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O papa Francisco no voo de volta para Roma após visita à Eslováquia, em setembro de 2021.
O papa Francisco no voo de volta para Roma após visita à Eslováquia, em setembro de 2021.| Foto: Tiziana Fabi/EFE/EPA/Pool

“É um pouco estranho, porque a humanidade possui um historial de amizade com as vacinas. Desde crianças que nós as tomamos: uma contra o sarampo, outra contra a poliomielite... Todas as crianças foram vacinadas… e ninguém tugia nem mugia. Agora deu-se isto. Talvez tenha ocorrido pela virulência e incerteza não só da pandemia, mas também da diversidade das vacinas, e mesmo pela fama dalgumas vacinas que não seriam adequadas ou quase não passariam de água destilada. Isto criou medo nas pessoas. Depois há outros que falam dum perigo, porque vacinando-te a vacina entra em ti, e tantos arrazoados que criaram esta divisão. Até no Colégio Cardinalício existem alguns ‘negadores’ e um deles, coitado, está hospitalizado com o vírus. Ironia da vida! A verdade é que não me sei explicar bem isso: alguns explicam-no pela diversidade da proveniência das vacinas, que não são suficientemente testadas e têm medo. Mas é preciso esclarecer, esclarecer e falar com serenidade sobre isso. No Vaticano, todos foram vacinados, exceto um pequeno grupo: está-se a estudar o modo de os ajudar.” (Papa Francisco, coletiva de imprensa no voo de retorno da Eslováquia)

No texto anterior eu defendi o papa, mas hoje eu digo que essa resposta na coletiva é decepcionante, porque ignora completamente o grande problema moral no desenvolvimento das vacinas contra a Covid. Sim, eu sei que entrevistas de avião não são doutrina da Igreja, são as impressões pessoais do papa; e ele tem razão mesmo quando diz haver quem questione a eficácia da vacina, quem não queira recebê-la por achar que foi desenvolvida cedo demais (se você está nesse grupo, sugiro ler as respostas do padre e cientista Nicanor Austriaco), os legistas diplomados pela Universidade Facebook que não perdem uma chance de jogar algumas mortes na conta da vacina. Mas também há os que não querem nenhum tipo de cooperação com o mal, já que todas as vacinas disponíveis até agora em quase todos os países foram desenvolvidas ou testadas em linhagens celulares oriundas de um aborto voluntário. Eu não sei se o papa sabe os reais motivos do cardeal Raymond Burke (é dele que o pontífice está falando) para não tomar a vacina, mas me entristece que Francisco use o pejorativo “negacionistas” (a tradução no site do Vaticano é para o português de Portugal) para se referir a esse irmão no episcopado. Especialmente se o caso de Burke for o da objeção de consciência.

Se “ninguém tugia nem mugia” (outra gíria portuguesa, que significa ficar calado) para as outras vacinas, em parte é porque toda a questão sobre o uso de material biológico ilícito no desenvolvimento de imunizantes era algo quase ignorado, preocupação de uns poucos. E é bem complicado que, na hora de considerar as possíveis explicações para “dar-se isto”, o papa não tenha citado a controvérsia moral em sua enumeração – o motivo mais razoável de todos para alguém não querer se vacinar agora, talvez o único motivo razoável para alguém não querer se vacinar agora, lembrando que não se trata de recusar a vacina, mas estas vacinas.

A pandemia era a chance de formar bem os fiéis e criar uma massa crítica que pudesse colocar pressão sobre a indústria farmacêutica e as autoridades para acabar com o uso de material biológico ilícito. Isso foi feito?

