula com trechos da delação. O PT pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) a remoção, alegando descontextualização.
Dirceu e Palocci acabam, assim, funcionando como espelhos invertidos da mesma era. O primeiro seguiu fiel, aceitou a missão de ser o bode expiatório do grupo e, por isso, recebeu de Lula a promessa de plena reabilitação aos 80 anos de idade. O segundo acusou aliados e foi escanteado como traidor.

Jornalista de política e economia com foco na cobertura do Congresso Nacional. Passou pelos jornais Diário do Comércio (MG), Gazeta Mercantil, Estado de Minas, Brasil Econômico, Correio Braziliense e A Tarde (BA). **Os textos do colunista não expressam, necessariamente, a opinião da Gazeta do Povo.




