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Sílvio Ribas

Sílvio Ribas

Campanha petista

No modo “fazer o diabo” para ganhar a eleição, Lula ataca o seu próprio governo

Lula
Corrida presidencial apertada faz campanha de Lula apelar para o vale-tudo eleitoral e o populismo para evitar a derrota. (Foto: Andre Borges/EFE)

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A poucos dias de 4 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) entrou de vez no modo “fazer o diabo” para ganhar a eleição — expressão celebrizada por Dilma Rousseff (PT) e recentemente reeditada pelo presidente. A novidade é que, na sanha por votos, ele passou a atacar até decisões do governo.

O tal “fazer o diabo” para vencer nas urnas entrou para o vocabulário político em março de 2013, numa declaração de Dilma sobre sua campanha à reeleição no ano seguinte. A ironia de Lula resgatar agora a frase é que o seu vale-tudo vinha desde 2023 e, na reta final, alimenta críticas de rivais.

O caso mais recente — e mais gritante — das contradições nas quais Lula se afunda na campanha está na nova e radicalmente oposta posição sobre bets, no rumo de bani-las. É o mesmo governo que propôs, sancionou e implantou a regulação das apostas esportivas, obtendo bilhões em tributos.

Antes disso, houve outro recuo no caso da “taxa das blusinhas”. A gestão petista apoiou a tributação das compras internacionais de pequeno valor, e Lula sancionou a cobrança. Em 2026, porém, o fim da taxa entrou na pauta negociada pelo presidente com os comandos da Câmara e do Senado.

Com mesmo valor desde 2022, Bolsa Família tem reajuste a dias do pleito

O exemplo mais evidente do despudor eleitoral veio do reajuste do Bolsa Família. A apenas 17 dias do primeiro turno, o governo anunciou correção de 15,04% no valor do benefício, elevando o piso de R$ 600 para R$ 691. A estimativa divulgada é de impacto adicional superior a R$ 22 bilhões nas contas de 2027.

O governo sustenta que não há ganho real, mas reposição da inflação acumulada. A defesa oficial é de que há espaço fiscal para a medida. A proximidade da votação, contudo, abriu imediatamente a polêmica sobre o componente eleitoral de um benefício que alcança milhões de famílias.

A própria escolha do formato reforçou o debate. Em plena reta final da disputa, a correção ampla tem impacto político muito superior ao de medidas focalizadas. A decisão surge justamente quando o custo de vida ficou mais caro e tem impacto direto no desejo de Lula de preservar seu eleitorado de baixa renda.

No mesmo ambiente eleitoral, Lula acrescentou outra proposta de enorme apelo popular: oferecer canetas emagrecedoras pelo SUS. A ideia entrou no discurso presidencial antes de estarem claramente definidos todos os critérios de incorporação, público-alvo, cronograma e impacto financeiro da medida.

Nikolas Ferreira vê Lula como criador de problemas para o presidente resolver

Cada mudança de posição pode ser justificada por razões econômicas, sociais ou fiscais. O problema está na concentração de guinadas às vésperas da eleição. É justamente essa sequência que oferece a adversários material para confrontar o Lula candidato com o Lula presidente.

O resultado é Lula atacando a si próprio. Ao tentar convencer o eleitor de que pode corrigir problemas na canetada, o petista expõe decisões anteriores de seu governo ao crivo do público. No modo “fazer o diabo”, seu crítico mais incômodo acaba sendo o registro histórico de suas próprias palavras e atos.

Nas redes sociais, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) explorou essa contradição ao reunir propostas envolvendo bets, “taxa das blusinhas” e canetas emagrecedoras no SUS. Para ele, “o próprio governo cria os problemas para depois poder apresentar a solução para eles”.

Agora, o vale-tudo eleitoral chega também ao Judiciário. A campanha de Lula acionou diretamente o Supremo Tribunal Federal (STF) para apurar eventual interferência estrangeira nas eleições, destinando a ação a Flávio Dino, ex-ministro da Justiça de Lula e indicado pelo petista à Corte.

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