Não custa recordar. O que a Igreja Católica vem dizendo desde 2005 ao menos é que, havendo um motivo proporcional (e a pandemia de Covid é um motivo proporcional), e inexistindo alternativa eticamente produzida (como de fato inexiste em boa parte do mundo), é lícito usar uma vacina que tenha sido produzida ou testada com material biológico oriundo de um aborto. Lícito, não obrigatório. Então, não vamos aqui ser rigoristas além da conta e dizer que os católicos não podem usar essas vacinas. Podem, e continuarão podendo enquanto não houver uma vacina “limpa” à disposição. Mas essa permissão traz consigo uma série de obrigações, como a de pressionar publicamente a indústria farmacêutica e as autoridades de saúde para que haja vacinas produzidas de forma ética. Além disso, a Igreja defende veementemente o direito daqueles que optam por não se vacinar por não desejarem cooperar de forma alguma (ainda que essa cooperação seja não intencional, indireta e muito remota) com o mal do aborto.

A pandemia era a chance de esse assunto deixar de ser preocupação apenas de círculos pró-vida e de levá-lo para todos os fiéis, formando-os bem e criando uma massa crítica que pudesse colocar pressão sobre a indústria farmacêutica e as autoridades. Isso foi feito? As recomendações da Pontifícia Academia para a Vida foram seguidas? Alguns bispos sim, desde o início fizeram questão de manifestar sua oposição e pedir que as pessoas tivessem acesso a vacinas eticamente limpas. Muitos leigos também o fizeram. Mas a maioria dos líderes católicos? Esses se calaram. E não era difícil fazer a coisa certa. Se, em cada pronunciamento sobre a importância de se vacinar, padres e bispos também fizessem a ressalva de que precisávamos de vacinas boas do ponto de vista moral, e que as atuais são toleradas de forma apenas temporária, já teríamos um bom começo. Mas nem isso aconteceu. Para emprestar um slogan comum do início da pandemia, boa parte da hierarquia bancou o avestruz para os problemas éticos e adotou o “primeiro, vacina em todo mundo; a moral a gente vê depois”.

Mas, assim como no “a economia a gente vê depois” o depois já chegou e a economia segue devastada, no “a moral a gente vê depois” o depois também já chegou e, adivinhem?, não conseguimos nada. A indústria farmacêutica não se sentiu nem um pouquinho pressionada a buscar alternativas éticas para produzir vacinas e medicamentos; tudo vai continuar a ser como era antes. O “dever moral de seguir lutando e usar todo meio permitido para dificultar a vida dos laboratórios farmacêuticos que agem inescrupulosamente e antieticamente”, nas palavras da PAV, não foi colocado em prática. E, a essa altura, Inês é morta, essa batalha está perdida. O front se moveu, estamos recuando. Agora a briga é para que respeitem a consciência de cada um.

E vamos perder esta também, como já vimos aqui no blog. Nos Estados Unidos, enquanto alguns bispos, mesmo incentivando a vacinação, já deixaram claro que vão proporcionar todos os meios para os objetores de consciência terem seu direito garantido, outros chegaram a proibir padres de assinar qualquer papel que um católico tenha de apresentar às autoridades caso queira simplesmente fazer o que a PAV recomenda e exercer um direito que a Igreja lhe garante. E, convenhamos, se a autoridade religiosa deixa na mão os seus objetores de consciência, como esperar que a autoridade civil os proteja? Só mesmo um juiz ou governante que tenha uma noção muito clara do valor desse direito – e esses são raridade. Quantos desses decretos de vacinação obrigatória de servidores públicos Brasil afora contemplam a objeção de consciência nesses casos? E quem realmente acha que um objetor de consciência sairia vencedor em um julgamento neste nosso Supremo?

Que essa profusão de pequenos déspotas que se revelaram na pandemia ou que um Barroso da vida não dê valor a consciência das pessoas é até esperado. Mas era igualmente esperado que a hierarquia católica a defendesse, em vez de ser cúmplice do poder civil. Talvez as coisas tenham de piorar para que os olhos de muitos bispos se abram, mas rezemos para que não seja necessário chegar a tanto e que os fiéis tenham cada vez mais pastores dispostos a defender tanto a vida nascente quanto o primado da consciência, quase ignoradas neste debate até agora.

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